No Fla-Flu, a bet sai da camisa — mas continua dando as ordens
Flamengo e Fluminense podem combater a proibição das bets. O problema é ceder a camisa e a própria voz ao slogan escolhido por Betano e Superbet.
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Parece uma daquelas velhas fotografias do futebol brasileiro em que a camisa virava manifesto — só que revelada ao contrário. Antes, o uniforme emprestava visibilidade a uma causa. No Fla-Flu de domingo, a causa chega pronta do departamento comercial, com slogan aprovado e lugar reservado no peito.
Flamengo e Fluminense exibirão “Proibir não é proteger” no espaço do patrocinador máster, às 17h30, no Maracanã. E não será um clássico qualquer: pela 30ª rodada, o líder Flamengo, com 61 pontos, enfrenta o terceiro colocado, com 51, enquanto o Palmeiras aparece no meio dessa conversa, em segundo, com 60.
A camisa ficará sem a marca da bet, mas continuará obedecendo à bet.
Façamos primeiro o melhor argumento possível a favor dos clubes. A Medida Provisória nº 1.394, assinada em 25 de setembro, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa. Peças já contratadas só puderam circular até 5 de outubro; sites e aplicativos deveriam ser bloqueados a partir do dia seguinte. Flamengo e Fluminense, entre outros clubes, pediram ingresso como amici curiae na ação que tenta suspender os efeitos da MP no STF.
Estão no direito deles. Mais: seria irresponsável fingir que o impacto financeiro é pequeno. O contrato do Flamengo com a Betano prevê R$ 268,5 milhões por temporada e vai até dezembro de 2028. Bap estimou uma perda entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões nas receitas de 2027 e resumiu a aflição com uma pergunta que atravessou a Gávea: “Como eu vou pagar o Paquetá em janeiro?”.
O Flamengo pode argumentar, ainda, que não depende de esmola: registrou receita bruta consolidada de R$ 2,089 bilhões e superávit de R$ 336 milhões em 2025. Justamente por isso, porém, tem tamanho para defender sua posição com a própria voz — não precisa trabalhar como homem-sanduíche de patrocinador bilionário.
No Fluminense, o contrato com a Superbet alcança R$ 53 milhões fixos e até R$ 33 milhões em bônus por ano, com validade até dezembro de 2029. Mattheus Montenegro já disse que o clube não busca outro máster e permanece “leal” à empresa enquanto espera mudanças no Congresso ou na Justiça. Lealdade contratual é legítima. Ventriloquismo corporativo é outra coisa.
Defender um contrato é governança. Repetir um slogan encomendado é publicidade fantasiada de princípio.
Segundo o UOL, a ação conjunta foi acertada por Betano e Superbet, e o Fluminense aceitou a solicitação da patrocinadora para estampar a frase. Eis a linha cruzada. Os clubes não decidiram apenas protestar contra uma medida que afeta suas receitas; cederam o espaço mais simbólico do uniforme para uma mensagem concebida dentro da relação comercial que dizem estar defendendo.

O roteiro já vinha sendo ensaiado. No empate por 2 a 2 com o Santos, o Flamengo mostrou “Proibir não é proteger” abaixo do escudo. Na vitória por 4 a 0 sobre o Coritiba, o Fluminense trocou a Superbet pela Superscore, aplicativo de estatísticas do mesmo grupo. Depois do clássico, pretende voltar a exibir essa marca. É o patrocínio brincando de esconde-esconde atrás da cortina — com os pés aparecendo.
Flamengo e Fluminense devem contestar a MP no STF, pressionar o Congresso e explicar publicamente por que consideram a proibição equivocada. Tudo isso pertence ao jogo institucional. O que não pertence é deixar Betano e Superbet redigirem o cartaz e ainda oferecer o peito para segurá-lo.
Quem vende espaço na camisa faz negócio. Quem entrega a própria voz começa a vender o clube.
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