Ceni deixou a grife no banco — e o Bahia correu até o G4

Ao trocar grife por pressão, verticalidade e intensidade, Ceni levou o Bahia ao G4. Sem Kike contra o Athletico, o novo modelo encara sua prova de fogo.

15 de setembro de 2026

Ceni organiza um tabuleiro com jogadores no banco e Kike, Pulga e Véliz subindo uma escada até o G4.

Não, o Bahia não chegou ao G4 porque finalmente conseguiu encaixar seus jogadores mais talentosos. Chegou justamente quando Rogério Ceni parou de tratar talento como salvo-conduto, encarou a hierarquia do elenco e aceitou uma verdade meio inconveniente: no futebol atual, nome bonito sem pressão vira decoração de sala.

A vitória por 2 a 1 sobre o Remo, na segunda-feira, 14 de setembro, foi a fotografia mais nítida dessa ruptura. Ceni montou o ataque com Kike Olivera, Erick Pulga e Alejo Véliz. Everton Ribeiro, Caio Alexandre, Ademir e Everaldo começaram no banco. Não se tratava de dizer que os reservas desaprenderam a jogar — seria bobagem. Tratava-se de definir qual comportamento o Bahia queria premiar.

E o jogo respondeu antes que qualquer entrevista pudesse organizar a narrativa. Aos 19 minutos, Kike pressionou Tchamba, recuperou a bola no campo ofensivo e entregou a assistência para Jean Lucas abrir o placar. O lance valeu mais que o gol. Ali estava condensado o novo Bahia: roubo perto da área, aceleração imediata e gente chegando para ferir, não para contemplar a posse como quem admira aquário.

Nome ganha aplauso na escalação; intensidade ganha ponto na tabela.

Luciano Juba ampliou de pênalti aos 45 minutos do segundo tempo, e Vitor Bueno descontou, também de pênalti, aos 50. O placar apertado, porém, não deve enganar ninguém. O Bahia criou pelo menos sete oportunidades para aumentar a vantagem, viu Pulga acertar a trave e ainda teve um gol de Kanu anulado por impedimento. Faltou precisão. Não faltou imposição.

Essa diferença é essencial. Durante muito tempo, a tentação em torno do elenco tricolor foi montar o time para acomodar os mais técnicos, como se a soma de bons passadores produzisse automaticamente um bom conjunto. Não produz. Às vezes, produz uma roda de passes elegante, educada e absolutamente inofensiva — o equivalente futebolístico de entrar numa dividida usando smoking para não amassar a roupa.

Ceni demorou a romper com essa lógica. Esse atraso precisa ser apontado porque faz parte da história. O Bahia tinha capacidade técnica, mas frequentemente parecia preocupado demais em controlar o jogo e pouco interessado em agredi-lo. Posse sem mudança de ritmo pode ser ferramenta; transformada em religião, vira procissão. Todo mundo anda, ninguém chega.

A mudança começou a ganhar espírito competitivo a partir do Ba-Vi, segundo o próprio treinador. O time deixou de marcar exclusivamente em uma linha mais baixa e passou a buscar recuperações adiantadas. Jean Lucas já havia traduzido a transformação no começo do mês: “Hoje a gente é mais vertical, acelera mais em direção ao gol”. É uma frase simples, mas quase um manifesto contra a versão anterior do Bahia.

Jean, aliás, personifica bem a nova meritocracia. Perdeu a titularidade durante 2026, saiu do banco para marcar no Ba-Vi e voltou ao onze inicial contra o Remo. Fez o primeiro gol porque acompanhou a jogada que nasceu da pressão de Kike. Não foi devolvido à equipe por currículo, status ou saudade. Voltou porque respondeu em campo.

Jogadores do Bahia deixam uma poltrona dourada para trás e correm em direção a uma barreira do Athletico.

O mesmo raciocínio ajuda a entender a presença de Everton Ribeiro no banco, ainda que o caso dele tenha um contexto físico evidente. O meia voltou a jogar depois de quase 50 dias afastado por um problema na coluna; sua partida anterior havia sido o empate por 0 a 0 com o Fluminense, em 29 de julho. Seria irresponsável transformar seu banco numa sentença contra a qualidade. Everton continua sendo um jogador capaz de oferecer coisas que poucos oferecem. Mas seu retorno não obrigou Ceni a desmontar um trio que estava dando ao time pressão, profundidade e compensação defensiva.

Aí está o mérito do treinador. Não foi descobrir que Kike corre, Pulga acelera ou Alejo briga com os defensores. Isso qualquer um com olhos percebe. O mérito foi bancar as consequências da descoberta. Treinador não enfrenta apenas o adversário; enfrenta expectativas, salários, reputações e a velha pergunta que sempre aparece quando um medalhão fica fora: “Como assim ele é banco?”. Como assim? Porque o time funciona melhor de outro jeito. Pode parecer revolucionário, mas é apenas futebol sem reverência excessiva.

Ceni resumiu a guinada numa declaração que deveria permanecer colada à porta do vestiário: “Acho que o futebol de hoje não permite só a parte técnica mais”. Não permite mesmo. Técnica sem perna, agressividade e disponibilidade para recompor é metade de um jogador tentando cumprir o serviço de um inteiro. Ao destacar a pressão de Kike, Pulga e Alejo como principal ganho do novo desenho coletivo, o técnico deixou claro que sua escalação passou a obedecer ao jogo, não à grife.

A melhor decisão de Ceni foi parar de escalar biografias e começar a escalar comportamentos.

Os números dão peso à tese. O Bahia está invicto há 11 partidas no Brasileirão, com seis vitórias e cinco empates, e venceu seus quatro compromissos mais recentes. Nas oito primeiras rodadas do returno, conquistou 16 pontos, com quatro vitórias e quatro empates. Só o Flamengo, com 17, produziu mais no período. Depois de 27 rodadas, o Tricolor ocupa o quarto lugar, soma 46 pontos e apresenta 12 vitórias, dez empates, cinco derrotas e saldo positivo de nove gols.

Isso não é uma oscilação simpática nem uma semana inspirada. É uma arrancada consistente. E ela coincide com um Bahia menos contemplativo, mais vertical e disposto a transformar a recuperação da bola no início do ataque. A sequência recente ajuda a enxergar a temperatura: vitória sobre o Vitória, triunfo diante do Internacional, três pontos fora de casa contra o Red Bull Bragantino e, agora, o Remo superado na Fonte Nova.

O G4 não foi conquistado com a posse da bola. Foi conquistado com a posse de uma ideia.

Mas toda boa ideia precisa sobreviver à ausência de seu melhor intérprete. É por isso que o duelo contra o Athletico, às 19h30 de domingo, 20 de setembro, na Arena da Baixada, vale muito mais do que um confronto direto. Os dois clubes têm 46 pontos. O Athletico aparece em terceiro porque soma 13 vitórias, uma a mais que o Bahia; o Fluminense vem logo atrás, com 45, e o Cruzeiro tem 42. A tabela já seria suficiente para carregar o jogo de tensão. O desfalque de Kike transforma a partida numa prova conceitual.

Ceni confirmou que ele não poderá atuar. Sai justamente a peça apontada pelo treinador como decisiva para pressionar e realizar compensações defensivas. Sem Kike, a tentação mais fácil será procurar um substituto pelo nome ou pela posição. Seria o caminho errado. O Bahia precisa substituir uma função, um comportamento, uma dose de incômodo. Precisa encontrar alguém disposto a perseguir a saída rival, atacar o espaço e permitir que Pulga e Alejo mantenham o bloco agressivo.

Ceni tenta substituir a engrenagem de Kike em uma máquina de pressão formada também por Pulga e Alejo.

O Athletico chega ao confronto depois de empatar por 3 a 3 com o Coritiba, perder por 3 a 1 para o Cruzeiro e também empatar por 3 a 3 com o Fluminense. É um adversário que tem vivido jogos movimentados e que venceu o Botafogo por 3 a 2 fora de casa nessa sequência recente. No primeiro turno, o Bahia ganhou por 3 a 0 na Fonte Nova, com dois gols de Everaldo e um de Juba. Nada disso, porém, torna a visita à Baixada uma repetição automática. Futebol castiga quem tenta pagar a conta de setembro com o recibo de abril.

E não haverá muito espaço para correção lenta. Depois do Athletico, a sequência do Bahia no Brasileiro inclui Palmeiras, Mirassol, Flamengo, Santos, São Paulo e Cruzeiro. É nesse corredor que uma candidatura à Libertadores deixa de ser entusiasmo de arquibancada e vira projeto competitivo. O maior erro seria olhar para o G4 como recompensa pelo que já foi feito. O quarto lugar é uma cobrança antecipada pelo que o time ainda terá de sustentar.

Por isso, o domingo pertence a Ceni. Ele merece crédito por ter enfrentado a hierarquia e trocado a obrigação de acomodar craques pela necessidade de construir uma equipe. Agora terá de demonstrar que a pressão não mora nas chuteiras de um jogador só. Se o Bahia mantiver a agressividade sem Kike, o treinador terá criado um sistema. Se tudo desaparecer com o desfalque, terá apenas terceirizado a correria.

Na Baixada, não estará em jogo apenas quem entra no lugar de Kike — estará em jogo se o novo Bahia aprendeu a correr com as próprias pernas.