O vice do Flamengo não pode guardar o cofre e atender o mercado inteiro

Sem acusação de vazamento, o caso Marcos Motta já expõe um conflito incontornável: quem conhece o cofre do Flamengo não pode assessorar seus rivais.

26 de agosto de 2026

O vice do Flamengo não pode guardar o cofre e atender o mercado inteiro

Não é preciso provar um vazamento para reconhecer um conflito de interesses. Essa é a primeira — e talvez a mais importante — distinção no caso Marcos Motta.

A discussão não deveria girar em torno da honestidade pessoal do vice-presidente do Flamengo, muito menos descambar para acusações sem prova. O problema é anterior a qualquer suspeita: um dirigente com acesso à estratégia financeira, contratual e esportiva do clube não pode manter atuação profissional ligada a negócios de potenciais concorrentes.

Pode ser o advogado mais discreto do planeta. Pode guardar segredo melhor do que zagueiro argentino guarda atacante em noite de Libertadores. Ainda assim, a incompatibilidade permanece.

Conflito de interesses não nasce quando a informação vaza. Nasce quando duas lealdades passam a disputar a mesma cadeira.

O cofre não guarda apenas dinheiro

Quando se fala em “conhecer o cofre” do Flamengo, a imagem mais óbvia é a do orçamento disponível para contratações. Mas o conteúdo sensível vai muito além de saber se há R$ 20 milhões, R$ 50 milhões ou um caminhão de dinheiro estacionado na Gávea.

Um vice com participação relevante na gestão pode conhecer o teto salarial, as prioridades por posição, os jogadores considerados negociáveis, os contratos que precisam ser renovados, o limite de comissão aceito pelo clube e até o ponto exato em que uma negociação ameaça desmoronar. Sabe quem é plano A, plano B e aquele plano C que só aparece quando o empresário liga às duas da manhã.

Isso tem valor competitivo. Muito valor.

Não significa que Marcos Motta tenha repassado qualquer dado. Repita-se até não restar espaço para malícia: não há aqui acusação de vazamento. O que existe é uma estrutura inadequada, na qual a simples posse de determinadas informações já torna problemática a atuação simultânea em outros lados do mercado.

O vice do Flamengo não pode guardar o cofre e atender o mercado inteiro

A banca pode estabelecer barreiras internas, separar equipes, criar protocolos e jurar que ninguém conversa com ninguém. Bonito no PowerPoint. No mercado da bola, porém, a chamada “muralha chinesa” costuma ter mais portas laterais do que estádio em dia de clássico.

Não porque todos sejam desonestos. Porque conhecimento não pode ser apagado da cabeça ao trocar de reunião.

Quem sabe até onde o Flamengo pode pagar não deveria ajudar outro clube a descobrir quanto pedir.

O rival de quinta pode ser o cliente de sexta

O calendário recente torna a situação ainda mais didática. Flamengo e Cruzeiro empataram por 1 a 1 na Libertadores, voltaram a se enfrentar uma semana depois, com vitória rubro-negra por 2 a 1, e dois dias mais tarde o Cruzeiro venceu por 2 a 1 no Campeonato Brasileiro.

Em dez dias, foram três jogos de enorme peso entre os mesmos clubes. Adversários continentais, concorrentes nacionais e, inevitavelmente, participantes do mesmo mercado por atletas, executivos, treinadores e oportunidades comerciais.

É nesse ambiente que a ideia de separar “o dirigente” do “profissional privado” começa a parecer ficção administrativa. O futebol não respeita gavetas. O clube enfrentado na quarta-feira pode disputar o mesmo lateral na sexta e atravessar uma renovação contratual na segunda.

Santos, Cruzeiro, projetos de SAF e outros agentes do mercado não são abstrações distantes. São peças do mesmo tabuleiro em que o Flamengo opera. Atender interesses desse ecossistema enquanto se ocupa uma posição estratégica no Rubro-Negro equivale a ser o garçom de três mesas rivais e ainda decorar quem pretende dar calote na conta.

Talvez o serviço seja impecável. A cena continua absurda.

“Eu me declaro impedido” não resolve tudo

A defesa mais previsível para situações assim é o impedimento pontual: sempre que surgir um assunto relacionado a um cliente da banca, o dirigente se afasta da discussão no Flamengo. Parece razoável. Não é suficiente.

Primeiro, porque o acesso à estratégia não acontece apenas em votações formais. Ele aparece em conversas, mensagens, reuniões preparatórias, projeções financeiras e comentários de corredor. Segundo, porque não basta evitar a decisão final quando já se conhece o mapa inteiro da operação.

E há um terceiro ponto, quase sempre ignorado: o dano institucional. O Flamengo precisa proteger também a confiança de seus executivos, parceiros e torcedores. Um diretor de futebol deve conseguir apresentar números, alvos e fragilidades sem se perguntar se alguém naquela sala mantém vínculos profissionais com o outro lado da indústria.

Impedimento pontual serve para uma pauta isolada; não cura uma incompatibilidade permanente.

O maior erro da direção rubro-negra seria tratar o episódio como briga política ou campanha contra um dirigente. Não é. Governança existe justamente para que questões delicadas não dependam da reputação, da amizade ou da palavra de uma pessoa.

Regras boas são feitas pensando no dia em que as pessoas mudam.

A escolha precisa ser objetiva

O Flamengo deveria aprovar uma política clara de incompatibilidades para seus dirigentes. Quem ocupa cargo com acesso a orçamento, contratos e planejamento de mercado não pode, ao mesmo tempo, participar de empresa que assessore clubes concorrentes, investidores de SAF, atletas ou intermediários com interesses cruzados.

Não adianta uma declaração genérica de transparência. É preciso estabelecer obrigação de revelar clientes relevantes, afastamento real da atividade privada incompatível, fiscalização independente e um período de quarentena após a saída do cargo. Sem isso, cada novo negócio produzirá a mesma pergunta — e cada resposta dependerá da confiança pessoal em quem estiver envolvido.

Marcos Motta tem todo o direito de exercer sua profissão e atender o mercado do futebol. Sua banca também pode prestar serviços a quem desejar, dentro da lei e das normas da atividade. O que não faz sentido é acumular essa liberdade profissional com um posto estratégico no clube de maior poder financeiro do país.

Não se trata de condená-lo. Trata-se de escolher uma cadeira.

O Flamengo não precisa provar que foi traído para parar de entregar a combinação do cofre a quem atende do outro lado do balcão.