VAR evita o primeiro pênalti por fogo amigo do Brasileirão
Choque entre Moledo e Bruno Melo enganou o árbitro no fim de Coritiba x Mirassol. Desta vez, o VAR fez exatamente o trabalho para o qual foi criado.
6 de setembro de 2026

O árbitro apontou para a marca da cal com a convicção de quem tinha acabado de solucionar um crime. O problema é que não havia criminoso. Nem falta do Mirassol. Nem sequer contato de um adversário.
No fim da vitória por 2 a 1 do Mirassol sobre o Coritiba, Moledo e Bruno Melo se chocaram dentro da área. Dois jogadores do Coxa, o mesmo uniforme, o mesmo escudo, o mesmo prejuízo. Na velocidade normal, a trombada confundiu a arbitragem e virou pênalti. Seria uma novidade e tanto: a primeira penalidade por fogo amigo do Brasileirão.
Então entrou o VAR — sem régua de impedimento, sem caça ao pelo de chuteira, sem transformar uma imagem simples em episódio especial de investigação forense. Chamou o árbitro, mostrou o óbvio e evitou que uma decisão quase cômica interferisse no desfecho da partida.
Companheiro pode derrubar companheiro. O que não pode é o adversário ganhar um pênalti de presente.
O monitor serviu para alguma coisa
A revisão foi curta porque o lance não exigia tese de doutorado. As imagens mostraram Moledo e Bruno Melo trombando entre si. O Mirassol estava por perto, naturalmente, mas proximidade ainda não virou infração — embora algumas arbitragens brasileiras pareçam trabalhar para incluir essa hipótese no livro de regras.
O árbitro foi ao monitor e cancelou a penalidade. Acertou. Mais do que isso: corrigiu um erro claro, objetivo e potencialmente decisivo. É precisamente esse o motivo pelo qual a tecnologia foi introduzida no futebol.

Não há demérito em rever uma decisão. O verdadeiro vexame seria assistir ao replay, perceber que dois jogadores do Coritiba bateram cabeça e, mesmo assim, manter o pênalti por orgulho. Árbitro que muda corretamente não perde autoridade; recupera credibilidade.
O VAR não existe para proteger o ego do árbitro. Existe para proteger o jogo do erro do árbitro.
E vale registrar: desta vez, ninguém precisou desenhar. A cena era tão autoexplicativa quanto carrinho atrasado em pelada de churrasco. Punir o Coritiba naquele lance seria como multar o dono do carro porque ele bateu a porta no próprio dedo.
O acerto que não apaga a derrota
A correção evitou uma injustiça específica, mas não resgatou o Coritiba. O Mirassol já havia construído a vitória por 2 a 1 e saiu com três pontos importantes, interrompendo a sequência positiva do adversário.
O Coxa vinha de quatro partidas sem perder no campeonato: empate por 1 a 1 com o São Paulo e vitórias sobre Chapecoense, Corinthians e Remo. Contra o time paulista, porém, pagou pelos problemas apresentados ao longo do jogo — não por uma penalidade imaginária nos acréscimos.
Essa distinção importa. Torcedor costuma sair de uma derrota procurando o árbitro como quem procura a chave de casa no bolso errado. Neste caso, não há como colocar o resultado na conta da arbitragem. Quando surgiu a chance de produzir um escândalo legítimo, a cabine interveio e fechou a porta.
O Mirassol, por sua vez, encontrou uma vitória depois de uma sequência dura. Havia empatado com Santos e Palmeiras, ambos por 1 a 1, e perdido por 2 a 0 para o Flamengo. Também carregava o 0 a 0 com a LDU, em Quito, pela Libertadores. Ganhar fora de casa, portanto, tinha peso esportivo — e não precisava de carimbo arbitral indevido.
O Mirassol venceu a partida. O VAR venceu o lance. Uma coisa não precisa contaminar a outra.
Menos detetive, mais futebol
O uso correto da tecnologia parece notícia justamente porque, em muitos fins de semana, a cabine resolve brincar de fiscal de condomínio. Procura invasão microscópica, amplia contato irrelevante, mede unha, cadarço e intenção espiritual. Cinco minutos depois, ninguém mais lembra o que estava sendo analisado, mas todos já perderam a vontade de comemorar.
Em Coritiba x Mirassol aconteceu o contrário. Havia uma decisão errada em campo. Havia uma imagem conclusiva. Houve recomendação de revisão. O árbitro viu e corrigiu. Sem malabarismo interpretativo.
É assim que deve funcionar.
O episódio também deixa um recado aos defensores da ideia de que o VAR precisa interferir o mínimo possível. Não. Ele precisa interferir quando deve. A discussão nunca deveria ser quantidade, e sim qualidade. Uma cabine silenciosa diante de um erro evidente é tão inútil quanto uma cabine intrometida em qualquer esbarrão.
Tecnologia boa é aquela que sai do lance antes de virar protagonista da partida.
Desta vez, o Brasileirão escapou de eternizar uma regra inédita: pênalti cometido por um jogador contra o próprio companheiro. Moledo e Bruno Melo ainda terão de combinar melhor quem vai na bola — talvez com seta, pisca-alerta e autorização por escrito. Mas o susto ficou apenas como uma cena curiosa.
E o árbitro, puxado de volta antes de escorregar na casca de banana, fez o que se espera de quem tem acesso ao replay: olhou, entendeu e voltou atrás. Parece pouco. No futebol brasileiro, às vezes, é quase uma revolução.
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