O Athletiba subiu de andar — e agora cobra ambição de Furacão e Coxa
Terceiro contra sétimo, o Athletiba vale mais que a zoeira local: no Couto Pereira, Furacão e Coxa precisam mostrar até onde podem chegar.
11 de setembro de 2026

O Athletiba deixou de ser apenas um campeonato particular de 90 minutos. Desta vez, a tabela entrou em campo antes da bola: o Athletico chega em terceiro, com 45 pontos; o Coritiba aparece em sétimo, com 37. No Couto Pereira, a rivalidade continua valendo provocação no trabalho, memes no grupo da família e alguns dias de paz na padaria. Mas vale também algo bem maior: a confirmação de que os dois podem olhar para cima sem pedir licença.
O clássico não serve mais como distração da temporada. Ele virou prova de ambição.

Os dois chegam machucados pela rodada anterior. O Furacão perdeu por 3 a 1 para o Cruzeiro, fora de casa, e viu interrompida uma sequência de quatro jogos sem derrota. O Coxa, por sua vez, caiu no Couto diante do Mirassol por 2 a 1, um tropeço especialmente incômodo porque aconteceu justamente onde o time pretende impor sua autoridade no clássico.
Derrotas têm pesos diferentes. Para o Athletico, o revés em Minas acendeu novamente a luz amarela sobre uma defesa que vem oferecendo emoção em excesso. Nos últimos cinco jogos, o time marcou dez gols e sofreu nove. Fez três no Botafogo, levou dois. Fez três no Fluminense, levou três. É um Furacão capaz de arrombar a porta da frente e, na sequência, perceber que deixou a janela da cozinha aberta.
Tal comportamento rende partidas divertidas para quem assiste sem envolvimento. Para o torcedor, é praticamente um teste cardiológico com narração.
Ainda assim, a campanha rubro-negra tem estofo. Ganhar do Santos por 2 a 0 e buscar um 3 a 2 sobre o Botafogo fora de casa não são resultados de um time que ocupa o terceiro lugar por acidente. O Athletico tem repertório ofensivo, confiança para atacar longe de seus domínios e uma capacidade importante de sobreviver a jogos caóticos. O problema é justamente gostar demais do caos. Em clássico fora de casa, transformar cada ataque rival em cara ou coroa é pedir para a moeda cair do lado errado.
Quem quer permanecer no alto não pode tratar solidez defensiva como item opcional.
O Coritiba vive outro tipo de cobrança. Sua sequência antes da derrota para o Mirassol era forte: vitórias sobre Chapecoense e Corinthians, empate com o São Paulo fora e triunfo por 3 a 2 contra o Remo. Foram dez pontos em quatro rodadas, um recorte que tirou o time da conversa morna do meio da tabela e o colocou perto da turma que faz contas mais interessantes.
A sétima colocação, porém, pode ser uma poltrona confortável demais. E conforto, no Brasileirão, costuma cobrar aluguel caro. O Coxa precisa decidir se sua campanha será lembrada como uma recuperação simpática ou como uma candidatura verdadeira a algo maior. Ganhar o Athletiba é a forma mais rápida — e barulhenta — de dar essa resposta.
Há também uma diferença psicológica importante. O Athletico entra obrigado a sustentar a posição. O Coritiba entra com a chance de encurtar uma distância de oito pontos e bagunçar a hierarquia estadual da tabela. Um defende patrimônio; o outro tenta invadir o terreno do vizinho. No futebol, normalmente o segundo papel é mais leve. No Athletiba, leveza dura até a primeira dividida.

O mando alviverde torna o clássico ainda mais revelador. O Couto não pode ser apenas cenário de mosaico, fumaça e garganta rouca. Precisa funcionar como vantagem esportiva. Depois da derrota para o Mirassol, uma atuação tímida diante do maior rival seria muito mais grave do que perder três pontos: colocaria em dúvida a musculatura competitiva de um time que deseja frequentar a parte nobre da classificação.
Para o Furacão, o maior erro seria jogar pelo empate como se o terceiro lugar fosse uma peça de porcelana herdada da avó. Não é. Posição em campeonato de pontos corridos precisa ser defendida com bola, não embrulhada em plástico-bolha. Se entrar apenas para controlar o ambiente, baixar o ritmo e esperar um erro do Coxa, o Athletico corre o risco de entregar ao rival exatamente o jogo que o Couto deseja: pressão, segunda bola e arquibancada empurrando cada lateral como se fosse pênalti.
Ambição não aparece na entrevista coletiva; aparece quando o clássico aperta.
Isso vale igualmente para o Coritiba. Não basta correr mais por se tratar do Athletiba. O time precisa jogar melhor. A rivalidade muitas vezes seduz treinadores e atletas com a velha fantasia de que entrega, carrinho e grito resolvem tudo. Ajudam, claro. Mas pedir que a raça faça sozinha o trabalho da organização é como mandar o massagista bater o escanteio porque ele também está de uniforme.
O Coxa deve aproveitar a instabilidade defensiva rubro-negra sem transformar ansiedade em chuveirinho. O Athletico, por sua vez, precisa atacar os espaços deixados por um mandante naturalmente empurrado para a frente. Há um jogo tático interessante escondido sob toda a fumaça emocional: quem administrar melhor a pressa terá enorme vantagem.
Eis o ponto central deste Athletiba. A zoeira continuará existindo — felizmente, porque clássico sem provocação vira reunião de condomínio. Só que ela já não basta. Terceiro e sétimo colocados não entram em campo para decidir apenas quem manda no Paraná até o próximo encontro. Entram para mostrar se suas posições representam um teto ou um degrau.
O vencedor não levará uma taça, mas poderá sair do Couto com algo mais valioso: o direito de pensar grande sem parecer delirante.
Matérias relacionadas

Ceni deixou a grife no banco — e o Bahia correu até o G4
Ao trocar grife por pressão, verticalidade e intensidade, Ceni levou o Bahia ao G4. Sem Kike contra o Athletico, o novo modelo encara sua prova de fogo.

Viveros fez R$ 27,5 milhões parecer barato: o Athletico comprou gol, não grife
Com 18 gols em 26 jogos, Viveros transformou a maior compra do Athletico em lição: dinheiro bem gasto nasce de convicção, encaixe e visão de mercado.

VAR evita o primeiro pênalti por fogo amigo do Brasileirão
Choque entre Moledo e Bruno Melo enganou o árbitro no fim de Coritiba x Mirassol. Desta vez, o VAR fez exatamente o trabalho para o qual foi criado.