O fair play pegou o Grêmio. Agora precisa parar a ciranda do calote

Bloquear o Grêmio é correto. Mas, se o fair play pune quem admite a insolvência e poupa devedores reincidentes, será contabilidade fantasiada de justiça.

25 de agosto de 2026

O fair play pegou o Grêmio. Agora precisa parar a ciranda do calote

O Grêmio tomou dois golpes em uma semana. O primeiro, dentro de campo: 3 a 0 para o Atlético-MG, seguido de derrota por 1 a 0 para o RB Bragantino. O segundo veio no escritório, onde não há impedimento para salvar dirigente: o clube ficou bloqueado por um evento de insolvência ligado à cobrança de R$ 42 milhões feita pelo Cuiabá.

O bloqueio é correto.

Pode ser desconfortável dizer isso quando o alvo é um clube do tamanho do Grêmio, pressionado por resultados e necessitado de reforços. Mas fair play financeiro que recua diante de camisa pesada não é fair play. É recepcionista de camarote.

Se o clube reconhece que não consegue cumprir determinada obrigação nas condições previstas, a consequência esportiva precisa existir. Sem registro de novos atletas, sem aquela velha malandragem de contratar mais três enquanto o credor recebe promessa, cafezinho e um novo prazo para a próxima terça-feira.

Dívida vencida não pode disputar campeonato como se fosse patrimônio.

O problema começa logo depois dessa constatação. Porque punir o Grêmio é a parte fácil. Difícil será impedir que a regra vire uma cerimônia burocrática na qual cai quem admite a insolvência, enquanto escapam aqueles que empurram débitos por meses, apresentam recursos em série e juram que está tudo sob controle — embora o controle já tenha sido penhorado.

O Grêmio não pode contratar para esquecer que deve

O momento esportivo torna o bloqueio ainda mais doloroso. Antes dos tropeços contra Atlético-MG e Bragantino, o Grêmio havia vencido São Paulo, por 2 a 1, e Mirassol, por 1 a 0, este pela Copa do Brasil. Parecia haver algum chão. De repente, duas derrotas sem marcar e uma trava administrativa recolocaram o clube diante de uma realidade menos agradável do que qualquer entrevista coletiva.

A tentação gremista será transformar a punição em perseguição, exagero ou insensibilidade regulatória. Seria um erro. R$ 42 milhões não são uma diferença de centavos encontrada no fechamento do caixa. É uma quantia capaz de alterar planejamento, fluxo financeiro e até o mercado de outro clube.

O Cuiabá tem o direito de cobrar. Mais do que isso: tem o direito de não financiar involuntariamente o futebol do Grêmio. Quando um clube entrega ativo, parcela valores ou aceita um cronograma, não está concedendo licença para o comprador gastar o dinheiro em outro lugar e depois aparecer com cara de quem perdeu a carteira no ônibus.

O maior erro do Grêmio, portanto, não foi ser alcançado pelo regulamento. Foi chegar ao ponto em que o regulamento tinha motivo para alcançá-lo.

Clube em dificuldade precisa cortar ambição, não cortar a fila dos credores.

Isso vale para qualquer escudo. O futebol brasileiro passou décadas tratando calote como ferramenta de gestão. A dívida com outro clube era quase uma linha de crédito sem banco, sem garantia e, muitas vezes, sem vergonha. Contrata hoje, parcela amanhã, renegocia depois e, se apertar, troca o presidente. A conta fica; o discurso muda.

E a dívida de quem cobra?

É aqui que a história deixa de ser apenas sobre o Grêmio.

O mesmo Cuiabá que cobra R$ 42 milhões carrega uma pendência de cerca de R$ 4 milhões com Petit. O valor menor não torna a dívida decorativa. Para um clube, R$ 4 milhões podem parecer um item de planilha; para um profissional, sua comissão e seus auxiliares, é dinheiro de contrato, trabalho realizado e compromisso assumido.

O fair play pegou o Grêmio. Agora precisa parar a ciranda do calote

Se o sistema bloqueia o Grêmio porque houve a formalização de um evento de insolvência, mas não produz consequência equivalente para o credor que também é devedor, nasce uma distorção perigosa. O regulamento deixa de perseguir o atraso e passa a perseguir a confissão do atraso.

É o pior incentivo possível. Quem reconhece a incapacidade financeira é punido. Quem nega, recorre, parcela a parcela e transforma o processo num novelo jurídico continua contratando. O sujeito transparente leva cartão vermelho; o reincidente ganha acréscimos.

Fair play que pune a sinceridade e premia a enrolação é contabilidade fantasiada de justiça.

Não se trata de usar a dívida do Cuiabá para absolver o Grêmio. Uma pendência não apaga a outra. Calote não funciona como gol fora de casa: ninguém elimina o débito adversário porque também deixou de pagar o seu.

O que a contradição exige é coerência. Se há obrigação vencida, reconhecida e exigível, deve haver prazo objetivo para pagamento ou acordo. Encerrado esse prazo, a consequência precisa ser automática, independentemente de o devedor ter pronunciado ou não as palavras mágicas “evento de insolvência”.

A CBF precisa criar uma fila única — e sem furões

A solução não está em aliviar o lado gremista. Está em apertar todos os outros.

A CBF precisa tratar as dívidas do futebol como uma cadeia, não como episódios isolados. Um clube tem a receber e também tem a pagar? O sistema deve enxergar as duas pontas. Valores podem ser compensados ou direcionados ao credor seguinte quando houver decisão definitiva. Receitas de premiação, direitos de transmissão e transferências podem alimentar uma câmara de compensação antes de cair livremente no caixa do devedor.

Não seria uma invenção revolucionária. Seria apenas impedir que o dinheiro dê uma volta completa no futebol brasileiro sem passar por quem deveria recebê-lo.

Também é indispensável publicar critérios claros: quando a dívida venceu, se está em discussão, qual parcela foi reconhecida, que prazo foi concedido e por qual motivo houve bloqueio. Sem transparência, toda punição parecerá seletiva. E, no futebol, basta uma sombra para nascer uma teoria conspiratória com mais capítulos do que novela das nove.

O Santos, ou qualquer outro clube que apareça nessa engrenagem de créditos e débitos, deve estar submetido ao mesmo mecanismo. O tamanho da torcida, a divisão disputada e o momento esportivo não podem alterar a régua. O Santos vem de empate por 1 a 1 com o Mirassol e de vitória por 3 a 0 sobre o Vasco no Brasileiro; nada disso deve pesar um grama numa análise financeira. Resultado de domingo não quita boleto de segunda.

A regra só será respeitada quando o próximo bloqueado puder ser qualquer um.

O Grêmio deve pagar, renegociar de forma aceita pelo credor ou permanecer impedido de registrar. Não há crueldade nisso. Crueldade é permitir que um clube monte elenco com dinheiro que pertence a outro e depois chame a cobrança de ameaça à competitividade.

Mas a fiscalização não pode encerrar o expediente depois de pegar o primeiro grande escudo. Agora que a porta foi arrombada, a CBF precisa entrar na sala inteira. Deve olhar o débito do Cuiabá com Petit, os demais credores da cadeia e cada obrigação vencida que esteja escondida atrás de recurso, silêncio ou promessa.

Punir o Grêmio foi a decisão certa. Parar por aí seria apenas escolher um boi de piranha com faixa de campeão.