2028 já morreu: SAF do Atlético troca dívida zero por dívida longa

Aporte de R$ 530 milhões corta a sangria dos juros, mas empurra débitos por até 145 meses e enterra a promessa de dívida zero em 2028.

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Dirigentes diante de uma lápide escrita Dívida zero 2028 e de um calendário de 145 meses, com credores segurando carnês.

145 meses. É o tempo previsto para um financiamento no qual o Atlético tenta encaixar R$ 280 milhões de dívida tributária. A operação pode cortar mais de R$ 50 milhões em juros e multas — bom negócio, sem dúvida —, mas transforma a antiga promessa de quitação numa paisagem cada vez mais distante.

Primeira cena: o calendário elástico

Outros R$ 120 milhões em tributos já estão enquadrados no Profut e no Perse. Somada, a dívida tributária é estimada em cerca de R$ 450 milhões. Não está desaparecendo; está sendo domesticada em prestações, como aquele sofá que parecia barato até a família perceber que ainda o pagaria em três Copas do Mundo.

Em 30 de dezembro de 2024, Rubens Menin disse ao site oficial do clube que o planejamento era “acabar com as dívidas no meio de 2028”. A frase envelheceu mal — e nem precisou chegar a 2028 para isso.

2028 já morreu; falta apenas a SAF providenciar o atestado de óbito.

Segunda cena: a Arena cheia de vida — e de boletos

O Galo acaba de vencer o Montevideo City Torque por 3 a 0 na ida da semifinal da Sul-Americana. Agora recebe o Coritiba, às 18h30 deste 17 de outubro, antes do reencontro com os uruguaios. Dentro de campo, há uma temporada pulsando.

Fora dele, a Arena MRV gera aproximadamente R$ 165 milhões anuais: cerca de R$ 80 milhões de bilheteria, R$ 50 milhões do programa de sócios, R$ 15 milhões de eventos, além dos naming rights. É um ativo relevante, não um elefante branco.

Mas a operação de crédito da construção, iniciada em R$ 440 milhões, ainda tem saldo aproximado de R$ 230 milhões e deverá ser refinanciada. No relatório de 2025, as obrigações ligadas à Arena apareciam em R$ 383 milhões. Muda a fotografia, permanece o roteiro: alongar prazo e procurar juros menores.

A Arena dá receita. O problema é que o passado também cobra ingresso.

Terceira cena: a janela que não fecha

Em 2025, o Atlético investiu R$ 181 milhões na aquisição de jogadores e arrecadou R$ 203 milhões em vendas, saldo positivo de R$ 22 milhões. Ainda assim, a rubrica de compra e venda de atletas saltou de R$ 100 milhões para R$ 243 milhões.

Na Câmara Nacional de Resolução de Disputas, o plano envolve R$ 43.386.723,82 devidos a atletas, agentes e clubes brasileiros. A proposta prevê até 96 meses, correção pelo IPCA, amortização mínima de R$ 4 milhões por semestre e 5% das premiações líquidas. Credores contestaram.

Eis o fio que une as três cenas: tempo. Para tributos, Arena e credores do futebol, a estratégia virou empurrar o vencimento até o caixa conseguir respirar.

O aporte de R$ 530 milhões da família Menin era necessário. Atacou principalmente a dívida bancária calculada entre R$ 625 milhões e R$ 630 milhões, deixando aproximadamente R$ 100 milhões. Isso reduz uma sangria indecente: depois de quase R$ 300 milhões em juros em 2025, Pedro Daniel projetou cerca de R$ 150 milhões em 2026; a estimativa mais recente, porém, já aponta entre R$ 170 milhões e R$ 180 milhões.

Cofre em forma de galo recebe aporte de R$ 530 milhões enquanto canos de dívidas continuam ligados a ele.

O aporte compra fôlego. Não compra absolvição.

O relatório oficial registrou endividamento líquido de R$ 1,772 bilhão ao fim de 2025, alta de 29,4% sobre os R$ 1,369 bilhão de 2024. A estimativa atual publicada pelo UOL está entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,4 bilhão. Portanto, houve melhora recente, sobretudo bancária. Chamar isso de sucesso da SAF, entretanto, seria propaganda, não análise.

A Galo Holding assumiu 75% da SAF em novembro de 2023. A direção precisa admitir o que os números já gritam: não concluiu um resgate; renegociou por muitos anos uma crise que continuou crescendo sob seu comando.

Dívida longa pode ser menos cruel. Dívida zero em 2028 virou ficção.

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