74% de posse, 0% de rumo: o Fluminense de Zubeldía ficou sem álibi
O empate com o Rivadavia expôs um Fluminense que troca domínio por posse estéril. Agora, Zubeldía e a diretoria terão de responder em Mendoza.
12 de agosto de 2026

Setenta e quatro por cento de posse de bola. Zero gol. E, pior, quase nenhuma sensação de que o gol estava apenas esperando a próxima jogada para sair.
O empate por 0 a 0 com o Independiente Rivadavia não foi um acidente de percurso do Fluminense. Foi um retrato. Daqueles sem filtro, luz generosa ou ângulo amigo. O time de Luis Zubeldía teve a bola durante quase toda a noite, empurrou o adversário para trás e terminou esbarrando na própria falta de ideias.
Posse sem ameaça é só um jeito sofisticado de perder tempo.
O número de 74% costuma produzir uma ilusão confortável. Parece controle, superioridade, autoridade. Nem sempre é. O Fluminense controlou onde a bola estava, mas não o que acontecia com ela. Trocou passes, ocupou o campo ofensivo e fez o Rivadavia trabalhar sem a bola — exatamente o roteiro que o visitante aceitaria antes mesmo de desembarcar no Rio.
O time argentino veio para sobreviver. Sobreviveu sem precisar de heroísmo sobrenatural, pacto com a trave ou atuação de goleiro candidato a estátua. Bastou fechar espaços, proteger a zona central e esperar que o Fluminense repetisse a circulação até alguém tentar uma solução individual. O domínio tricolor tinha a imponência de uma fila de banco: organizada, longa e incapaz de entusiasmar qualquer ser humano.
A bola rodou. O adversário, não
É preciso separar paciência de passividade. Um time paciente movimenta o rival até encontrar a fresta. Um time passivo apenas passa a bola de um lado para o outro e torce para que a defesa, por educação, abra uma porta.
Foi esse o problema central. O Fluminense teve território, mas não conseguiu deformar o bloco do Rivadavia. Faltaram acelerações, combinações por dentro e movimentos sem bola que obrigassem os marcadores a tomar decisões desconfortáveis. Quando tudo acontece na mesma rotação, defender vira uma atividade quase burocrática.
Não é necessário transformar cada posse em correria. O próprio Fluminense sabe, por sua história recente, que controlar o jogo pode significar seduzir a marcação, atrair pressão e atacar o espaço deixado. Mas isso exige coordenação. Contra o Rivadavia, a posse raramente pareceu uma armadilha. Pareceu um hábito.
O Fluminense não ficou sem espaço. Ficou sem imaginação para criá-lo.
E aqui Zubeldía perde o álibi. Não dá para responsabilizar o gramado, uma arbitragem caótica ou a retranca como se a postura argentina fosse uma surpresa diplomática. O Rivadavia fez o óbvio. Cabia ao treinador preparar uma resposta que fosse além de acumular jogadores perto da área e aumentar o volume de passes.
Se o plano era amassar, faltou peso. Se era envolver, faltou movimento. Se era cansar o rival, quem terminou exausta foi a torcida.
Não foi um tropeço isolado
O 0 a 0 incomoda ainda mais porque chega dentro de uma sequência que já ultrapassou a fronteira da coincidência. Nos cinco resultados recentes informados, o Fluminense não venceu: empatou sem gols com Bahia, Vasco e Rivadavia, perdeu por 3 a 1 para o Vasco e ficou no 1 a 1 com o Botafogo.
São apenas dois gols marcados em cinco partidas. Três desses jogos terminaram em 0 a 0. Há uma mensagem bastante clara escondida nesses placares — e ela nem está tão escondida assim.
O problema não é somente finalizar mal. Antes da finalização, existe uma cadeia inteira: progressão, ruptura, último passe, presença de área, ocupação do rebote. Quando a equipe passa tantas noites em branco, não se trata de azar acumulado. É falha de construção.
A derrota por 3 a 1 para o Vasco poderia ter sido tratada como uma noite torta. O empate com o Botafogo, como clássico equilibrado. O zero diante do Bahia, como um daqueles jogos travados do Brasileiro. Separadamente, sempre existe uma desculpa disponível. Juntos, os resultados formam um processo.
Três zeros no placar não são azar; são um sistema pedindo socorro.
Zubeldía não criou sozinho todas as limitações do elenco, claro. Mas é pago para organizar as soluções disponíveis, e até aqui o Fluminense ofensivo parece uma coleção de peças sem manual de montagem. Há qualidade técnica, nomes capazes de decidir e recursos suficientes para entregar mais do que dois gols em cinco jogos. O treinador precisa parar de confundir presença no campo adversário com agressividade.

A diretoria também entrou em campo — mesmo sem chuteira
Seria cômodo colocar tudo na conta do técnico. Seria também errado. A diretoria montou um ataque com aparência de abundância, mas sem garantir que as características se completassem. Nome conhecido vende esperança, camisa e postagem de anúncio. Funcionamento coletivo não cabe em arte de rede social.
O elenco precisa oferecer alternativas reais, não versões parecidas do mesmo problema. Se o jogo pede profundidade, quem ataca as costas da defesa? Se o adversário fecha o meio, quem ganha o duelo no corredor? Se a área está congestionada, quem aparece de trás? Não basta olhar o banco e contar currículos.
A responsabilidade da direção aumenta porque a falta de gol deixou de ser episódio e virou padrão. E padrão exige intervenção. Talvez seja ajuste de desenho, talvez seja mudança de hierarquia, talvez seja necessário admitir que determinadas apostas não produziram o encaixe imaginado. O que não cabe é tratar cada 0 a 0 como se a trave tivesse feito uma conspiração internacional contra o clube.
Mendoza não aceitará tanta contemplação
A conta agora viaja para Mendoza. O empate sem gols manteve o confronto aberto, mas retirou do Fluminense a margem para administrar a própria esterilidade. Fora de casa, o cenário tende a ser mais hostil: o Rivadavia poderá jogar com o apoio de sua torcida e sem a obrigação de passar a noite inteira entrincheirado.
Isso pode até oferecer mais espaço ao Flu. Pode. Só que espaço não se aproveita por decreto. A equipe terá de ser mais rápida na leitura, mais coordenada nos movimentos e, sobretudo, mais corajosa para ferir. A bola terá de andar com propósito, não apenas cumprir tabela entre um pé e outro.
Zubeldía precisa mexer no funcionamento, não só nos personagens. Alterar nomes para reproduzir o mesmo desenho seria trocar o motorista de um carro sem motor. O desafio é dar conexão ao ataque: aproximação sem amontoamento, amplitude sem isolamento e presença de área sem desespero.
Em Mendoza, ter a bola será detalhe. O Fluminense precisa ter o jogo.
A classificação continua possível. O futebol apresentado, porém, não merece confiança automática. O 0 a 0 no Rio entregou ao Fluminense um aviso que já vinha sendo escrito nos placares anteriores: a equipe pode monopolizar a bola, ocupar o campo e até parecer superior por longos períodos. Se não souber transformar domínio em perigo, tudo isso vale menos do que um único contra-ataque bem executado.
Agora acabou a fase das explicações elegantes. Zubeldía e a diretoria construíram este ataque; em Mendoza, terão de provar que ele também sabe funcionar.
Matérias relacionadas

Maracanã rebaixa o futebol a inquilino e espera a NFL para salvar o gramado
A NFL não criou o pasto do Maracanã: apenas expôs a gestão Fla-Flu, que empurrou a troca do gramado para uma janela curta e imprudente.

Bet não é oxigênio: os clubes decretaram o apocalipse cedo demais
O manifesto acerta ao cobrar transição e fiscalização, mas chamar restrições às bets de “fim do futebol” expõe uma dependência que os clubes precisam corrigir.

Ganso saiu — e o Fluminense perdeu junto o controle remoto
O 2 a 0 sobre o Platense encaminhou a vaga, mas deixou um alerta para Marcão: sem Ganso, o Fluminense perdeu o comando e passou a jogar contra o relógio.