A calculadora absolve Jardim. O vestiário, não
Os 71,2% escondem um Flamengo sem convicção. Após dez dias de treino, Jardim encara Vitória e Cruzeiro sem espaço para novos álibis.
9 de agosto de 2026

A conta fecha. O time, ainda não.
Leonardo Jardim chega à próxima sequência protegido por um número vistoso: 71,2% de aproveitamento. É índice de equipe que disputa taça, escolhe restaurante caro e posa para foto sem olhar o preço do cardápio. Só que o Flamengo visto antes desta pausa não transmitia tamanha prosperidade.
Transmitia dúvida.
Os empates por 1 a 1 com São Paulo e Internacional deixaram essa sensação bastante clara. Não foram desastres, tampouco resultados que obriguem alguém a tocar a sirene no Ninho do Urubu. Mas, depois do 4 a 0 sobre a Chapecoense, esperava-se que o time desse um passo adiante. Em vez disso, caminhou de lado — com a bola, sem ela e, sobretudo, emocionalmente.
A calculadora absolve Jardim porque ela não enxerga a linguagem corporal do Flamengo.
O problema não está no placar isolado. Empatar no Beira-Rio jamais será motivo para intervenção federal. O ponto é a maneira como o Flamengo alterna momentos de controle com períodos de estranha passividade, como se o time precisasse pedir autorização ao adversário antes de acelerar.
Contra o São Paulo, faltou transformar posse em domínio real. Contra o Internacional, faltou sustentar a personalidade durante o jogo inteiro. O Flamengo até apresenta bons recortes, aproxima jogadores, circula por dentro e encontra espaços. De repente, porém, desliga. As linhas se afastam, a pressão perde sincronia e a equipe passa a depender de uma iniciativa individual para recuperar o rumo.
É um time com mapa, bússola e combustível, mas que ainda pergunta no posto se está indo para o lado certo.
Dez dias não resolvem tudo. Resolvem desculpas
Jardim teve dez dias de trabalho. Isso não significa que o Flamengo precise reaparecer como uma máquina perfeita, dessas que pressionam, goleiam e ainda deixam a grama penteada. Futebol não funciona por download; ideia de jogo não é atualização de aplicativo.
Mas dez dias servem, sim, para corrigir distância entre setores, definir hierarquias e dar ao time uma cara menos hesitante. Servem para escolher quem dita o ritmo, quem ataca a última linha e quem protege a equipe quando a jogada quebra. Servem, principalmente, para eliminar aquela aparência de reunião de condomínio em que todo mundo fala e ninguém decide nada.
O treinador já não pode recorrer ao calendário apertado. Também não cabe mais dizer que faltou tempo para repetir movimentos básicos. A pausa foi justamente a oportunidade que treinadores vivem pedindo — e que, no Brasil, quase nunca recebem.

Agora vêm Vitória e Cruzeiro, duas provas completamente diferentes.
O Vitória tem resultados recentes capazes de confundir qualquer analista. Foi derrotado por 2 a 0 pelo Athletico-PR na ida da Copa do Brasil e respondeu com um 4 a 0 na volta. Entre os compromissos do Brasileiro, empatou sem gols com o Botafogo, perdeu por 2 a 0 para o Remo e levou 4 a 0 do Palmeiras.
Ou seja: parece vulnerável até o instante em que resolve morder.
O maior erro do Flamengo seria tratar esse confronto como uma formalidade. O Vitória já mostrou que, acuado, pode transformar um mata-mata aparentemente perdido numa noite de atropelo. É justamente o tipo de adversário que cresce quando percebe displicência do outro lado.
Jardim precisa usar esse jogo para estabelecer autoridade, não apenas para somar pontos. O Flamengo deve entrar com pressão coordenada, circulação rápida e fome para ampliar vantagem caso saia na frente. Nada de administrar um gol como quem guarda a última fatia de pizza para o café da manhã.
Camisa pesada ajuda a ganhar o túnel. Depois do apito, é preciso ganhar o campo.
O Cruzeiro não oferecerá esconderijo
Se o Vitória é o teste da concentração, o Cruzeiro será o exame de consistência.
A equipe mineira vem de classificação segura na Copa do Brasil: empate por 0 a 0 com a Chapecoense fora de casa e vitória por 2 a 0 na volta. No Brasileiro, venceu Internacional e Coritiba, embora tenha perdido em casa para o Botafogo. É um time que sabe conviver com partidas apertadas e não precisa fazer barulho para machucar.
Contra esse Cruzeiro, os intervalos de desconexão serão cobrados com juros. Se o Flamengo espaçar o meio, perder a segunda bola ou atacar com mais gente do que a jogada permite, haverá campo para transição. Não será uma partida para sobreviver de lampejos.
Eis o ponto central: o elenco rubro-negro é forte demais para depender de lampejos.
Jardim não comanda um grupo em reconstrução absoluta, formado por garotos e apostas de ocasião. Há qualidade técnica, experiência e repertório. Quando jogadores desse nível remam em direções diferentes, o problema deixa de ser falta de peça e passa a ser falta de comando coletivo.

Reforços sempre ajudam. No Flamengo, aliás, pedir contratação virou quase uma tradição de família: o time pode ter três opções por posição e ainda surgirá alguém exigindo um quarto lateral para “compor elenco”. Jardim, porém, precisa tirar mais do que já tem antes de olhar para as caixas que ainda não foram abertas.
Elenco caro não compra convicção; no máximo, torna a falta dela mais constrangedora.
O vestiário precisa comprar a ideia
Os 71,2% mostram que o trabalho produz resultado. Seria desonesto negar isso. Também houve sinais encorajadores nos amistosos contra Benfica e Olimpia, vencidos por 2 a 1 e 4 a 2. O Flamengo marcou 12 gols nos últimos cinco compromissos listados, sofreu cinco e não perdeu nenhum deles.
A estatística é respeitável. Ainda assim, números contam o que aconteceu — não necessariamente explicam o que está acontecendo.
O campo sugere que a mensagem de Jardim ainda não foi incorporada por inteiro. O time obedece em alguns momentos, improvisa em outros e se dispersa quando a partida exige continuidade. Isso pode ser problema de encaixe, de liderança interna ou de jogadores ainda pouco convencidos de suas funções. Seja qual for a origem, a responsabilidade é do treinador.
Não porque Jardim deva controlar cada passe à beira do gramado. Nenhum técnico consegue. Mas é ele quem determina o comportamento esperado, premia quem cumpre e tira do time quem trata a função como sugestão.
O vestiário só compra uma ideia quando percebe que ela tem clareza, consequência e dono.
Vitória e Cruzeiro não decidirão sozinhos o futuro de Leonardo Jardim. Decidirão algo mais imediato e talvez mais importante: se o Flamengo voltou da pausa disposto a ser uma equipe ou apenas a defender uma porcentagem.
A camisa já pesa. O elenco já custa. O tempo, desta vez, apareceu.
Agora, se faltar convicção, não haverá calculadora capaz de entrar em campo para marcar.
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