A Ponte Preta não caiu em Cuiabá — a própria gestão desmontou o clube
A queda recorde coroa salários atrasados, transfer bans e reforços pagos por terceiros. Antes do time, a Ponte precisa reconstruir a gestão.
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Você pode culpar o pênalti, reclamar do VAR, apontar a apatia do time ou escolher o técnico da vez para carregar o caixão. Mas, a esta altura, você também sabe que seria conversa para fugir do assunto. A Ponte Preta não caiu porque perdeu para o Cuiabá. Caiu porque passou meses arrancando tijolos da própria casa e, quando percebeu a rachadura, tentou consertá-la com uma prancheta de escalação.
Na Arena Pantanal, em 3 de outubro, houve apenas a interdição oficial. Kauan Cristtyan abriu o placar aos 25 minutos do primeiro tempo, depois de a Ponte permitir três lances consecutivos dentro da pequena área. Três. Quando o adversário ganha tantas tentativas no lugar mais protegido do campo, já não se trata de azar: é como deixar a porta aberta, a chave na fechadura e depois reclamar do vento.
Pedro Henrique fez o segundo aos 27 minutos da etapa final, em cobrança de pênalti marcada após revisão do VAR. O Cuiabá venceu por 2 a 0, e a matemática terminou o serviço que a gestão vinha preparando havia muito tempo.
A Arena Pantanal não foi o local do acidente; foi o endereço da vistoria final.
A Ponte ficou com 13 pontos em 31 partidas: três vitórias, quatro empates e 24 derrotas. Restavam sete jogos, o que permitia alcançar, no máximo, 34 pontos. O Botafogo-SP, primeiro clube fora da zona de rebaixamento naquele momento, já tinha 35. Não havia recurso, combinação ou calculadora amiga. A queda estava consumada na 31ª rodada, igualando o recorde de rebaixamento mais precoce da Série B por pontos corridos, pertencente ao Duque de Caxias de 2011.
E ainda existe um porão abaixo desse porão. O Duque terminou aquela edição com 17 pontos, e a Ponte corre o risco de registrar a menor pontuação da história da competição. Não é um detalhe estatístico para preencher transmissão. É a medida da deterioração.
Só que os números do campo, por mais brutais que sejam, não contam tudo. Eles mostram a parede caída, não quem retirou o alicerce.
Em agosto, jogadores paralisaram atividades para protestar contra salários atrasados. Márcio Zanardi pediu demissão em 26 de agosto, quando a equipe tinha dez pontos depois de 24 rodadas. Meses antes, em nota divulgada em 9 de abril, o Sindicato de Atletas de São Paulo havia informado que todos os jogadores com mais de um mês de clube possuíam vencimentos pendentes.
Portanto, não houve surpresa. Houve aviso, repetição e omissão.
Salário atrasado não aparece na súmula, mas entra em campo todo fim de semana.
É cômodo discutir se faltou intensidade, concentração ou espírito competitivo. Claro que um time profissional deve competir. Mas a direção perde o direito de cobrar normalidade quando não entrega o básico. O atleta pode até calçar a chuteira; a insegurança entra junto. E não existe palestra motivacional capaz de substituir compromisso financeiro. Quem tenta fazer isso está pedindo raça com o boleto do outro — modalidade que dirigente adora praticar sem precisar de exame antidoping.

A sequência de 22 partidas sem vitória na Série B, com 19 derrotas e três empates, não nasceu de uma tarde infeliz. As derrotas por 6 a 0 para Vila Nova e Londrina tampouco foram raios caindo no mesmo endereço. Houve uma vitória por 1 a 0 sobre o CRB em 20 de setembro, mas ela funcionou como aquela mão de tinta que disfarça a umidade durante uma visita. Logo depois vieram o 2 a 0 para o Botafogo-SP e, então, o 2 a 0 em Cuiabá.
O problema estava atrás da tinta.
Em 11 de setembro, a Ponte quitou seu terceiro transfer ban na Fifa, relacionado a uma dívida com o Iguazú Nippon, do Paraguai. Três dias depois, registrou seis jogadores. Quatro chegaram emprestados pelo Boavista-RJ, que assumiu os salários deles até o fim da Série B. Na mesma operação, a diretoria pagou apenas um mês dos vencimentos atrasados de jogadores, comissão técnica e funcionários administrativos.
Leia novamente, porque o absurdo merece alguns segundos de silêncio: um clube impedido de contratar por dívida precisou de outro clube bancando salários para reforçar um elenco cujos próprios vencimentos continuavam atrasados.
Isso não é planejamento emergencial. É sobrevivência improvisada. É reformar a cozinha com cimento emprestado enquanto a sala pega fogo e alguém, muito sério, discute a posição do sofá.
A Ponte não ficou sem elenco por acaso; ficou sem capacidade de montar um elenco.
Eis a diferença que precisa orientar qualquer debate daqui para frente. Trocar treinador, renovar contrato, dispensar jogador e prometer acesso são decisões da superfície. Antes delas, há perguntas menos glamourosas e muito mais urgentes: quem responde pelas dívidas? Qual é o plano para manter salários em dia? Como se recupera a credibilidade para contratar? Que controles impedirão a repetição dessa temporada?
Sem respostas públicas e confiáveis, anunciar reforço vira decoração de imóvel condenado.
A crueldade aumenta quando se olha para 2025. A Ponte havia acabado de conquistar a Série C, o primeiro título nacional de sua história. A taça poderia ter servido como fundação para reorganizar o clube, ampliar confiança e preparar o retorno à Série B. Em vez disso, virou a varanda bonita de uma casa que apodrecia por baixo.
No Campeonato Paulista de 2026, a Ponte foi rebaixada com um ponto — um empate e sete derrotas. Depois veio a campanha da Série B, com 13 pontos em 31 jogos. Entre o primeiro título nacional e dois rebaixamentos, não existe apenas uma montanha-russa esportiva. Existe uma cabine de controle sem comando confiável.

A conquista da Série C não foi falsa, nem deve ser diminuída. Foi histórica, e o mérito pertence a quem a conquistou dentro de campo — não à diretoria que desperdiçou o impulso logo depois. O erro está em usá-la como salvo-conduto para a administração que veio depois. Título não quita salário, não derruba transfer ban por encanto e não transforma improviso em projeto. Taça é patrimônio emocional; governança é o que impede esse patrimônio de virar peça de museu em clube quebrado.
A recente proposta de transformação da Ponte em SAF foi rejeitada pelos associados em meio à desconfiança em relação à atual diretoria. O episódio não autoriza uma resposta simplista. SAF não é água benta, e associação civil também não é garantia de virtude. O modelo jurídico importa menos do que a qualidade, a transparência e a responsabilidade de quem manda.
O maior erro agora seria usar o desespero provocado pelo rebaixamento para empurrar qualquer solução sem confiança. A reconstrução precisa começar justamente onde a demolição começou: na gestão. Contas compreensíveis, obrigações cumpridas, responsabilidades identificadas e um plano compatível com a realidade. Sem isso, muda-se a placa na fachada e preserva-se a rachadura.
No dia 6 de outubro, às 21h35, a Ponte enfrentará o Juventude no estádio Ítalo Mário Limongi, em Indaiatuba. O Moisés Lucarelli não aparece como sede da partida na tabela divulgada para a 32ª rodada. Não cabe inventar motivo. Basta notar a força do símbolo: depois de perder o chão administrativo e o lugar na Série B, a Ponte seguirá a campanha sem ter sua casa tradicional indicada como palco do próximo jogo.
O futebol ainda precisa ser jogado. Há uma camisa a respeitar, pontos a disputar e o risco humilhante de ficar abaixo dos 17 somados pelo Duque de Caxias. Mas não se reconstrói um clube começando pelo ponta-direita, pelo esquema tático ou pelo nome do próximo treinador. Isso vem depois.
Primeiro é preciso pagar quem trabalha, recuperar confiança e devolver sustentação ao prédio.
Escalação se escreve na prancheta; credibilidade, no holerite pago.
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