Identificar o agressor foi o mínimo. Agora o Santos precisa bani-lo

O Santos acertou ao localizar quem cuspiu em Reinaldo. Agora precisa garantir banimento e punição individual — sem castigar a Vila inteira.

24 de agosto de 2026

Identificar o agressor foi o mínimo. Agora o Santos precisa bani-lo

O empate por 1 a 1 entre Santos e Mirassol deveria ter terminado com discussão sobre futebol. A atuação, as escolhas dos treinadores, os pontos desperdiçados na Vila Belmiro. O pacote habitual de uma noite de Campeonato Brasileiro.

Mas alguém decidiu transformar arquibancada em esgoto.

O Santos informou ter identificado o responsável por cuspir em Reinaldo. Fez o correto, evidentemente. Só não fez nada extraordinário. Localizar o agressor é o ponto de partida — quase uma obrigação elementar para um clube que controla acesso, comercializa ingressos e dispõe de mecanismos para saber quem entra em seu estádio.

Agora vem a parte que realmente importa: impedir que essa pessoa volte.

Quem cospe em um profissional não é torcedor exaltado. É agressor.

Não cabe o velho repertório de desculpas. “Foi no calor do jogo.” “Perdeu a cabeça.” “A rivalidade falou mais alto.” Não. O calor do jogo explica um grito, uma reclamação, até um palavrão que depois rende constrangimento no almoço de domingo. Cuspir em alguém exige uma decisão deliberada. É uma agressão humilhante, covarde e impossível de maquiar com folclore de arquibancada.

O Santos precisa levar a identificação até o fim: apresentar as informações às autoridades competentes, colaborar com o processo, aplicar o banimento permitido por seus regulamentos e buscar os instrumentos jurídicos necessários para prolongar essa proibição. Se houver punição apenas por algumas partidas, que seja cumprida. Se houver base para afastamento definitivo, melhor ainda. O que não pode acontecer é a nota oficial funcionar como detergente institucional: passa-se um pano, fica um cheirinho de providência e, na rodada seguinte, tudo volta ao normal.

Banimento sem fiscalização, aliás, é só uma frase bonita.

É preciso bloquear cadastro, ingresso nominal, programa de sócio e qualquer outra porta de entrada administrada pelo clube. Caso contrário, o sujeito troca de setor, pede uma carteirinha emprestada e reaparece na Vila com a tranquilidade de quem mudou de fila no supermercado.

A impunidade também aprende a comprar ingresso.

Punir a pessoa, não a arquibancada

A identificação individual muda completamente o debate sobre uma eventual punição esportiva. Se o agressor foi localizado, não faz sentido lançar sobre milhares de santistas a conta pelo ato de um indivíduo.

Perda de mando, portões fechados ou interdição ampla são respostas fáceis porque produzem uma fotografia de rigor. Na prática, atingem famílias, trabalhadores, crianças, sócios e torcedores que não participaram de absolutamente nada. O culpado, muitas vezes, acompanha a partida pela televisão enquanto a coletividade cumpre a pena em seu lugar. É como prender o prédio inteiro porque um morador jogou lixo pela janela — e ainda deixar o sujeito com o controle remoto.

Identificar o agressor foi o mínimo. Agora o Santos precisa bani-lo

A Justiça Desportiva deve cobrar do Santos tudo o que estava sob responsabilidade do clube: prevenção, segurança, identificação e resposta. Se houver omissão, que ela seja julgada. Mas, demonstrada uma atuação rápida e efetiva, a punição precisa mirar quem cometeu a agressão.

Justiça coletiva quase sempre é apenas preguiça com carimbo oficial.

Esse ponto não serve para aliviar a diretoria santista. Ao contrário. A melhor defesa da Vila Belmiro é o próprio Santos mostrar que consegue cuidar dela. Um clube que identifica, entrega e bane o agressor oferece ao tribunal um argumento muito mais sólido do que qualquer nota indignada redigida de madrugada.

E há um detalhe simbólico importante. A Vila é um estádio histórico, apertado, pulsante, onde a proximidade com o campo sempre foi tratada como vantagem. Essa intimidade faz parte do encanto. Só que proximidade não é licença para agressão. O jogador ouvir a corneta faz parte; receber cusparada, jamais.

O futebol ficou em segundo plano — e isso também é culpa do agressor

O 1 a 1 interrompeu uma sequência em que o Santos tentava ganhar tração. Depois da derrota por 2 a 0 para o Athletico Paranaense, o time venceu o Macará por 2 a 1 na Sul-Americana, atropelou o Vasco por 3 a 0 fora de casa e voltou do Equador com um 0 a 0. Havia assunto de sobra para discutir.

O Mirassol também chegava pressionado, após perder por 5 a 1 para o Flamengo e empatar duas vezes com a LDU de Quito pela Libertadores. O ponto conquistado na Vila poderia ser analisado por seu peso esportivo. Reinaldo poderia ser lembrado pelo que fez com a bola, bem ou mal. Em vez disso, virou vítima de uma cena degradante.

É esse o estrago que o agressor também causa: sequestra o jogo. Noventa minutos viram rodapé, e a barbárie assume a manchete.

O Santos, por sua grandeza, não pode aceitar que episódios assim sejam empurrados para a gaveta dos “casos isolados”. Todo ato é individual, claro. Mas a repetição de reclamações e ocorrências ao redor do futebol brasileiro — com nomes como Reinaldo, Tite e Bráulio aparecendo em episódios recentes — exige mais do que a burocrática indignação de 24 horas.

Identificar o agressor foi o mínimo. Agora o Santos precisa bani-lo

Chamar tudo de isolado é confortável. Tão confortável quanto um zagueiro levantar o braço pedindo impedimento depois de perder o atacante na corrida. Às vezes cola. Quase nunca resolve.

O clube acertou ao procurar e encontrar o responsável. Merece reconhecimento por isso, especialmente num futebol em que ainda há dirigentes interessados em esconder o problema para evitar denúncia. Mas reconhecimento não é salvo-conduto. A resposta só estará completa quando a identificação produzir consequência concreta.

Que o agressor responda pelo ato. Que seja afastado da Vila. Que os demais torcedores possam continuar ocupando o estádio. E que o Santos transforme o episódio em um recado duradouro, não em mais uma nota esquecida na rolagem do celular.

A Vila não precisa pagar pela covardia de um homem. Esse homem é que precisa pagar pelo que fez.