Caboclo candidato: o São Paulo tenta apagar uma crise ética com uma borracha do passado
A candidatura de Rogério Caboclo não rompe com o velho poder tricolor. Após tantas crises, sua volta seria uma derrota moral maior que qualquer goleada.
8 de agosto de 2026

O empate por 1 a 1 com o Flamengo, fora de casa, poderia render uma boa conversa sobre compactação, coragem e os caminhos do time no Campeonato Brasileiro. A derrota anterior, por 2 a 1 para o Athletico Paranaense, também oferece assunto de sobra: desempenho, elenco, cobrança, trabalho de comissão técnica.
Mas o São Paulo resolveu voltar a discutir algo muito mais profundo do que futebol.
A candidatura de Rogério Caboclo ao comando do clube não representa renovação, ruptura ou qualquer dessas palavras perfumadas que costumam aparecer em discursos eleitorais. Representa a tentativa de convencer o são-paulino de que o passado pode ser apagado desde que a borracha esteja nas mãos das mesmas pessoas que ajudaram a escrevê-lo.
Trocar a embalagem do velho poder não transforma o conteúdo em novidade.
Caboclo conhece os corredores do Morumbis, as alianças internas e o idioma particular dos conselhos. Sabe onde as portas se abrem, quem prefere falar ao pé do ouvido e quais grupos precisam ser acomodados. Essa experiência será vendida como ativo. Não é. Neste caso, é justamente o problema.
Sua passagem pela presidência da CBF terminou marcada por denúncias de assédio, afastamento e uma crise institucional devastadora. Caboclo negou as acusações. É importante registrar isso com clareza. Também é impossível fingir que todo aquele episódio virou poeira administrativa, guardada numa gaveta que ninguém mais precisa abrir.
Quem pretende presidir o São Paulo não concorre apenas a uma cadeira. Concorre ao direito de representar uma instituição centenária diante de funcionários, atletas, torcedores, patrocinadores e da sociedade. O currículo, portanto, não pode ser lido apenas pela coluna dos cargos ocupados. A forma como esses cargos foram exercidos também conta — e conta muito.

A máquina política tricolor, porém, parece ter desenvolvido um talento curioso: recicla personagens sem reciclar práticas. Entram velhos cartolas, acordos de bastidor e atas amareladas; sai alguém usando uma faixa escrita “renovação”. É uma espécie de lava-rápido moral: passa água, dá uma encerada e espera que ninguém olhe o motor.
Não se trata de condenação judicial improvisada em arquibancada, nem de transformar opinião em tribunal. Trata-se de responsabilidade política. Um clube pode — e deve — estabelecer um padrão ético mais alto do que o mínimo necessário para alguém circular numa eleição.
Presidir o São Paulo não é um direito adquirido por quem colecionou contatos no futebol.
Esse é o ponto que os articuladores da candidatura tentarão embaralhar. Falarão em experiência, trânsito institucional, capacidade de negociação e conhecimento da máquina. Talvez até usem a palavra “pacificação”, essa velha muleta de quem deseja silêncio sem enfrentar as causas do barulho.
Pacificar não é varrer a sujeira para debaixo do carpete do salão nobre. Reconstruir também não é reunir os mesmos sobrenomes, os mesmos métodos e as mesmas ambições em torno de uma candidatura apresentada como inevitável.
O São Paulo já pagou caro demais pela cultura do poder fechado em si mesmo. Crises políticas, disputas internas, decisões pouco transparentes e administrações incapazes de devolver ao clube a estabilidade esperada foram se acumulando. Enquanto isso, o torcedor ficou com a conta — financeira, esportiva e emocional. Como sempre, o conselheiro brinda; a arquibancada recebe o boleto.
É tentador reduzir tudo ao campo, especialmente quando a bola oferece distrações imediatas. O empate com o Flamengo pode ser celebrado como reação. A derrota para o Athletico pode aumentar a pressão. Antes disso, houve revés por 1 a 0 diante do Remo, empate por 1 a 1 com o Botafogo e, no meio desse caminho irregular, vitória por 2 a 0 sobre o Boston River na Sul-Americana.
Os resultados ajudam a explicar a impaciência, mas não podem servir de cortina. Diretoria adora usar crise esportiva para diminuir debate institucional: quando o time ganha, pede união; quando perde, pede responsabilidade. Em ambos os casos, pede que o torcedor não faça perguntas.
Pois deve fazer.
Quem sustenta Caboclo? Qual projeto de clube existe além da soma de apoios no conselho? Que compromissos foram assumidos para viabilizar a candidatura? Como uma gestão liderada por ele pretende tratar temas de integridade, ambiente de trabalho e governança sem carregar uma contradição desde o primeiro dia?
Não basta divulgar uma chapa com nomes novos ao redor. Colocar jovens dirigentes na fotografia para rejuvenescer um projeto antigo é como escalar dois pontas velozes num time que continua jogando de freio de mão puxado.
O maior risco não é o São Paulo repetir o passado. É oficializar que não aprendeu nada com ele.
Há quem argumente que clubes são ambientes políticos e que, portanto, nenhuma candidatura nasce pura. Verdade. Política exige composição. Mas composição não é sinônimo de amnésia, e pragmatismo não pode ser desculpa para abandonar critérios.
O São Paulo precisa modernizar sua governança, profissionalizar decisões, reduzir a influência de feudos internos e estabelecer mecanismos de controle que não dependam da boa vontade do presidente da vez. Uma candidatura genuinamente renovadora começaria por aí. Apresentaria regras, metas verificáveis, transparência e independência entre gestão e grupos políticos.
A candidatura de Caboclo começa pelo caminho inverso: primeiro mobiliza a velha estrutura; depois tenta fabricar uma narrativa que a torne palatável.

No prato esportivo da balança podem ser colocadas eliminações, derrotas, contratações ruins e temporadas frustrantes. Tudo isso dói. O futebol, no entanto, oferece revanche quase toda semana. Há outro jogo, outro campeonato, outro garoto de Cotia surgindo, outra noite capaz de reconciliar time e torcida.
Falência moral não tem tabela de recuperação.
Uma goleada derruba técnico. Uma escolha ética desastrosa compromete a identidade do clube.
É por isso que essa eleição vale mais do que a definição de quem ocupará um gabinete. O São Paulo decidirá o que considera aceitável em nome do poder. Se abraçar Caboclo como símbolo de reconstrução, não estará apagando uma crise. Estará ensinando que, no futebol brasileiro, basta esperar a indignação esfriar para voltar pela porta da frente.
O Morumbis já viu derrotas dolorosas e sobreviveu a todas. Algumas levaram cinco, outras dez temporadas para cicatrizar. Mas nenhuma bola na rede adversária conserta uma instituição que escolhe fechar os olhos quando mais precisa enxergar.
Se os conselheiros realmente querem salvar o São Paulo, a primeira providência é simples: parar de confundir memória curta com projeto de futuro.
Matérias relacionadas

A vantagem do Palmeiras ainda é confortável. O futebol, nem tanto
Líder e com os objetivos cumpridos, o Palmeiras não vive uma crise. Mas a queda de rotação existe — e a Libertadores não costuma respeitar gordura na tabela.

O Fluminense colocou Zubeldía em campo como técnico descartável
Pressionado e sem proteção, Zubeldía encara Botafogo e Libertadores em três dias. O problema não é apenas o técnico: é a indecisão de quem manda.

A Copa do Brasil virou o pronto-socorro dos aflitos do Brasileirão
Seis dos oito quadrifinalistas estão na metade de baixo da Série A. A Copa oferece dinheiro e Libertadores, mas não trata campanha nacional quebrada.