Não foi presente: o Cruzeiro tomou a América — e o prêmio precisa ficar com as Cabulosas

A reação do 0 a 3 teve cara de milagre, mas nasceu de investimento e elenco. Agora, os R$ 11,1 milhões do título precisam continuar com as Cabulosas.

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Mágico diante de uma taça enquanto jogadoras do Cruzeiro constroem uma escada entre os placares de 0 a 3 e 4 a 4.

Vai mesmo chamar de milagre e fingir que os R$ 16 milhões investidos pelo Cruzeiro não entraram em campo? É a pergunta incômoda que cabe depois da noite em Quito. A reação contra o Corinthians foi absurda, dessas que fazem o torcedor pedir outra rodada no bar só para tentar entender. Mas não caiu do céu. Foi construída.

Milagre explica o espanto; investimento explica por que houve reação.

Gabi Zanotti marcou aos 3 e aos 41 minutos do primeiro tempo. Vic Albuquerque fez o terceiro aos 3 da etapa final. Diante de um Corinthians que buscava o quarto título consecutivo, jamais havia perdido uma final de Libertadores e chegou à decisão com cinco vitórias, 21 gols marcados e apenas dois sofridos, o roteiro parecia encerrado. Só esqueceram de avisar às Cabulosas — e roteiro de futebol, como sabemos, costuma ter a estabilidade emocional de um gato em cima do telhado.

Byanca Brasil descontou, Vitória Calhau converteu o pênalti e recolocou o Cruzeiro no jogo. Vic marcou outra vez, abrindo 4 a 2, mas Ketlin fez o terceiro e Letícia Ferreira empatou aos 45, de cabeça. Três gols mineiros nasceram de bolas levantadas na área, justamente um ponto forte conhecido que a própria Gabi Zanotti reconheceu depois. “Mudamos a postura, e isso é inadmissível”, admitiu a corintiana.

A frase revela o pecado do Corinthians, mas não diminui o mérito cruzeirense. O time mineiro chegou à final com 100% de aproveitamento e somente um gol sofrido nos cinco jogos anteriores. Não era uma equipe improvisando coragem. Era uma equipe preparada, com repertório suficiente para explorar sua melhor arma mesmo quando o placar berrava que tudo estava perdido.

Nos pênaltis, o impossível continuou trabalhando. Após o erro de Lorena Bedoya, Gisela Robledo teve a cobrança do título corintiano e mandou por cima. Milena Ferreira converteu para o Cruzeiro; Camila Rodrigues defendeu o chute de Gi Fernandes e fechou a disputa em 5 a 4. Na primeira participação continental, as Cabulosas derrubaram uma potência que havia vencido suas seis finais anteriores.

O Cruzeiro não recebeu a Libertadores de presente. Tomou a taça das mãos de quem parecia dona dela.

Essa conquista começou antes de Quito. O clube destinou R$ 16 milhões ao futebol feminino em 2026, aumento de 6% sobre os cerca de R$ 15 milhões de 2025, e promoveu uma reformulação de verdade: 11 saídas, 11 contratações. Ketlin e Milena, duas reforçadas, interferiram diretamente na decisão. As vendas de Isa Haas, Isa Chagas e Rebeca ainda renderam aproximadamente R$ 6 milhões ao próprio projeto. Há planejamento esportivo e capacidade de gerar receita — não uma vaquinha movida a fé.

Byanca, artilheira cruzeirense na competição com seis gols, contou que chegou a pensar em não disputar o torneio por causa das críticas recebidas durante o ano. Ficou, marcou na final e ajudou a virar o destino de um clube que havia perdido a vaga nacional para 2027 ao cair nas quartas do Brasileirão. O título agora garante presença na próxima Libertadores, além da semifinal contra o Barcelona, em 27 de janeiro de 2027, em Miami, e da primeira Copa do Mundo de Clubes Feminina da FIFA, prevista para 2028.

Por isso, os US$ 2,05 milhões arrecadados — cerca de R$ 11,1 milhões entre título e participação — precisam permanecer integralmente com as Cabulosas. Nem uma fatia deve escorrer para “outros gastos”, aquele buraco sem fundo tão conhecido no futebol brasileiro.

Jogadoras do Cruzeiro usam moedas de um cofre em forma de taça para regar uma árvore do projeto feminino.

Dinheiro conquistado pelo futebol feminino deve fortalecer o futebol feminino.

Usar a taça como ponto de chegada seria o verdadeiro desperdício. O Corinthians recebeu US$ 600 mil pelo vice e continuará sendo referência; o Cruzeiro tem nas mãos a chance rara de criar uma segunda potência duradoura no país. A América já foi tomada. Agora, o prêmio precisa regar a revolução — não pagar a conta de outra mesa.

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