CBF transforma revisão de arbitragem em chamada escolar — e o VAR fica de castigo
Pênalti anulado em Mirassol x Palmeiras saiu da pauta porque um dirigente faltou. Na CBF, transparência virou prêmio para quem responde “presente”.
4 de setembro de 2026

O lance existiu. A polêmica também. A explicação, porém, ficou retida na portaria porque faltou um dirigente.
É esse o retrato quase cômico — se não fosse tão constrangedor — da revisão de arbitragem da CBF. O pênalti anulado no empate por 1 a 1 entre Mirassol e Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro, saiu da pauta porque um representante não compareceu. O futebol brasileiro acaba de descobrir que até a transparência precisa responder à chamada.
Não se discute aqui se o dirigente tinha uma justificativa legítima, se perdeu o voo, ficou preso no trânsito ou foi abduzido por uma reunião de conselho deliberativo — modalidade de desaparecimento bastante comum entre cartolas. A questão central é outra: desde quando o esclarecimento de uma decisão de arbitragem depende da presença de quem se sentiu prejudicado?
O lance pertence ao campeonato. A explicação deve pertencer ao público.
Se a CBF separou o episódio para análise, reconheceu que havia ali material relevante. Se havia material relevante, deveria exibi-lo, contextualizá-lo e explicar a decisão tomada no gramado e na cabine. Simples. Transformar a ausência de um representante em motivo para retirar o caso da pauta é tratar prestação de contas como audiência de condomínio: sem o morador reclamante, pula-se para o item seguinte e todo mundo chega mais cedo ao cafezinho.

Uma regra burocrática para um problema esportivo
A CBF pode alegar protocolo. É justamente aí que mora o problema.
Protocolos não são tábuas sagradas trazidas do Monte Sinai por um árbitro de vídeo. Eles existem para organizar procedimentos, não para impedir que esses procedimentos cumpram sua finalidade. Se a regra permite esconder uma explicação relevante porque faltou uma cadeira na mesa, a regra é ruim. E regra ruim não merece reverência; merece correção.
O pênalti anulado ocorreu numa partida apertada, terminada em igualdade. Não foi um detalhe perdido aos 48 minutos de um 6 a 0, quando até o gandula já está pensando no jantar. Em um 1 a 1, qualquer intervenção do VAR pesa sobre o resultado, altera a leitura do jogo e naturalmente provoca cobrança.
Não é preciso decretar, sem a análise pública, que houve erro. Aliás, esse é justamente o ponto. A retirada do lance impede que se discuta com seriedade se o árbitro acertou, se a cabine acertou ao interferir e quais imagens sustentaram a decisão final. No lugar da explicação técnica, sobra o velho nevoeiro institucional.
O VAR já enxerga o lance por vários ângulos. A CBF conseguiu esconder a explicação por falta.
Há uma inversão de responsabilidade difícil de engolir. O clube pode ter o dever de comparecer ao encontro previsto. Perfeito. Que responda por sua ausência dentro das normas cabíveis. Mas a entidade que organiza o campeonato continua responsável por explicar a arbitragem independentemente de quem ocupou — ou deixou de ocupar — uma cadeira.
Punir a ausência de um dirigente com menos informação para o torcedor é cobrar a conta no CPF errado.
O campeonato continuou. A dúvida também
Depois daquele empate, os dois clubes voltaram a campo. O Mirassol perdeu por 2 a 0 para o Flamengo, enquanto o Palmeiras ficou no 0 a 0 com o Santos pela Copa do Brasil. A bola seguiu seu caminho, como sempre segue. A controvérsia ficou para trás no calendário, mas não deveria desaparecer do debate.
Esse é um vício antigo do futebol brasileiro: confundir o passar dos jogos com a resolução dos problemas. Chega outra rodada, aparece um novo impedimento milimétrico, alguém reclama de mão na bola e pronto — a polêmica anterior vai para o sótão, ao lado das súmulas mal explicadas e dos áudios divulgados pela metade.
A velocidade do calendário não pode servir de serviço de limpeza para a arbitragem.
Também não ajuda o fato de a revisão pública parecer condicionada a um ritual entre dirigentes, como se o torcedor fosse mero figurante. É ele quem assiste, paga ingresso, assina transmissão, sustenta audiência e passa a segunda-feira discutindo o frame congelado que alguém decidiu mostrar. Ainda assim, na hora da resposta, descobre que a porta estava fechada porque um representante não levou o crachá.

Transparência não pode ser prêmio de bom comportamento
A solução não exige revolução tecnológica. Nada de contratar satélite, inteligência extraterrestre ou instalar mais 14 câmeras apontadas para o cotovelo do lateral. Basta estabelecer uma norma óbvia: todo lance previamente selecionado para revisão deve ser analisado e publicado, estejam ou não presentes os representantes dos clubes envolvidos.
O ausente perde o direito de fazer perguntas naquela sessão, se assim determinar o regulamento. O público, não. A análise técnica precisa acontecer do mesmo jeito, com imagens, áudio disponível, fundamentação e identificação clara do protocolo utilizado.
Transparência que depende de chamada não é transparência; é recreio vigiado.
O maior erro da CBF, portanto, não foi apenas retirar um pênalti polêmico da pauta. Foi transmitir a ideia de que a informação é uma concessão, oferecida somente quando os participantes cumprem a liturgia burocrática. Não é. Em uma competição nacional, explicar decisões sensíveis faz parte do serviço.
E há um prejuízo adicional para os próprios árbitros. Quando a entidade evita expor e defender tecnicamente uma decisão, deixa a equipe de arbitragem sozinha no meio do tiroteio. Se houve acerto, perdeu-se a oportunidade de demonstrá-lo. Se houve erro, desperdiçou-se a chance de reconhecê-lo e orientar. Nos dois cenários, o silêncio é a pior escalação.
A CBF gosta de falar em credibilidade. Pois credibilidade não nasce de certificados, apresentações ou reuniões com nomes pomposos. Ela aparece quando a entidade abre o lance mais incômodo, encara a dúvida e explica o que aconteceu sem procurar a saída de emergência do regulamento.
Na próxima chamada, pouco importa quem diga “presente”. Quem não pode faltar é a resposta.
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