Cuca poupou estrelas e pôs a Copa do Brasil em liquidação
Sem Neymar e com Gabigol no banco, o Santos quase não atacou, levou 3 a 0 do Palmeiras e transformou a volta na Vila em milagre por encomenda.
27 de agosto de 2026

Cuca escalou o medo — e o medo tomou de três.
O Santos entrou no clássico contra o Palmeiras com Neymar preservado, Gabigol no banco e uma mensagem impossível de esconder: havia prioridades acima daquela noite de Copa do Brasil. O problema é que mata-mata não aceita ser tratado como compromisso entre uma sessão de recuperação e outra. Quando percebe o desinteresse, cobra multa, juros e correção monetária.
O placar de 3 a 0 não foi apenas pesado. Foi uma punição à escolha santista de disputar o jogo sem suas principais referências ofensivas e, pior, sem qualquer plano convincente para compensar essas ausências.
Poupar é administrar risco. Abrir mão de competir é outra coisa.
O discurso da gestão de carga faz sentido. Neymar exige cuidado, o calendário brasileiro parece ter sido organizado por alguém que odeia músculos posteriores de coxa e Gabigol também não precisa começar todas as partidas. Ninguém está pedindo que Cuca transforme o departamento médico em alojamento.
Mas existe uma diferença brutal entre proteger jogadores e desproteger o time.
Contra um Palmeiras que vinha de uma goleada por 4 a 1 sobre o Vasco e de uma vitória fora de casa por 1 a 0 diante do Cerro Porteño, pela Libertadores, o Santos precisava aumentar seu poder de decisão. Fez o contrário. Tirou peso da escalação justamente diante de um adversário acostumado a farejar insegurança.
E o Palmeiras não costuma mandar flores quando encontra a porta aberta.
A conta não fecha
Talvez Cuca tenha olhado para a sequência recente e enxergado sinais suficientes de sobrevivência sem suas estrelas. O Santos havia vencido o Vasco por 3 a 0 no Brasileirão, superado o Macará por 2 a 1 na Sul-Americana e depois empatado por 0 a 0 no Equador. Só que o empate por 1 a 1 com o Mirassol já deixara um aviso: esse ataque não funciona no piloto automático.
Diante do Palmeiras, o aviso virou sirene.
Sem Neymar desde o início e com Gabigol esperando no banco, faltaram presença, atrevimento e ameaça. O Santos quase não atacou porque não conseguiu fazer o adversário respeitá-lo. E, no futebol, quando um time percebe que pode avançar sem medo de levar o troco, acontece algo parecido com aquele sujeito que descobre o rodízio liberado: vai até não caber mais nada no prato.
O Palmeiras empilhou vantagem. O Santos empilhou justificativas.

A decisão de Cuca seria discutível mesmo se o resultado fosse apertado. Depois de um 3 a 0, torna-se indefensável. O treinador pode explicar minutagem, desgaste, sequência de competições e planejamento físico. Tudo isso cabe numa entrevista coletiva. Nenhuma dessas palavras, porém, diminui a montanha colocada diante da Vila Belmiro.
Cuca não perdeu apenas uma partida: escolheu correr o risco de perder a eliminatória antes de realmente disputá-la.
É esse o ponto central. Não se trata de cair na tentação infantil de dizer que Neymar resolveria tudo sozinho. Talvez não resolvesse. Craque nenhum garante vitória, ainda mais diante de um Palmeiras organizado e embalado. Mas sua presença mudaria a maneira como o rival defenderia, a altura das linhas, a atenção sobre cada bola parada, cada transição, cada segundo de desorganização.
Gabigol, por sua vez, representa área, provocação, chute e desconforto. Pode viver uma noite ruim? Evidentemente. Só que uma noite ruim de quem oferece perigo ainda obriga o outro lado a tomar precauções. No banco, ele ameaçou tanto quanto uma placa de “cuidado com o cão” numa casa sem cachorro.
O mérito verde não cabe no erro alvinegro
Seria injusto transformar o 3 a 0 apenas numa trapalhada santista. O Palmeiras fez o que um candidato ao título deve fazer: reconheceu a fragilidade, apertou e não deixou a eliminatória num estado confortável para o rival. Poderia administrar uma vantagem mínima. Preferiu construir um abismo.
Esse é o mérito de equipes maduras em mata-mata. Não basta vencer; é preciso entender quando o adversário está pronto para ser empurrado. O Palmeiras entendeu.
A equipe também chegava com cicatrizes recentes. Perdera por 3 a 2 para o Fluminense no Brasileirão e empatara por 1 a 1 com o Cerro Porteño em casa antes de vencer no Paraguai. Em vez de se enrolar nas próprias dúvidas, reagiu. Bateu o Vasco com autoridade e levou essa confiança para a Copa do Brasil.
Time grande não pede desculpas pela fragilidade do rival. Aproveita.
O Santos fez o caminho inverso. Depois de uma sequência na qual havia mostrado capacidade para competir em frentes diferentes, chegou ao clássico vestido para uma ocasião menos importante. Só descobriu a gravidade do evento quando o placar já tinha transformado prudência em arrependimento.
E agora, na Vila?
A volta exigirá do Santos aquilo que Cuca evitou na ida: risco.
Não haverá espaço para uma escalação tímida, um primeiro tempo de estudos ou aquela conversa sonolenta sobre “fazer um gol de cada vez” enquanto o relógio corre. O Santos terá de atacar sem perder completamente a cabeça, marcar cedo e convencer o Palmeiras de que a noite pode sair do roteiro. É uma tarefa monumental, mas não há outro caminho.
Neymar e Gabigol, se estiverem disponíveis, precisam jogar. Não porque formem uma dupla mágica capaz de apagar três gols com uma piscadela, e sim porque a estratégia conservadora já fracassou de maneira espetacular. Repeti-la seria transformar erro em convicção.
A Vila pode empurrar, apertar e criar aquele ambiente em que até lateral no campo de ataque parece prenúncio de gol. Mas estádio nenhum entra na área para finalizar. A torcida fará a parte dela; Cuca terá de devolver ao time o poder ofensivo que decidiu guardar no primeiro encontro.
Milagre por encomenda costuma chegar com frete caro. O Santos já pagou a entrada.
O maior erro agora seria tratar a goleada como acidente de percurso. Não foi. Foi consequência de uma escolha. Cuca colocou a Copa do Brasil em liquidação, ofereceu ao Palmeiras uma noite sem as maiores estrelas santistas e viu o rival sair do estádio carregando quase toda a eliminatória no carrinho.
Na Vila, não bastará vestir o melhor terno. O Santos terá de levantar o morto.
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