Bernard e Reinier deram rosto ao pós-Hulk — sem virar donos do Atlético
Bernard e Reinier lideram, Cuello e Borbas completam a obra: o 3 a 0 mostrou que o melhor Atlético pós-Hulk é justamente aquele que não procura dono.
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Não, o 3 a 0 sobre o Montevideo City Torque não foi apenas uma goleada protocolar contra um adversário uruguaio tratado como frágil antes mesmo de a bola rolar. Essa leitura é confortável, preguiçosa e, sobretudo, incapaz de enxergar o que realmente mudou no Atlético. Na noite de 14 de outubro, diante de 38.020 torcedores na Arena MRV, o time de Eduardo Domínguez apresentou algo mais importante do que a vantagem larga na semifinal da Copa Sul-Americana: mostrou que aprendeu a atacar sem procurar um proprietário para cada jogada. Reinier fez o primeiro, Bernard marcou o segundo, Thiago Borbas saiu do banco para fechar a conta. Cuello não balançou a rede, mas abriu o lance inicial com uma meia-lua perto do meio-campo. Victor Hugo assistiu Reinier. Reinier serviu Bernard. Cissé iniciou a construção do terceiro, Renan Lodi cruzou rasteiro e Borbas completou. A autoria foi coletiva até na ficha técnica. Ninguém precisou carregar o piano, tocar o concerto e ainda vender o ingresso na porta.
O roteiro da partida ajuda a desmontar a tese de que tudo caiu no colo do Atlético. Os gols de Cuello e Lyanco foram anulados aos 14 e aos 22 minutos. Aos 33, quando o placar ainda estava zerado, Gabriel Delfim precisou fazer uma defesa decisiva na cabeçada de Salomón Rodríguez. Três minutos depois, Reinier abriu o marcador; aos 41, Bernard ampliou. Há uma diferença enorme entre enfrentar um rival inferior e transformar superioridade em placar — o futebol brasileiro produz, toda semana, exemplos constrangedores de favoritos que confundem posse de bola com certidão de vitória. O Atlético não confundiu. Teve 65% de posse, completou 605 dos 660 passes, alcançou 91,7% de precisão, finalizou 16 vezes, acertou oito no gol e criou quatro grandes chances. Controle, volume e contundência. Não foi um passeio porque o adversário entregou chinelos na entrada; foi um passeio porque o Galo soube por onde andar.
O melhor Atlético pós-Hulk é justamente aquele que não tenta imitar Hulk.
Essa constatação exige algum cuidado, porque a memória recente do clube não pode ser reescrita ao sabor de uma goleada. Hulk deixou o Atlético em 1º de maio de 2026, após rescisão em comum acordo, com 140 gols e 56 assistências em 311 partidas. Foi protagonista dos títulos do Brasileirão e da Copa do Brasil de 2021 e da Supercopa de 2022. A grandeza dessa passagem é indiscutível. O problema começa quando uma era tão marcada por um jogador vira molde obrigatório para a seguinte. O clube se acostuma à ideia de que precisa haver sempre um centro gravitacional, um sujeito para quem a bola, a cobrança, a expectativa e eventualmente a culpa convergem. Só que substituir uma figura histórica por uma cópia de ocasião costuma dar errado. A capa serve no herói original; no sucessor apressado, arrasta no chão e vira fantasia de festa infantil.

Bernard e Reinier chegaram a dez gols cada em 2026 e dividem a artilharia atleticana na temporada. Cuello aparece logo atrás, com nove. Os números já seriam relevantes isoladamente, mas ganham outro peso quando lidos em conjunto: o Atlético tem três jogadores separados por apenas um gol no topo de sua produção ofensiva. Não existe um abismo entre o salvador e os coadjuvantes. Existe uma fila curta de gente capaz de decidir. Bernard, além disso, soma cinco gols nesta Sul-Americana e sete pelo clube em todas as edições, tornando-se o maior artilheiro atleticano na história da competição. Reinier alcançou seu melhor número em uma mesma temporada com a camisa do Galo e já marcou três vezes no torneio continental. Mesmo assim, nenhum dos dois precisa receber escritura, coroa ou chave do vestiário. Eles deram rosto ao novo ataque, não tomaram posse dele.
Thiago Borbas reforçou essa ideia de maneira quase didática. Entrou aos 17 minutos do segundo tempo e marcou 17 minutos depois. Em outras versões do Atlético, a saída de uma referência poderia significar queda brusca de ameaça, como se o banco fosse apenas uma sala de espera com chuteiras. Contra o City Torque, a troca renovou a capacidade de ferir. E o gol não nasceu de uma aventura individual: começou em Cissé, passou pelo cruzamento de Renan Lodi e terminou em Borbas. Até o reserva que decidiu precisou — e recebeu — a participação dos demais.
Time sem dono não é time sem liderança. É time com responsabilidade repartida.
Esse é o mérito central de Eduardo Domínguez. Desde que assumiu, em fevereiro, o treinador soma 22 vitórias, 11 empates e 12 derrotas em 45 jogos. Na Arena MRV, tornou-se o técnico com mais triunfos: são 16 vitórias, cinco empates e apenas uma derrota em 22 partidas, aproveitamento de 80,3%. Mais reveladora do que a estatística, porém, é a direção do trabalho. O Atlético chegou a sete jogos de invencibilidade e, depois de 11 rodadas do segundo turno do Brasileirão, tinha a segunda melhor campanha do recorte, com 22 pontos — seis vitórias, quatro empates e uma derrota, atrás somente do Flamengo, com 24. O sétimo lugar geral, com 47 pontos em 30 jogos, mostra que houve atraso e desperdício no caminho. A arrancada recente mostra que o time encontrou uma lógica.
Domínguez não montou uma equipe órfã de estrela. Montou uma equipe menos dependente da iluminação de uma estrela só. Parece detalhe semântico, mas é uma revolução prática. Bernard pode aparecer entre linhas e concluir. Reinier pode atacar o espaço, marcar e depois servir. Cuello pode produzir a jogada que rompe o campo antes de entrar na área. Borbas pode começar fora e terminar no centro da comemoração. Procurar um “novo salvador” nesse cenário seria como interromper uma orquestra afinada para dar o palco inteiro ao sujeito que chegou vendendo um microfone dourado. Bonito na vitrine, péssimo para a música.

O mercado, a torcida e até parte do ambiente do futebol têm fascínio por hierarquias simples. Quem é o craque? Quem manda? Para quem se entrega a bola quando aperta? Perguntas fáceis rendem respostas fáceis e contratações caras. Mas o Atlético atual oferece uma resposta mais adulta: depende do lance. Contra o City Torque, Reinier foi finalizador e garçom; Bernard confirmou seu peso continental; Cuello criou o desequilíbrio inicial; Borbas resolveu vindo do banco. O protagonismo circulou sem que o time perdesse identidade. Isso não diminui ninguém. Ao contrário, protege todos. Quando o peso é dividido, uma noite ruim deixa de ser sentença coletiva.
Há, claro, uma semifinal a fechar. O Atlético vai ao Estádio Centenário em 21 de outubro, às 19h, podendo avançar com vitória, empate ou derrota por até dois gols; revés por três levaria a decisão aos pênaltis. Domínguez fez bem ao conter a espuma: “Pés no chão, tranquilidade, que temos que ir lá e fechar a série”. O aviso importa ainda mais para um clube que foi vice da Sul-Americana de 2025 depois de empatar sem gols com o Lanús por 120 minutos e perder nos pênaltis por 5 a 4. Trauma continental não se combate com soberba. Combate-se repetindo o que funcionou, sem transformar a vantagem em licença para abandonar o modelo.
Se confirmar a vaga, o Atlético disputará em 21 de novembro, no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez, em Barranquilla, uma final contra Vasco ou Boca Juniors. Até lá, surgirá a tentação de personalizar a campanha, escolher um herói oficial e vender a narrativa de que alguém herdou o lugar de Hulk. O clube deve resistir. Bernard merece aplausos, Reinier merece destaque, Cuello merece reconhecimento e Borbas merece confiança. Nenhum deles precisa ser promovido a dono. O verdadeiro avanço foi fazer a bola passar por todos sem pedir autorização a um só.
A capa está no cabide. Que ninguém tenha a péssima ideia de vesti-la.
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