Zubeldía caiu — e deixou a diretoria do Fluminense sem álibi
A demissão era inevitável. Esperar até cinco dias antes da decisão em Mendoza, porém, expõe uma diretoria que trocou planejamento por pânico.
14 de agosto de 2026

A demissão de Luis Zubeldía era inevitável. O momento escolhido para anunciá-la, não.
Há uma diferença enorme entre admitir que o trabalho acabou e transformar uma decisão esportiva em ataque de nervos. O Fluminense fez as duas coisas ao mesmo tempo: dispensou um treinador que já não encontrava respostas e, de quebra, escancarou que a diretoria também perdeu o controle da situação.
Faltam cinco dias para o jogo decisivo contra o Independiente Rivadavia, em Mendoza, pela Libertadores. Cinco. Não é tempo para reconstruir um time, instalar ideias ou corrigir vícios. Mal dá para reorganizar os grupos de WhatsApp.
Zubeldía não caiu por causa de um empate. Caiu pelo peso de tudo o que deixou de funcionar antes dele.
O 0 a 0 em casa com o Independiente Rivadavia foi apenas o carimbo no documento. O Fluminense chegou ao oitavo jogo consecutivo sem vencer e voltou a apresentar o roteiro que virou rotina: posse sem veneno, dificuldade para acelerar e uma sensação permanente de que o gol adversário estava alguns metros mais longe do que deveria.
No recorte dos cinco resultados mais recentes, o retrato é constrangedor: quatro empates, uma derrota, apenas dois gols marcados. Houve o 0 a 0 com o Bahia, outro 0 a 0 diante do Vasco, a derrota por 3 a 1 para o rival que custou a vaga na Copa do Brasil, o 1 a 1 com o Botafogo e, por fim, o empate sem gols na Libertadores.
Não é uma oscilação. É paralisia.
Zubeldía tem responsabilidade direta. O time perdeu contundência, repetiu problemas e parou de oferecer sinais convincentes de evolução. Treinador não é comentarista da própria crise; é pago para interferir nela. Quando a equipe passa oito partidas procurando uma vitória como quem procura chave de carro em bolso furado, a cobrança chega ao banco — e chega com razão.
Também não dá para tratar a demissão como injustiça produzida por dirigentes impacientes. Houve tempo. Houve alertas. Houve partidas suficientes para perceber que a resposta não vinha. A eliminação para o Vasco, dentro de casa, deveria ter provocado uma discussão séria sobre a continuidade do trabalho.
Se a diretoria já entendia que Zubeldía havia perdido o comando esportivo, deveria ter agido ali. O calendário oferecia uma janela curta, porém menos absurda, antes da sequência com Botafogo e Independiente Rivadavia. Se ainda confiava no treinador, deveria sustentá-lo ao menos até Mendoza.
Fez o pior dos dois mundos: esperou, viu o time continuar sem vencer e apertou o botão vermelho na véspera da partida mais delicada do semestre.
Demissão tardia não vira planejamento apenas porque foi anunciada com voz firme.
A diretoria também está no banco dos réus
Zubeldía funcionava como o último escudo. Enquanto ele permanecia no cargo, toda atuação ruim podia ser empacotada como falha de escalação, leitura equivocada ou incapacidade de reação. Agora acabou o álibi. O foco muda de endereço e sobe alguns andares.

Quem definiu a permanência do treinador depois dos primeiros sinais de esgotamento? Quem avaliou que ainda havia ambiente para recuperar a equipe? Quem decidiu esperar até cinco dias antes de Mendoza? E, principalmente, qual é o plano a partir de agora?
Essas perguntas não podem ser respondidas com a velha coleção de frases corporativas sobre “mudança de rota”, “busca por resultados” e “confiança no elenco”. Futebol brasileiro já ouviu esse repertório tantas vezes que poderia recitá-lo em cobrança de lateral.
A troca pode até produzir o efeito emocional tão comum nesses casos. Jogador se mobiliza, treino ganha outra energia, quem estava acomodado percebe que o chão mexeu. A famosa “chacoalhada” existe. O problema é confundi-la com projeto. Chacoalhar uma caixa não conserta o que está quebrado dentro dela.
E Mendoza não permite laboratório. Depois do 0 a 0 em casa, o Fluminense precisa decidir a classificação fora, contra um adversário que já mostrou capacidade para travar o jogo e diminuir os espaços. O novo comando terá pouquíssimo tempo para escolher prioridades, recuperar confiança e preparar uma equipe emocionalmente estável.
Não se exige uma revolução tática em cinco dias. Exige-se clareza. Um time mais simples, compacto e consciente do que consegue fazer agora — não do que gostaria de fazer em três meses.
Em mata-mata, convicção vale mais do que uma prancheta cheia de setas bonitas.
Cinco dias não apagam meses de erro
A decisão de demitir Zubeldía é defensável pelo futebol apresentado e pelos resultados. O erro está na demora. Diretoria competente não precisa esperar a crise subir no telhado para descobrir que está chovendo.
O Fluminense teve sinais anteriores. O 0 a 0 contra o Bahia não ajudou. Os dois jogos diante do Vasco expuseram uma equipe incapaz de transformar a rivalidade e o peso do mata-mata em agressividade real. O empate com o Botafogo prolongou a agonia. Contra o Independiente Rivadavia, já não havia margem para fingir normalidade.
Mesmo assim, a cúpula tricolor deixou o relógio correr até quase não haver tempo. Agora tenta trocar o comando enquanto a ampulheta da Libertadores esvazia. É como começar a montar o guarda-chuva depois de entrar no temporal e ainda reclamar que a meia molhou.

O próximo treinador — interino ou efetivo — não pode servir como biombo para quem conduziu esse processo. Se o Fluminense avançar em Mendoza, o mérito será enorme para quem assumir e para os jogadores capazes de reagir sob pressão. Mas a classificação não tornará boa uma decisão tomada tarde. Resultado favorável pode salvar a campanha; não reescreve o planejamento.
E, se houver eliminação, será cômodo demais despejar a conta sobre um comando que recebeu o time a cinco dias da decisão. A responsabilidade principal continuará com quem assistiu ao trabalho perder força, esperou a sequência chegar a oito partidas sem vitória e só então descobriu a urgência.
Zubeldía perdeu o cargo. A diretoria perdeu o direito de se esconder atrás dele.
Mendoza agora virou mais do que uma disputa por vaga. Será o primeiro jogo do Fluminense sem seu para-raios — e o primeiro em que os dirigentes terão de encarar a tempestade de frente.
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