O Santos adia Gabigol, mas a conta não espera a eleição

Gabigol entrega como estrela, mas o Santos empurra a decisão para dezembro. Com dívida bilionária e folha inchada, negociar agora é obrigação, não luxo.

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Gabigol puxa uma carroça do Santos enquanto dirigentes aguardam dezembro, contas correm atrás do clube e o Cruzeiro corta um contracheque.

A conta já chegou.

O Santos, porém, age como aquele cliente que pede mais uma rodada, evita olhar para a comanda e promete resolver tudo “na saída”. A saída, no caso, seria dezembro: fim do Brasileirão, eleição presidencial, troca ou permanência de poder. Só há um detalhe inconveniente. O mercado não fecha a cozinha para esperar a política da Vila Belmiro decidir quem vai sentar na cabeceira.

Gabigol precisa ser a primeira decisão do clube para 2027. Não porque tenha nome, passado ou capacidade de incendiar arquibancada. Isso tudo é acessório. A razão está no que ele entrega agora: 21 gols e dez assistências em 42 partidas oficiais na temporada. São 31 participações diretas em gols, seu recorde em um ano pelo Santos.

Em 2014 e 2015, ele chegou a 30 participações. Precisou de 56 jogos em cada uma dessas temporadas. Em 2026, superou a marca com 14 partidas a menos. Um levantamento do Superscore ainda o colocou como o jogador de clube da Série A com a maior média de participações em gols: 0,738 por jogo.

Gabigol custa caro. Caro mesmo é gastar sem saber por quê.

O jogo contra o Remo foi quase uma demonstração comercial, daquelas feitas para o comprador parar de fingir que não viu o produto. Gabigol deu a assistência para Rony abrir o placar e marcou aos 41 minutos do segundo tempo na vitória por 2 a 1, no Mangueirão. Participou dos dois gols e resolveu quando a partida já apertava o colarinho.

Foi a quarta vitória consecutiva do Santos no Brasileirão, sequência que o clube não conseguia desde novembro de 2019. O time chegou à oitava posição, com 38 pontos em 27 partidas, e ostenta 70,8% de aproveitamento no returno, a segunda melhor campanha desse recorte. Há uma arrancada em curso, e Gabigol não está pegando carona nela. Está dirigindo boa parte do trajeto.

Isso não apaga a noite amarga diante do Atlético-MG pela Sul-Americana. Ele marcou aos 26 minutos do segundo tempo na derrota por 4 a 2, mas teve a cobrança defendida por Gabriel Delfim na disputa de pênaltis que eliminou o Santos. Estrela também perde pênalti. A diferença é que estrela de verdade volta a pedir a bola — e, três dias depois, Gabigol decidiu contra o Remo.

Até 23 de setembro, apesar de todos esses números, o Santos não havia aberto conversa com o Cruzeiro nem com o atacante sobre uma permanência. Alexandre Mattos foi direto: “Não fizemos e não terá nenhum tipo de contato nesse momento”. A ideia indicada pelo executivo é esperar o fim do Brasileirão e a eleição presidencial prevista para dezembro.

Adiar uma decisão também é decidir — quase sempre, em favor do outro lado.

Urna eleitoral bloqueia uma negociação entre Santos e Cruzeiro enquanto Gabigol segura uma folha com seus números da temporada.

A justificativa eleitoral pode soar institucionalmente prudente. Na prática, é uma irresponsabilidade esportiva. Negociar não significa assinar um cheque em branco, hipotecar a Vila ou entregar a senha do banco ao Cruzeiro. Significa descobrir valores, condições, margem para parcelamento, possibilidades contratuais e disposição das partes. Significa fazer o trabalho antes que o garçom apareça batendo a caneta na comanda.

O empréstimo termina em dezembro de 2026, enquanto o vínculo de Gabigol com o Cruzeiro vai até dezembro de 2028. E há outra informação decisiva: em 2027, o clube mineiro não pretende mais bancar parte dos salários de jogadores emprestados. A nova política será aplicada também ao atacante.

Marcelo Teixeira já confirmou que o Cruzeiro paga parte dos vencimentos e admitiu que o orçamento santista não comportaria sozinho o valor integral. Ótimo. Então há um problema concreto a ser resolvido. Problemas concretos exigem negociação concreta, não um calendário eleitoral usado como biombo.

O Santos não pode pagar qualquer preço. Isso seria tão sensato quanto pedir sobremesa fiado depois de descobrir que o cartão foi recusado no prato principal. O passivo calculado pelo Conselho Fiscal chegou a R$ 1,241 bilhão ao fim do segundo trimestre; o balancete da diretoria apontou R$ 1,193 bilhão. Mesmo na versão menos assustadora, a conta segue colossal.

O clube fechou o segundo trimestre com déficit de R$ 119,6 milhões, embora tenha arrecadado R$ 126 milhões no período. Em maio, a despesa mensal com o elenco se aproximou de R$ 30 milhões: R$ 14,2 milhões em salários e R$ 15,1 milhões em direitos de imagem. E os direitos de imagem estavam atrasados em 23 de setembro, segundo confirmação do próprio Alexandre Mattos. O débito deveria ter sido quitado dois dias antes.

Como se a mesa ainda estivesse leve, a CNRD condenou o Santos a pagar R$ 18.616.377,46 ao Cuiabá pela contratação de Joaquim e pela participação na venda posterior do zagueiro ao Tigres. Ainda cabe recurso, claro. Mas recurso jurídico não é recurso financeiro. Um tenta reverter a cobrança; o outro é justamente o que anda faltando.

Nesse cenário, o Santos contratou Arthur, Everton Cebolinha e Philippe Coutinho até o fim de 2026, Rodinei até 2027 e Lima por empréstimo até dezembro. É uma política de curto prazo que tenta salvar o presente empilhando compromissos no balcão. Alguns podem ajudar, outros não. O ponto é anterior: se havia espaço para cinco apostas, deveria haver urgência para tratar do jogador que já deixou de ser aposta.

Carrinho do Santos cheio de jogadores com contratos curtos diante de uma caixa de Gabigol, boletos e uma carteira vazia.

Coutinho, aos 34 anos, foi considerado o reforço mais arriscado do pacote porque não atuava profissionalmente desde fevereiro quando assinou. Ainda assim, entrou no carrinho. Gabigol, com produção comprovada em 2026, ficou esperando perto do caixa enquanto a diretoria procura moedas nos bolsos e consulta a agenda da eleição.

O Santos está tratando certeza como luxo e aposta como oportunidade.

Essa inversão é o verdadeiro erro. A discussão não deve ser “Gabigol ou responsabilidade financeira”, porque responsabilidade financeira não consiste apenas em cortar. Consiste em escolher. Folha cara é um problema quando está pulverizada em nomes, contratos curtos e retornos incertos. Um investimento elevado pode ser defensável quando concentra desempenho, protagonismo e impacto esportivo mensurável.

O Santos precisa abrir espaço. Se a permanência de Gabigol exige reduzir custos, então a direção deve começar por aí: rever prioridades, evitar novas compras por impulso e parar de montar elenco como quem percorre um rodízio tentando provar todos os pratos antes que a promoção acabe. A folha não pode carregar todo nome conhecido que aparece disponível. Medalhão sem encaixe continua pesando, mesmo quando chega com laço de presente.

Há, evidentemente, um limite. Se o Cruzeiro exigir uma operação incompatível com a realidade santista, o clube deve recusar. Se os vencimentos não puderem ser readequados, também. Mas só se conhece o limite depois de sentar à mesa. Hoje, o Santos não está negociando duro, negociando mal ou negociando devagar. Não está negociando.

Eis o absurdo: o clube já tem a resposta esportiva, mas se recusa a fazer a pergunta financeira. Gabigol produziu mais participações em gols do que em qualquer outra temporada pelo Santos e lidera a média entre jogadores de clubes da Série A. Quantas provas ainda cabem no processo? Precisa marcar, assistir, cobrar o escanteio, fechar o borderô e levar a ata da eleição ao cartório?

A próxima gestão, seja qual for, herdará os contratos, a dívida, os atrasos e as decisões que a atual tomar — inclusive as que preferir não tomar. Governança não é paralisia. A eleição pode definir quem assina o acordo definitivo, mas não impede que o Santos abra a conversa agora, estabeleça parâmetros e deixe uma operação encaminhada, sujeita às aprovações necessárias.

Gabigol não merece permanência automática. Merece prioridade absoluta. É o único investimento caro do elenco que apresenta, em números, entrega de estrela. Se for preciso escolher um nome para preservar enquanto se corta o excesso, a escolha já está feita dentro de campo.

A urna escolhe o presidente. A conta não espera o voto.

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