A camisa de Neymar não traiu o Corinthians — os adultos, sim

Uma criança recebeu do ídolo uma lembrança para a vida e saiu escoltada pela polícia. O problema não foi a camisa do Santos, mas a intolerância adulta.

31 de agosto de 2026

A camisa de Neymar não traiu o Corinthians — os adultos, sim

A cena deveria ter terminado com um sorriso, uma camisa guardada com carinho e uma história repetida pela família durante décadas. Terminou com uma criança escoltada pela polícia.

É esse o tamanho do absurdo.

Depois da vitória do Santos por 1 a 0 sobre o Corinthians, em plena casa alvinegra, uma criança recebeu de Neymar uma lembrança para a vida. O presente, porém, virou motivo de hostilidade porque carregava as cores do rival. Foi preciso retirar o jovem torcedor sob proteção policial — como se ele tivesse cometido algum delito gravíssimo, e não apenas vivido um daqueles momentos capazes de explicar por que o futebol encanta tanto.

A camisa não traiu o Corinthians. Os adultos, sim.

Há quem tente embrulhar o episódio no papel gasto da “paixão”. Não cola. Paixão explica o grito, o nervosismo, a corneta, a provocação e até aquela convicção absolutamente delirante de que o treinador deveria escalar exatamente o time montado pelo torcedor no sofá. Paixão não transforma criança em alvo.

A rivalidade também não serve de álibi. Corinthians e Santos têm uma história enorme, atravessada por craques, decisões, goleadas doloridas e vinganças esportivas. É justamente por isso que o clássico importa. Mas existe um abismo entre defender as próprias cores e intimidar alguém que ainda está aprendendo a amar o jogo.

O ídolo furou a fronteira do clássico

Neymar é santista. Isso não está em julgamento. A camisa entregue era do Santos. Também não há mistério. Só que ídolos dessa dimensão escapam do cercadinho clubístico, sobretudo no imaginário infantil.

Uma criança pode torcer para o Corinthians e admirar Neymar. Pode vibrar com o próprio clube e querer uma lembrança de um dos maiores jogadores brasileiros deste século. Pode vestir preto e branco no domingo e tentar reproduzir um drible do camisa 10 na segunda-feira. Nenhuma dessas coisas exige audiência no tribunal da fidelidade futebolística.

Adultos entendem contratos, rivalidades, arquibancadas e contextos. Crianças entendem que um craque olhou para elas e ofereceu um presente. Quem deveria ter maturidade para distinguir essas duas dimensões era justamente quem perdeu a cabeça.

Ídolo não pede certidão de arquibancada antes de realizar o sonho de uma criança.

O mais constrangedor é que a camisa acabou tratada como se fosse prova de um crime. Faltou apenas um perito chegar com luvas, isolar o tecido e anunciar: “Temos aqui fortes indícios de felicidade infantil em setor adversário”.

A camisa de Neymar não traiu o Corinthians — os adultos, sim

O futebol brasileiro sofre de uma inversão bastante conveniente. Cobra-se pureza absoluta de quem mal chegou à idade de escolher o lanche da escola, enquanto adultos se concedem o direito de agir sem qualquer freio. A criança precisa “saber onde está”. O marmanjo, aparentemente, não precisa saber quem é.

A derrota não absolve ninguém

O ambiente corintiano já era pesado. O 1 a 0 sofrido diante do Santos representou a terceira derrota consecutiva do clube na Série A, depois dos tropeços contra Cruzeiro e Coritiba. No meio dessa sequência, houve a vitória por 1 a 0 sobre o Rosario Central pela Libertadores, resultado que garantiu algum alívio. Ainda assim, a campanha no campeonato nacional aumentou a irritação.

Tudo isso ajuda a explicar a tensão. Não justifica uma vírgula do que ocorreu.

Torcedor tem o direito de sair furioso com o time. Pode reclamar da diretoria, do treinador, da escalação, da postura e até do sujeito que demora quinze minutos para devolver a bola na arquibancada. O alvo precisa ser quem participa profissionalmente do espetáculo, não uma criança agarrada a uma camisa recebida do próprio Neymar.

Derrota em clássico machuca. Hostilizar criança é escolha.

Aliás, o Santos também chegava pressionado. Havia levado 3 a 0 do Palmeiras pela Copa do Brasil, após empatar com o Mirassol pelo Brasileirão e com o Macará pela Sul-Americana. A vitória na casa do rival teve peso esportivo e emocional. Para o santista, era noite de comemorar. Para o corintiano, de engolir seco.

Mas perder faz parte do pacto. Ninguém compra ingresso com garantia de felicidade. Se a equipe joga mal, se o rival vence e se o ídolo adversário vira protagonista, resta ao torcedor lidar com a frustração sem abandonar a humanidade na catraca.

O estádio não pode ser uma escola de intolerância

Existe uma frase repetida sempre que episódios assim acontecem: “Isso é coisa de uma minoria”. Pode até ser. Só que uma minoria capaz de produzir medo, constrangimento e escolta policial já é grande demais.

Também não basta condenar o caso nas redes sociais e seguir adiante até o próximo. Clubes, organizadores e autoridades precisam identificar os responsáveis e aplicar as medidas cabíveis. Estádio não é território sem lei, nem laboratório onde gente adulta testa até onde consegue piorar sob a proteção da multidão.

E há uma responsabilidade cultural que não cabe apenas aos dirigentes. Durante anos, parte do futebol romantizou a truculência como prova de pertencimento. O torcedor “de verdade” seria aquele que odeia mais, agride melhor e transforma qualquer gesto de respeito ao rival em heresia. É uma visão pobre, insegura e, francamente, infantil — com a diferença de que as crianças reais costumam demonstrar muito mais grandeza.

Quem precisa ameaçar uma criança para provar amor ao clube já perdeu o clássico mais importante.

Defender o Corinthians, naquele momento, seria proteger o jovem torcedor. Seria abrir passagem, acalmar os ânimos e impedir que uma lembrança bonita fosse contaminada pelo medo. A instituição não fica menor porque um menino ou uma menina recebeu a camisa de Neymar. Fica menor quando alguém usa o nome dela para justificar covardia.

A roupa pode ser guardada numa gaveta, pendurada na parede ou usada na próxima pelada. O que não deveria acompanhar essa criança é a memória de que adultos tentaram estragar um encontro com o ídolo.

Neymar entregou uma camisa.

A arquibancada tinha a obrigação de entregar algo ainda mais básico: segurança.