São Paulo evita transfer ban e refinancia um vexame de R$ 1 milhão
Tricolor renegocia cinco parcelas vencidas com o Novorizontino e evita a punição imediata, mas a reincidência escancara o amadorismo da gestão.
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No meio da entrevista, Olten Ayres abandona o idioma de cartório e põe a frase sobre a mesa: o São Paulo é dirigido por pessoas “absolutamente amadoras”. Não foi um torcedor enfurecido depois de uma derrota, tampouco um ex-dirigente tentando acertar contas. Foi o presidente do Conselho Deliberativo do clube, em entrevista publicada em 21 de agosto, quando a dívida tricolor já havia ultrapassado R$ 1 bilhão.
Um mês depois, a realidade resolveu trabalhar como revisora de texto.
Cinco parcelas vencidas não formam um imprevisto. Formam um método.
Em janeiro de 2026, o São Paulo acertou com o Novorizontino a compra de parte dos direitos econômicos do volante Djhordney, de 19 anos, por R$ 1 milhão. O pagamento foi dividido em cinco parcelas de R$ 200 mil. Até aí, nada de extraordinário: é assim que clubes negociam, adequam o fluxo de caixa e apostam em jogadores jovens.
O extraordinário — no pior sentido da palavra — veio depois. O São Paulo não pagou nenhuma das cinco parcelas.
Nenhuma.
Não houve uma entrada honrada e uma prestação atrasada. Não houve um depósito parcial, um ruído bancário ou uma divergência pontual. O acordo inteiro venceu sem que o dinheiro chegasse ao Novorizontino. Para um clube que movimenta cifras muito maiores, administrar compromissos de R$ 200 mil como quem descobre a prova quando o professor distribui as folhas é indefensável.
O Novorizontino denunciou o caso à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a ANRESF, no início de julho. Em 12 de agosto, a agência determinou que o São Paulo teria 45 dias para quitar a dívida — acrescida de juros, correção monetária e multa contratual — ou formalizar um novo acordo. O prazo terminaria no domingo, 27 de setembro.
Foi preciso, portanto, ouvir o barulho da porta do mercado de transferências quase fechando para a diretoria encontrar o caminho da mesa de negociação.
O São Paulo não resolveu uma crise. Apenas refinanciou um vexame.
Em 23 de setembro, o Novorizontino confirmou que os detalhes burocráticos de um novo parcelamento estavam sendo finalizados, com pagamento previsto até o fim da temporada. A declaração foi direta: “Um novo acordo de parcelamento está sendo fechado entre os clubes, para que seja cumprido até o final desta temporada”.
O entendimento evita a punição imediata. Ótimo para o departamento de futebol, péssimo como certificado de competência administrativa. O acordo novo não apaga o descumprimento do antigo; apenas troca cinco boletos vencidos por um carnê mais comprido.

É nesse ponto que Olten Ayres deixa de ser apenas o autor de uma frase incômoda e se transforma na lente perfeita para enxergar o São Paulo de 2026. Quando o presidente do Conselho Deliberativo chama a gestão de amadora, não está falando de uma abstração. O caso Djhordney oferece materialidade ao diagnóstico: contrato assinado, parcelas ignoradas, denúncia do credor, determinação de uma agência reguladora e negociação feita sob ameaça de sanção.
R$ 1 milhão não é troco. Para qualquer pessoa comum, a cifra pertence ao território da fantasia. Mas, dentro de uma dívida superior a R$ 1 bilhão, representa menos de 0,1% do passivo citado por Olten. É justamente essa desproporção que torna o episódio tão constrangedor. Se o clube não consegue organizar um compromisso relativamente pequeno, como pretende convencer alguém de que possui um plano para controlar o todo?
A culpa, aqui, não é de Djhordney. O volante de 19 anos não redigiu contrato, não montou cronograma financeiro e não deixou parcela vencer. Transformá-lo no rosto da dívida seria covardia. O nome que deve aparecer em letras grandes é o da gestão do São Paulo, responsável por assumir uma obrigação e só reagir quando o credor buscou uma punição esportiva.
E não há o álibi da surpresa.
Quando o alerta já havia tocado
Em julho, o São Paulo sofreu um transfer ban da Fifa por não pagar à Lazio a primeira parcela da compra de Marcos Antônio. A dívida era de € 1,05 milhão, calculada em R$ 6,08 milhões na época. A punição atrasou os registros do zagueiro Domingos Duarte e do lateral-esquerdo Iago.
O clube levou pouco mais de duas semanas para pagar a Lazio e derrubar o bloqueio. A resposta rápida resolveu aquele problema específico, mas não produziu aprendizado institucional. Enquanto uma conta era quitada para liberar registros, as parcelas devidas ao Novorizontino já empurravam o São Paulo na direção de outra ameaça.
Transfer ban não é raio em céu azul quando aparece duas vezes em tão pouco tempo.
A reincidência muda completamente o julgamento. Um atraso isolado pode nascer de erro operacional, impasse documental ou aperto momentâneo. Dois casos, com credores diferentes e consequências esportivas semelhantes, revelam uma cultura de empurrar compromissos até que a cobrança ganhe dentes. É o departamento financeiro atuando como goleiro que só salta depois de a bola estufar a rede.
Dentro de campo, o São Paulo ao menos encontrou algum alívio ao vencer o Internacional por 1 a 0 em 20 de setembro. Antes, havia empatado por 1 a 1 com o Boca Juniors, perdido por 2 a 0 para o Palmeiras e sido derrotado por 1 a 0 pelo próprio Boca. A vitória serviu para aliviar o ambiente esportivo; três dias depois, porém, o noticiário lembrava que nenhum placar consegue esconder por muito tempo a bagunça da tesouraria.
Essa é uma distinção essencial. Uma arrancada no campeonato, uma classificação ou uma boa atuação podem melhorar o humor do torcedor. Não corrigem governança. Clube grande costuma se iludir com a capacidade que o futebol tem de sequestrar a pauta: a bola entra, a arquibancada comemora e o boleto parece menor. Ele não fica menor. Só continua acumulando encargos fora da televisão.
Em março, o próprio São Paulo apresentou um plano institucional com o objetivo declarado de acabar, no médio prazo, com a dependência da venda de jogadores para cobrir custos básicos. A intenção é correta. Aliás, é obrigatória para um clube que deseja recuperar alguma estabilidade. Mas planos não vivem de apresentações; vivem da rotina menos glamourosa possível — previsão de caixa, prazo cumprido e contrato respeitado.
Como levar a sério um projeto de independência financeira quando cinco parcelas de R$ 200 mil passam em branco? O maior erro seria tratar o novo acordo com o Novorizontino como prova de que a diretoria “agiu”. Agir teria sido pagar. Na pior das hipóteses, negociar antes do vencimento. Correr quatro dias antes do prazo final para evitar uma sanção é contenção de dano, não gestão.
Olten Ayres acertou no diagnóstico, mas sua posição institucional impede que a frase seja arquivada como comentário de mesa-redonda. Ao denunciar o amadorismo, ele também expõe a obrigação de o próprio São Paulo transformar indignação interna em mudança concreta. Profissionalizar a gestão, como defendeu, não significa apenas contratar executivos ou criar organogramas vistosos. Significa fazer o básico sem precisar de ultimato.
Profissionalismo começa onde termina a desculpa para não pagar o que foi assinado.
O acordo com o Novorizontino compra tempo até o fim da temporada. Tempo, contudo, é precisamente o que esta administração vem usando mal: deixa vencer, espera a denúncia, sente a ameaça e então parcela novamente. A dívida bilionária continua girando ao fundo, enquanto o clube celebra ter colocado fita adesiva num furo de R$ 1 milhão.
No São Paulo, o problema já não é o cobrador bater à porta. É a diretoria só acordar quando ele chega carregando o cadeado.
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