A bicicleta foi a foto; a linha de quatro, a notícia do Brasil

O 3 a 1 teve a bicicleta de Geyse, mas o avanço real foi tático. Na revanche, o Brasil deve trocar a festa por testes e dar minutos reais às estreantes.

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Bicicleta dourada em um porta-retrato diante de um quadro tático com quatro defensoras alinhadas.

Vai mesmo ter oba-oba por um 3 a 1 sobre a 30ª colocada do ranking da Fifa? A pergunta é incômoda porque o gol de bicicleta pede replay, a arquibancada pede festa e o placar oferece aquela tentação antiga de declarar que está tudo no caminho certo. Só que a Seleção é a sétima do mundo, jogou em casa e construiu vantagem suficiente para exigir uma análise menos carnavalesca.

Comecemos, então, pelo estrago. Não o causado pela Argentina, mas pelo próprio resultado: uma vitória confortável o bastante para esconder os problemas do segundo tempo. O Brasil fez 3 a 0 antes do intervalo, perdeu fluidez depois das substituições e permitiu o desconto argentino logo aos cinco minutos da etapa final. A autópsia precisa ser feita antes que alguém enterre as perguntas junto com os confetes.

Vitória de amistoso vale pelo que revela, não pelo volume do aplauso.

O placar bonito é o primeiro suspeito

Luany abriu o placar aos 26 minutos. Geyse, aos 38, produziu o lance que sobreviverá por mais tempo do que qualquer discussão tática: bicicleta, bola na rede e Beira-Rio em festa. Angelina marcou o terceiro aos 45. Em menos de um tempo, o Brasil havia entregue ao público a noite que ele esperava.

E não era um público qualquer. Foram 28.386 espectadores na primeira partida da Seleção Brasileira feminina em Porto Alegre. O encontro também carregava um simbolismo maior: o Beira-Rio será uma das oito sedes da Copa do Mundo de 2027, disputada no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho. A torcida merecia espetáculo. A comissão técnica, porém, precisava enxergar além dele.

A diferença histórica entre as equipes continua enorme. Depois do resultado, o confronto passou a registrar 19 vitórias brasileiras, um empate e apenas duas vitórias argentinas em 22 partidas, com 76 gols do Brasil e 15 da Argentina. O próprio técnico Germán Portanova foi direto: “No futebol feminino, ainda não somos o clássico do Brasil.” Não foi falsa modéstia. Foi diagnóstico.

Ainda assim, os números da partida não autorizam soberba. O Brasil finalizou 16 vezes e acertou cinco chutes no gol. A Argentina finalizou oito e também acertou cinco. Ou seja: as duas seleções exigiram da goleira adversária na mesma quantidade, embora uma delas tenha tido o dobro das tentativas. Maricel Pereyra marcou no início do segundo tempo e ajudou a retirar do 3 a 1 aquela aparência enganosa de passeio sem fissuras.

A bicicleta foi a fotografia da noite; a linha de quatro foi a notícia do Brasil.

Quando a defesa mudou de desenho

A novidade realmente importante estava alguns metros atrás dos gols. A comissão abandonou a estrutura mais habitual de três zagueiras e montou uma linha de quatro com Isabela, Isa Haas, Mariza e Raíssa Bahia. A escalação começou com Lorena; Duda Sampaio, Angelina, Maiara e Luany no meio; Tainá Maranhão e Geyse à frente.

Trocar o desenho não resolve tudo por decreto — prancheta não ganha dividida —, mas amplia o repertório de uma equipe que se prepara para um Mundial em casa. E repertório, nesse estágio, vale mais do que goleada decorativa. O mérito de Rodrigo Iglesias, que comandou o time enquanto Arthur Elias cumpria suspensão, foi aceitar o teste em vez de apenas proteger o modelo conhecido.

Também houve uma divisão saudável de responsabilidade. Marta não foi convocada por estratégia de recuperação física e para permitir que outras atletas desenvolvam liderança e protagonismo. Os três gols terem saído dos pés de Luany, Geyse e Angelina não prova que a Seleção já saiba viver sem sua maior referência. Mostra, isto sim, que há caminhos para repartir o peso criativo e emocional.

Esse é o avanço que interessa. Não se trata de apagar Marta — ideia tão inteligente quanto trocar a rede porque a bola entrou —, mas de impedir que toda partida importante dependa da presença, da inspiração ou da autoridade de uma única jogadora.

Quatro defensoras formam uma ponte com rachaduras, enquanto jogadoras estreantes aguardam para ajudar no reparo.

O intervalo mexeu onde doía

O segundo tempo isolou outra causa. Com as mudanças, o Brasil deixou de circular com a mesma naturalidade e permitiu que a Argentina encontrasse mais espaço para finalizar. Isso não significa culpar automaticamente quem entrou. Seria preguiçoso e, pior, contraproducente. A responsabilidade é coletiva: se o funcionamento desmonta quando as peças mudam, o mecanismo ainda não está suficientemente assimilado.

Tamara Bolt, Clarinha e a goleira Carlinha fizeram suas estreias pela Seleção principal. Esses minutos têm valor, mas estreia protocolar não basta quando a Copa se aproxima e a lista ainda está aberta. Jogadora nova precisa entrar antes de o amistoso virar uma sequência de relógio, cansaço e improviso. Precisa participar do problema enquanto ele ainda está vivo.

O caso de Bruninha ainda acrescentou uma preocupação real. Ela entrou no intervalo, machucou o joelho direito ao tentar cortar uma jogada e saiu de maca aos 21 minutos da etapa final. A comissão informou que seriam realizados exames e não divulgou diagnóstico. Sem especulação, portanto. Mas o episódio reforça por que um elenco de 28 convocadas não pode ser tratado como uma foto de cerimônia.

Chegamos, enfim, ao verdadeiro culpado desta autópsia: a sedução do placar. O 3 a 1 convida a comissão a repetir a base na terça-feira, buscar outra vitória, agradecer o apoio e encerrar a Data Fifa com duas noites agradáveis. Seria o maior erro possível.

Laboratório sem risco é apenas treino com ingresso.

Treinadores afastam um bolo com o placar de 3 a 1 para trabalhar em testes com camisas de jogadoras.

Arthur Elias afirmou que a lista para 2027 está “74% pronta”. Ótimo. Então os amistosos devem servir justamente para investigar os 26% restantes, não para polir o que já está aprovado. Repetir a equipe apenas para fabricar outro resultado bonito seria usar um laboratório para assar bolo de aniversário: todo mundo gosta, mas ninguém aprende coisa alguma.

Tarciane, Kerolin e Bia Zaneratto, que também cumpriram suspensão no primeiro duelo, voltam a ficar à disposição. Elas aumentam as opções, mas não podem transformar a revanche em desfile de nomes conhecidos. Yanne, do Bahia, ainda não estreou, embora Arthur tenha dito antes dos amistosos que pretendia colocar todas as convocadas em campo. Quatro goleiras foram chamadas; há espaço e obrigação para distribuir experiências de verdade.

Na Arena de Pernambuco, às 20h30 de 13 de outubro, Rodrigo Iglesias e Arthur Elias precisam pressionar exatamente os pontos que cederam após o intervalo: a manutenção da fluidez com outras peças, a sustentação da linha de quatro e a capacidade das estreantes de assumir responsabilidade sem o abrigo de uma partida já resolvida. Não são testes para os minutos finais. São perguntas que merecem tempo para produzir respostas.

A torcida no Recife pode ganhar outra bicicleta, outro golaço, outra celebração. Ninguém será insensível a isso. Mas o Brasil não está preparando uma coletânea de melhores momentos; está preparando uma equipe para jogar uma Copa em casa.

Na terça-feira, o placar pode até sorrir — a prancheta é que não tem o direito de sair sem resposta.

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