Três vantagens, nenhum álibi: a defesa do Bahia fez do empate um método
O Bahia marcou três vezes contra a lanterna Chapecoense, mas voltou a entregar pontos. Antes do Ba-Vi, “falta de malandragem” já não explica o problema.
16 de agosto de 2026

Três vezes o Bahia ficou à frente do placar. Três vezes a Chapecoense buscou o empate. Não foi azar, capricho da bola ou alguma entidade especializada em atormentar tricolor. Foi reincidência — e das bem pouco discretas.
O 3 a 3 com a lanterna do Campeonato Brasileiro seria divertido para quem ligou a televisão sem compromisso, naquele espírito de domingo em que qualquer gol serve. Para o torcedor do Bahia, porém, a partida teve a graça de uma cobrança de condomínio. O time marcou mais do que havia marcado nos quatro jogos anteriores somados e, ainda assim, saiu de campo com o mesmo prêmio de sempre: um ponto.
Antes da visita a Chapecó, o Bahia vinha de quatro empates consecutivos: 1 a 1 com Atlético-MG e Corinthians, depois 0 a 0 diante de Fluminense e Vasco. Agora são cinco igualdades em sequência. Há invencibilidade nisso? Tecnicamente, sim. Mas chamar essa série de positiva é como elogiar um carro porque ele não bateu, embora esteja há um mês rodando apenas em primeira marcha.
O empate deixou de ser um acidente no caminho do Bahia. Virou método de trabalho.
A diferença é que, desta vez, o ataque cumpriu sua parte. Fez três gols fora de casa e colocou o time em vantagem em três momentos distintos. Não se pode exigir que uma equipe marque quatro, cinco ou seis vezes para ganhar da última colocada. Em algum momento, alguém precisa trancar a porta.
E a defesa do Bahia deixou a chave do lado de fora.
“Faltou malandragem” já não basta
A expressão costuma aparecer nessas horas. Faltou malandragem para esfriar o jogo, prender a bola, cavar uma falta, fazer o adversário perder o embalo. Tudo isso existe no futebol e pode, sim, decidir uma partida. O problema é usar a palavra como se ela fosse uma lona capaz de esconder qualquer buraco.

Quando uma vantagem escapa uma vez, pode ter faltado atenção. Quando escapa duas, houve descontrole. Quando escapa três, o defeito está na estrutura.
Malandragem ajuda a proteger resultado; organização impede que seja preciso apelar para ela o tempo inteiro.
O Bahia não perdeu a vitória em um lance isolado. Perdeu-a repetidamente, incapaz de controlar os momentos posteriores aos próprios gols. Faltou compactação, faltou leitura da partida e, sobretudo, faltou autoridade. A equipe parecia entender a vantagem como convite para recuar emocionalmente, não como oportunidade para tomar o jogo nas mãos.
Esse é o ponto que deve preocupar Rogério Ceni. Não basta apontar um erro individual aqui, outro acolá, e distribuir broncas no vestiário. O colapso foi coletivo. Uma defesa exposta começa muito antes dos zagueiros, assim como um time seguro não depende de onze jogadores dando chutão para a arquibancada.
Ceni tem responsabilidade direta. Cabe ao treinador reconhecer quando o time perde o controle, ajustar as distâncias e escolher peças capazes de sustentar o ritmo. Se a equipe entra três vezes em modo de sobrevivência contra a Chapecoense, o problema não é apenas de comportamento. É também de comando.
Isso não absolve os jogadores. Em campo, havia experiência suficiente para perceber que a partida pedia menos ansiedade e mais bola no chão. O Bahia tratou cada vantagem como quem segura sabonete molhado: apertou demais, perdeu de novo e ainda ficou olhando para a própria mão.
A Chapecoense fez o que lhe cabia
A situação do adversário torna o desperdício ainda mais grave. A Chapecoense chegou ao confronto na lanterna, vinha de derrota por 2 a 1 para o Coritiba e havia sido eliminada pelo Cruzeiro na Copa do Brasil sem marcar nos dois jogos. Não era um time embalado ou cheio de confiança. Era uma equipe machucada, procurando qualquer sinal de vida.
O Bahia ofereceu três.
É preciso dar crédito à reação catarinense. A Chape não desistiu, atacou as fragilidades disponíveis e teve coragem para voltar ao jogo sempre que parecia derrubada. Quem está no fundo da tabela não pode escolher muito: vê uma fresta e entra. A questão é por que o Bahia manteve a janela aberta, acendeu a luz da varanda e ainda colocou uma placa escrita “seja bem-vindo”.
Os três gols marcados poderiam representar a retomada ofensiva depois dos empates sem gols contra Fluminense e Vasco. Acabaram soterrados pela incapacidade defensiva. É uma pena, porque produzir no ataque fora de casa deveria ser notícia excelente. Virou nota de rodapé em mais um resultado frustrante.
Fazer três gols na lanterna e não vencer não é falta de sorte. É desperdício com firma reconhecida.
E o despertador agora toca para o Ba-Vi
Clássico não costuma respeitar tabela, sequência ou lógica — o futebol baiano já entregou provas suficientes disso. Mas respeita nervos. E o Bahia chegará ao Ba-Vi pressionado não por uma derrota, e sim pelo acúmulo de oportunidades desperdiçadas.

Cinco empates seguidos pesam de maneira estranha. Não produzem o trauma imediato de uma goleada, mas vão corroendo a confiança aos poucos. O time entra em campo sabendo que não perde; o torcedor assiste desconfiado de que também não ganhará. Essa zona cinzenta é perigosa, principalmente quando o próximo compromisso carrega rivalidade, provocação e uma semana inteira de barulho.
O maior erro seria tratar o 3 a 3 como uma tarde maluca e seguir adiante. Não foi. A partida expôs um Bahia incapaz de administrar aquilo que constrói. E, antes de um Ba-Vi, esse vício precisa ser enfrentado sem eufemismo.
Rogério Ceni não necessita ensinar catimba em uma aula com quadro e pincel. Precisa devolver equilíbrio ao time, definir quem organiza a equipe sob pressão e cortar a passividade depois do gol. Se for necessário mudar peças, que mude. Se for preciso abandonar convicções, melhor ainda — convicção que entrega três vantagens é só teimosia usando terno.
No clássico, ninguém perguntará quantas vezes o Bahia esteve na frente. Só importará onde ele estava quando o árbitro apitou pela última vez.
Matérias relacionadas

Ceni deixou a grife no banco — e o Bahia correu até o G4
Ao trocar grife por pressão, verticalidade e intensidade, Ceni levou o Bahia ao G4. Sem Kike contra o Athletico, o novo modelo encara sua prova de fogo.

O Bahia entrou no G4. A fase do “projeto simpático” acabou
A virada sobre o Bragantino levou o Bahia ao G4 e mudou a cobrança: com investimento, elenco e ambição, disputar no alto já é obrigação.

O STJD acertou: camisa exibida não é convite para rasgá-la
Jean Lucas provocou e Cacá perdeu a cabeça. Ao absolver um e suspender o outro, o STJD separou rivalidade de reação antidesportiva.