Pezzolano caiu tarde — e o décimo técnico de Barcellos não pode ser outro álibi

A demissão era inevitável, mas não absolve a direção que levou o Inter ao Z-4, enfraqueceu o elenco e deixou só dez jogos para evitar outra Série B.

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Barcellos troca Pezzolano no comando de um ônibus do Internacional sem rodas.

Pezzolano caiu quando já era tarde.

O Internacional anunciou em 20 de setembro o encerramento do contrato do uruguaio, um dia depois da derrota por 1 a 0 para o São Paulo, no MorumBIS. Calleri marcou, de pênalti, aos 13 minutos do primeiro tempo. O restante da noite foi aquela agonia conhecida: o relógio correndo mais do que o time, a tabela apertando o pescoço e a impressão de que a decisão já estava tomada antes mesmo do apito final.

Não saiu apenas o treinador. O coordenador técnico Matias Filippini, os auxiliares Esteban Conde e Mauro Jarodich, o preparador físico Gonzalo Alvarez e o analista Manuel Ramas também deixaram o clube. Enquanto a direção procura um substituto, o auxiliar permanente Pablo Fernandez comanda as atividades no CT Parque Gigante.

Demitir Pezzolano era necessário; transformá-lo em álibi será indecente.

Antes de apontar para o andar de cima, convém construir o melhor argumento possível em defesa da direção. E ele existe. Pezzolano fracassou. Não foi vítima inocente de uma conspiração cósmica, tampouco um gênio incompreendido sabotado pelo alinhamento dos planetas. Seu trabalho entregou resultados insuficientes e terminou com o Inter no Z-4.

Foram 46 partidas, com 18 vitórias, 12 empates e 16 derrotas: aproveitamento de 47,8%, 66 gols marcados e 55 sofridos. Nos cinco Gre-Nais, venceu um, empatou dois e perdeu dois. Perdeu o Campeonato Gaúcho para o Grêmio e caiu diante do rival nas quartas de final da Copa do Brasil. Para qualquer treinador do Internacional, essa coleção pesa como uma geladeira nas costas.

Depois da pausa para a Copa do Mundo, a situação desandou de vez: duas vitórias, cinco empates e sete derrotas em 14 jogos por todas as competições. Antes do triunfo por 2 a 1 sobre a Chapecoense, em 12 de setembro, o Colorado havia completado dez partidas sem vencer no Brasileirão. A vitória deu oxigênio, mas não curou a doença.

Em 6 de setembro, depois da derrota para o Santos, o executivo Fabinho Soldado justificou a permanência do técnico com uma frase destinada a envelhecer em velocidade industrial: “O fato novo nosso é ganhar jogos”. Não foi. Tratar vitória como fato novo para manter treinador é quase como anunciar que o plano contra o incêndio consiste em esperar a chuva.

Pezzolano teve tempo, acumulou derrotas decisivas e não encontrou uma saída. Sua demissão, portanto, não é injusta. É inevitável. O problema começa quando a inevitabilidade é vendida como solução.

O técnico fracassou. A direção fracassou antes, durante e depois dele.

O Inter terminou a 28ª rodada em 18º lugar, com 28 pontos em 28 partidas. São seis vitórias, dez empates e 12 derrotas, com 30 gols marcados, 36 sofridos e saldo negativo de seis. O Grêmio, 17º, tem 29 pontos. O Vasco, primeiro fora da zona de rebaixamento, soma 31 e ainda possui um jogo a menos do que o Colorado.

Esses números não apareceram de repente no MorumBIS. A crise não caiu de paraquedas junto com o pênalti de Calleri. A direção assistiu à deterioração, sustentou o treinador quando os sinais já piscavam em vermelho e só apertou o botão de emergência quando o prédio estava tomado pela fumaça.

Há quem argumente que bancar Pezzolano foi uma tentativa legítima de romper com a cultura brasileira da demissão fácil. Em tese, é uma defesa razoável. Continuidade pode ser virtude. Paciência pode proteger um projeto nos momentos ruins. O futebol nacional realmente trata o banco de reservas como cadeira elétrica com patrocínio.

Mas continuidade sem convicção, estrutura e resposta em campo não é projeto. É paralisia. Se a direção acreditava no treinador, precisava sustentá-lo com um elenco capaz de executar o trabalho. Se já não acreditava, deveria ter mudado antes. Fez o pior dos dois mundos: enfraqueceu o grupo, esperou a crise virar emergência e entregará ao próximo técnico somente dez partidas para evitar o segundo rebaixamento da história colorada.

Segundo levantamento do Lance, o substituto de Pezzolano será o décimo treinador da gestão Alessandro Barcellos. Décimo. Nesse ponto, já não se discute apenas a competência de quem ocupa o cargo, mas a capacidade de quem escolhe, avalia, banca e demite.

Dez treinadores passam por uma porta giratória enquanto dirigentes escondem problemas financeiros sob um tapete.

Trocar o técnico pela décima vez não é convicção. É reincidência.

Uma gestão que chega ao décimo comandante não pode apresentar cada demissão como se tivesse descoberto um culpado inédito. A porta giratória do CT Parque Gigante já rodou demais. E, por mais que treinadores tenham responsabilidades distintas, a assinatura no contrato continua vindo do mesmo lado da mesa.

A montagem do elenco torna a tentativa de concentrar a culpa em Pezzolano ainda mais conveniente. O Inter contratou cinco jogadores para o segundo semestre, mas acumulou 18 saídas ao longo de 2026. Rafael Borré, então artilheiro da equipe na temporada com nove gols, foi negociado com o River Plate em uma operação de US$ 4,5 milhões. Não se tira o principal goleador de um time ameaçado e depois se finge surpresa porque o ataque perdeu força.

Como requinte de crueldade administrativa, o clube encerrou a janela sob um transfer ban da Fifa relacionado a uma dívida pela contratação do zagueiro Juninho. Ou seja: o elenco perdeu peças, o artilheiro foi negociado e a possibilidade de correção ficou bloqueada. Trocar Pezzolano nesse cenário é trocar o motorista depois de vender as rodas — e ainda perguntar por que o carro não faz a curva.

O retrato financeiro é mais grave. Em 16 de setembro, o Inter recebeu uma doação de R$ 20 milhões de Delcir Sonda para pagar direitos de imagem atrasados e assegurar a parcela seguinte. Mesmo com esse dinheiro, ainda precisava levantar R$ 50 milhões para encerrar 2026 em dia com os jogadores. A folha mensal, sem impostos, era estimada em R$ 13 milhões.

Paciente com o escudo do Internacional recebe soro enquanto dirigentes trocam uma placa de técnico.

Doação pode aliviar o caixa, mas não substitui gestão. É soro, não tratamento. Quando um clube do tamanho do Internacional depende desse tipo de socorro para cumprir compromissos com o elenco, o risco esportivo deixa de morar apenas na prancheta. Ele passa a frequentar o vestiário, a janela de transferências e cada decisão tomada sob pressão.

O próximo treinador encontrará pouco tempo e quase nenhuma margem. A estreia será contra o Corinthians, em 7 de outubro, no Beira-Rio. O adversário ocupa a 14ª colocação, com 32 pontos — quatro a mais do que o Colorado. Depois disso, restará uma corrida curta, nervosa e sem espaço para período de adaptação. Dez jogos não são um trabalho; são uma operação de resgate.

A escolha, por isso, não pode servir para inaugurar mais um discurso pomposo sobre metodologia, identidade ou “novo ciclo”. O Inter não precisa de apresentação em auditório. Precisa de comando imediato, leitura pragmática do elenco e autoridade para tomar decisões impopulares. Acima de tudo, o novo técnico precisa receber respaldo real — não aquele apoio de entrevista coletiva que dura até a próxima derrota.

Pezzolano merece carregar a parte dele. Os números, os clássicos e a posição na tabela não permitem absolvição. Mas o maior erro seria acreditar que sua saída removeu o principal risco de rebaixamento. O banco tinha um problema; a estrutura que o cerca tem vários.

Alessandro Barcellos e sua direção já consumiram treinadores, tempo, elenco e margem de erro. Agora não podem consumir também o futuro do clube. O décimo técnico não pode ser outro escudo humano para quem permanece na cadeira.

Se o Inter cair, a queda não começará no banco — terminará nele.

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