O Bahia entrou no G4. A fase do “projeto simpático” acabou

A virada sobre o Bragantino levou o Bahia ao G4 e mudou a cobrança: com investimento, elenco e ambição, disputar no alto já é obrigação.

5 de setembro de 2026

O Bahia entrou no G4. A fase do “projeto simpático” acabou

O Bahia virou sobre o Red Bull Bragantino, venceu por 3 a 2 e entrou no G4 do Campeonato Brasileiro. A informação objetiva cabe em uma linha. O tamanho da mudança, não.

Durante algum tempo, foi confortável olhar para o clube como uma história bonita em construção. Havia dinheiro novo, modernização, elenco sendo reforçado e a promessa de que, em algum momento, o salto viria. Cada avanço recebia aplausos; cada tropeço era colocado na conta do processo. O Bahia crescia cercado por uma espécie de licença poética.

Essa licença venceu.

A vitória sobre o Bragantino, em 5 de setembro, foi a terceira consecutiva na Série A. Antes dela, o time já havia batido o Vitória por 2 a 0, fora de casa, e o Internacional por 3 a 2, em Salvador. Somando também os empates com Vasco e Chapecoense, são 11 pontos nos últimos 15 disputados.

Não é mais uma arrancada simpática. É campanha de time que pretende morar no andar de cima.

O G4 não pode ser tratado como passeio turístico. O Bahia entrou para ficar.

Essa é a cobrança compatível com o clube atual. Ninguém está exigindo título por decreto, até porque o Brasileirão costuma rasgar decretos com a delicadeza de um zagueiro chegando atrasado. Mas investimento, estrutura e profundidade de elenco mudam a régua. Um projeto ambicioso não pode passar a temporada inteira comemorando a própria ambição.

O Bahia entrou no G4. A fase do “projeto simpático” acabou

Por muito tempo, a palavra “projeto” funcionou como escudo. Se o desempenho oscilava, era o projeto. Se a equipe deixava pontos pelo caminho, fazia parte do projeto. Se uma atuação decepcionava, pedia-se paciência com o projeto. Parecia aquela pasta misteriosa que todo escritório mantém aberta para fingir que há muito trabalho sendo feito.

Só que o campo tem um péssimo hábito: ele cobra entrega.

E o Bahia entregou nas últimas rodadas. Teve força para vencer um clássico fora de casa, competência para superar o Internacional em um jogo de cinco gols e personalidade para buscar a virada diante do Bragantino. São resultados diferentes entre si, mas unidos por uma característica importante: o time encontrou maneiras de pontuar mesmo sem depender de uma tarde perfeita.

Isso separa as campanhas interessantes das campanhas grandes. Equipe que briga em cima não joga bonito durante 38 rodadas — ninguém joga. Ela sobrevive ao jogo ruim, administra o nervosismo, aproveita o momento favorável e, quando o adversário oferece uma fresta, enfia o pé na porta.

Há, claro, um alerta visível. O empate por 3 a 3 com a Chapecoense e os placares de 3 a 2 contra Internacional e Bragantino mostram uma equipe capaz de produzir muito, mas ainda exposta demais. Foram sete gols sofridos nessa sequência de cinco partidas, todos concentrados em três jogos. Para quem quer permanecer no G4, transformar toda rodada em capítulo final de novela mexicana é um método pouco recomendável para a saúde do torcedor.

O entretenimento agradece. O treinador, certamente, não.

Time ambicioso pode até sofrer. O que não pode é fazer do sofrimento um modelo de jogo.

A boa notícia é que o Bahia também apresentou outra versão. Contra o Vitória, venceu por 2 a 0 sem ser vazado. Diante do Vasco, ficou no 0 a 0. Há repertório para controlar partidas; falta tornar esse controle menos eventual. O passo seguinte não exige uma reinvenção, mas maturidade: saber quando acelerar e, principalmente, quando parar de oferecer ao rival uma cadeira à mesa.

Entrar no G4 também altera a conversa fora do campo. Até aqui, uma vaga continental poderia ser vendida como avanço importante. Continua sendo. Mas reduzir a ambição a isso, neste ponto, seria mirar o estacionamento depois de já ter chegado à cobertura.

O Bahia não recebeu investimento relevante para ser figurante bem-vestido. O clube montou estrutura, ampliou possibilidades no mercado e passou a operar com outra expectativa. Isso traz vantagem e traz pressão. O pacote é completo; não dá para aceitar as moedas e devolver a cobrança no caixa.

A torcida entendeu essa mudança antes de muita gente. O torcedor não olha para o G4 e pensa apenas em uma fotografia bonita para guardar no celular. Ele faz contas, estuda confrontos, olha a tabela dos concorrentes e começa a imaginar noites maiores. Faz parte. Futebol sem imaginação seria apenas um grupo de adultos correndo atrás de uma bola enquanto outros adultos discutem impedimento por três dias.

Mas a empolgação não significa deslumbramento. O Bahia precisa assumir que agora será tratado de outra forma pelos adversários. A equipe que antes poderia surpreender passará a ser estudada, bloqueada e provocada a tomar a iniciativa. Em muitos jogos, não haverá espaço para transição nem cenário confortável. Caberá ao time propor, insistir e vencer a resistência de quem considera um empate contra o G4 ótimo negócio.

O Bahia entrou no G4. A fase do “projeto simpático” acabou

É aí que a fase do “projeto simpático” termina de verdade. Não quando o dinheiro chega, nem quando um reforço é anunciado, muito menos quando a apresentação institucional exibe palavras bonitas em letras gigantes. Ela acaba quando o clube ocupa uma posição importante e precisa defendê-la sob cobrança diária.

A ambição só vira realidade quando deixa de ser promessa e passa a incomodar a tabela.

O maior erro do Bahia, agora, seria adotar um discurso pequeno para proteger um time que já demonstrou capacidade de competir grande. Não há necessidade de bravata, conversa sobre favoritismo ou taça antecipada. Há necessidade de convicção. Permanecer no G4 deve ser objetivo declarado, não sonho cochichado no corredor.

A virada sobre o Bragantino não entregou troféu algum. Entregou algo mais incômodo: responsabilidade.

E responsabilidade, no futebol, pesa mais do que qualquer placa de “campanha honrosa” pendurada na parede.