Marcão é o interino; Thiago Silva e Fábio são a comissão técnica
A vaga nas quartas não nasceu de um passe de mágica de Marcão. Nasceu quando Thiago Silva e Fábio tomaram o volante do Fluminense dentro do campo.
19 de agosto de 2026

Marcão classificou o Fluminense? Na súmula emocional da torcida, sim. Na prática, porém, a vaga nas quartas de final da Libertadores teve outros dois donos: Thiago Silva e Fábio.
O primeiro tomou conta do time por dentro, organizou o que dava para organizar, corrigiu posicionamentos, cobrou concentração e emprestou autoridade a uma equipe ainda zonza com a saída de Zubeldía. O segundo fez aquilo que vem fazendo há mais de duas décadas: fechou o gol quando todos os planos já tinham virado papel picado.
Marcão estava à beira do campo. Thiago Silva e Fábio estavam no comando.
O Fluminense não teve apenas dois líderes na classificação. Teve uma comissão técnica de chuteira e luva.
O empate por 1 a 1 com o Independiente Rivadavia, depois do 0 a 0 no Maracanã, levou uma eliminatória amarrada para os pênaltis. Era o desfecho mais coerente para um confronto em que o Fluminense raramente pareceu confortável, mesmo sendo tecnicamente superior. A equipe jogou com o freio de mão puxado, como quem atravessa uma sala escura procurando o interruptor com o pé.
E aí apareceu Fábio.
Aos 45 anos, o goleiro defendeu duas cobranças e escancarou uma verdade que o futebol brasileiro às vezes finge não perceber: experiência não é sinônimo de lentidão, passado ou prazo de validade. Experiência, quando acompanhada de preparação e personalidade, é saber exatamente o que fazer quando o estádio inteiro prende a respiração.

Não foi sorte. Sorte é a bola bater na trave, nas costas do goleiro e sair. Fábio leu os cobradores, esperou o limite possível e atacou a bola. Em disputa por pênaltis, há quem tente adivinhar. Ele parece negociar diretamente com a cobrança.
Fábio não defendeu apenas dois pênaltis; defendeu o Fluminense de uma crise com escala continental.
A classificação, afinal, não pode ser separada do momento. O time vinha de uma derrota por 3 a 1 para o Vasco na Copa do Brasil, empatou por 1 a 1 com o Botafogo no Brasileirão e passou em branco no primeiro duelo com o Independiente Rivadavia. A vitória por 3 a 2 sobre o Palmeiras trouxe oxigênio, claro, mas não apagou a sensação de improviso.
Contra os argentinos, essa fragilidade voltou a aparecer. O Fluminense teve dificuldade para controlar os momentos da partida e permitiu que o adversário acreditasse por tempo demais. Faltou uma equipe com ideias mais claras para sair da pressão, respirar com a bola e transformar superioridade individual em domínio coletivo.
Foi aí que Thiago Silva virou mais do que zagueiro.
Ele apontou, chamou, reposicionou, encurtou o campo e administrou a temperatura emocional dos companheiros. Há jogadores que usam a braçadeira; Thiago praticamente usa uma prancheta invisível. Mesmo quando não consegue impedir todos os problemas, ele identifica o incêndio antes de a fumaça chegar à arquibancada.
Isso ajuda Marcão? Evidentemente. E não há demérito em aceitar a ajuda. Técnico interino que tenta provar autoridade calando os líderes do elenco costuma durar menos que promessa de dirigente em apresentação de reforço. A inteligência de Marcão foi não disputar protagonismo com quem compreende o vestiário e o jogo.
Mas também é preciso evitar a maquiagem. O Fluminense passou porque seus veteranos seguraram o rojão, não porque uma revolução tática aconteceu de uma semana para outra.

O ônibus pós-Zubeldía ainda está em movimento, com Thiago Silva agarrado ao volante, Fábio pisando no freio e Marcão no banco do carona tentando descobrir em qual página do manual aparece a palavra “estabilidade”. Deu certo desta vez. Só não convém transformar emergência em método de gestão.
Quando o plano coletivo falha, a hierarquia do vestiário vira tática.
Marcão merece crédito por ter simplificado o ambiente. Em momento turbulento, treinador não precisa inventar um losango assimétrico com nome de tese universitária. Precisa dar funções compreensíveis, proteger o grupo e não atrapalhar os jogadores capazes de decidir. Nesse aspecto, cumpriu o papel.
O problema é outro: o Fluminense continua dependente demais de soluções humanas para compensar falhas estruturais. Thiago Silva pode orientar a linha defensiva, mas não deveria precisar dirigir cada movimento do time. Fábio pode ganhar uma disputa de pênaltis, mas não pode ser convocado toda semana para apagar o incêndio que começa no meio-campo.
A vitória sobre o Palmeiras mostrou que há talento e poder de reação. Os dois empates com o Independiente Rivadavia mostraram que ainda falta controle. Uma equipe candidata a ir longe na Libertadores não pode viver permanentemente no intervalo entre o grito de Thiago e a defesa de Fábio.
Há também uma mensagem incômoda para o restante do elenco. Os veteranos resolveram, mas não podem carregar sozinhos a responsabilidade competitiva. Os mais jovens comemoraram a vaga — e tinham todo o direito —, porém precisam entender o tamanho da aula. Em mata-mata, personalidade não é correr feito maluco nem bater no peito depois de um carrinho. É pedir a bola quando ela queima, manter a cabeça no lugar e assumir uma cobrança sem procurar desculpa no gramado.
O Fluminense está nas quartas. Isso vale dinheiro, confiança e tempo para reorganizar a casa. Só que a classificação não absolve a diretoria da obrigação de escolher bem o próximo comandante, nem transforma Marcão automaticamente em solução definitiva.
Seu mérito foi atravessar a ponte sem derrubar o time no rio. A construção da estrada é outra conversa.
Por enquanto, a fotografia é cristalina: Marcão ocupa o cargo, Thiago Silva organiza o serviço e Fábio fecha a porta. Se o Fluminense levantar algo grande nesta temporada, aquela noite na Argentina será lembrada menos pela estratégia do banco e mais pelo instante em que dois veteranos decidiram que as férias ainda podiam esperar.
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