A falsa proteção da Super Data Fifa: o Brasileirão volta antes dos jogadores

Após 16 dias de pausa, convocados cruzam continentes e voltam quase sem treino. Sem 72 horas de respiro, servir à seleção vira punição esportiva.

Publicado em

Funcionário da CBF empurra jogadores com malas de uma esteira de aeroporto para um campo, ao lado de um cronômetro trancado.

Todo mundo está chamando a Super Data Fifa de avanço. Pois é justamente aí que começa o problema: a pausa de 16 dias não protegeu os jogadores. Protegeu apenas o calendário da aparência de desorganização.

O Brasileirão volta em 7 de outubro, mas parte dos atletas ainda está voltando ao próprio corpo. Dez dos onze convocados da Seleção Brasileira que atuam no país deixaram a Índia no domingo, dia 4, enfrentaram uma conexão prolongada em Dubai e tinham chegada prevista apenas para o fim da tarde de segunda-feira. A exceção foi o goleiro Otávio, do Cruzeiro.

Na quarta, a bola já vale três pontos.

Pausa sem tempo de recuperação é apenas um atraso bem diagramado.

A autópsia da 29ª rodada começa pelo Corinthians. Hugo Souza, Matheuzinho e Breno Bidon tinham reapresentação marcada para a manhã de terça-feira. À tarde, viajariam para Porto Alegre. Na quarta, enfrentariam o Internacional no Beira-Rio.

É a famosa readaptação express: desembarca, dorme, treina, entra no avião e joga. Tudo com a naturalidade de quem pede um café no aeroporto. Matheuzinho participou dos três amistosos do Brasil; Breno Bidon entrou em dois; Hugo Souza atuou no primeiro empate por 1 a 1 com a Austrália. Não estavam em excursão de formatura.

André Carrillo sequer entra nessa conta. O Peru disputa amistoso com a Colômbia na terça, véspera do jogo do Corinthians, e o meia é desfalque confirmado. Ou seja: nesse caso, a proteção não ficou pela metade. Ficou no saguão de embarque.

O contexto torna a distorção ainda mais pesada. O Corinthians chegou à pausa depois de perder por 3 a 1 para o Fluminense no Brasileirão. Também havia sido derrotado pelo Estudiantes por 1 a 0 na Libertadores, além dos tropeços anteriores diante de Flamengo e Chapecoense. Um time pressionado, portanto, recebe seus convocados quase em cima da hora e perde Carrillo porque a seleção peruana joga na véspera da rodada nacional.

Não é detalhe logístico. É interferência esportiva.

O primeiro corte: a pausa terminou cedo demais

A CBF acertou ao interromper o campeonato durante a Data Fifa. Isso precisa ser reconhecido — até para que a crítica não vire birra de arquibancada. O Brasileirão passou 16 dias sem partidas, enquanto a Seleção disputou três amistosos: 1 a 1 com a Austrália em 25 de setembro, vitória por 4 a 2 sobre os australianos no dia 29 e goleada por 4 a 0 sobre a Índia em 3 de outubro.

O erro foi considerar que a Data Fifa acaba quando termina o último jogo.

Para quem monta tabela diante de uma tela, talvez acabe mesmo. Para quem precisa deixar a Índia, fazer conexão em Dubai, atravessar fusos, chegar ao Brasil, reapresentar-se ao clube e viajar novamente, não. O calendário tratou o desembarque como recuperação. É como achar que o celular está carregado só porque foi colocado perto da tomada.

Guarda-chuva da Super Data Fifa se fecha sobre jogadores que chegam de avião cercados por relógios e cartões de embarque.

A regra deveria ser simples: nenhum jogador convocado poderia disputar uma partida do Brasileirão antes de completar 72 horas de retorno ao clube. Não 72 horas depois do apito final da seleção. Não 72 horas desde o primeiro voo. O relógio precisaria começar quando o atleta estivesse efetivamente de volta à rotina do time.

Sem essa trava, a paralisação é uma cortesia ao espetáculo televisivo, não uma proteção ao jogador.

O segundo corte: quem cede mais, paga mais

Um levantamento publicado em 23 de setembro registrou 39 jogadores de clubes da Série A chamados por nove seleções: Brasil, Equador, Paraguai, Colômbia, Uruguai, Argentina, Peru, Bolívia e Camarões. Flamengo e Palmeiras apareciam como os mais atingidos, com seis convocados cada. Bahia, Chapecoense, Mirassol, São Paulo e Vitória não tinham nenhum.

Não há culpa dos clubes sem convocados, evidentemente. Ninguém deve pedir desculpas por manter o elenco inteiro durante a pausa. A responsabilidade é de quem permite que uma diferença produzida pelas seleções entre diretamente na competição.

A convocação virou um imposto cobrado justamente de quem fornece os melhores jogadores.

O Flamengo lidera o Brasileirão com 60 pontos, três à frente do Palmeiras. Na quinta-feira, às 19h30, enfrenta o Santos na Vila Belmiro. Pedro e Samuel Lino voltaram a treinar apenas na terça, e a comissão considera improvável que sejam titulares por causa do pouco descanso e do fuso horário após a viagem desde a Índia.

Varela entrou no segundo tempo da vitória do Uruguai por 6 a 1 sobre a Índia na terça. Anthony Valencia foi titular do Equador no empate por 1 a 1 com o Panamá, na segunda, no Japão. Os dois eram aguardados no Rio na quarta e tendem a não enfrentar o Santos.

Então o líder para por 16 dias e volta possivelmente sem parte dos atletas que cedeu às seleções. Que proteção é essa? Uma que fecha o guarda-chuva quando começa a chover.

No Palmeiras, o retrato muda de cor, mas não de absurdo. Ramón Sosa, Mauricio, Gustavo Gómez, Erick Belé e Heittor participaram do treino de terça-feira. O clube ainda aguardava Piquerez, Emi Martínez, Jhon Arias, Flaco López e Agustín Giay.

Flaco e Giay tinham chegada prevista para a madrugada de quarta, depois do amistoso da Argentina contra o Benim. Piquerez e Emi Martínez eram esperados até a tarde. Jhon Arias voltaria em uma terceira aeronave fretada pelo clube. Todos seriam avaliados antes do duelo com o Bahia, na quinta, às 21h30, no Nubank Parque.

“Avaliados”, nesse cenário, é a palavra educada para descrever uma comissão técnica tentando descobrir quem ainda consegue caber no jogo.

O terceiro corte: o clube paga para consertar a tabela

O Palmeiras fretou um voo para buscar Gustavo Gómez, Ramón Sosa e Mauricio nos Estados Unidos após os compromissos do Paraguai. A operação reduz o tempo perdido, mas escancara outra deformidade: a solução para um problema criado pelo calendário depende do caixa de cada clube.

Dirigentes colocam moedas em um avião fretado enquanto um cartola da CBF descansa ao lado de um calendário sobre rodas.

Quem pode fretar, freta. Quem não pode consulta conexão, horário de aeroporto e talvez o santo padroeiro das escalas internacionais. A organização da competição entrega o problema; os departamentos de futebol que passem o cartão corporativo.

Isso também mexe com a igualdade do campeonato. Não basta dizer que todos conheciam a Data Fifa. Conhecer o buraco não torna aceitável obrigar cada clube a construir a própria ponte.

A tabela não pode premiar quem convoca menos nem castigar quem revela mais.

A essa altura da autópsia, já não sobra dúvida sobre o culpado. Não são as seleções, que utilizam as datas disponíveis. Não são os treinadores, obrigados a escolher entre preservar atletas e escalar o que têm de melhor. Muito menos os jogadores, tratados como se uma noite de sono apagasse milhares de quilômetros.

O verdadeiro erro é da CBF, que apresentou a paralisação como avanço, mas marcou a retomada sem garantir um intervalo mínimo para os convocados. A entidade fez metade do serviço e espera aplauso inteiro.

A solução não exige tese, congresso médico ou reunião com apresentação de 80 slides. Exige uma norma objetiva de 72 horas entre o retorno ao clube e a partida seguinte. Se o prazo não puder ser cumprido, o jogo precisa mudar. Simples assim.

Porque servir à seleção deveria valorizar o atleta e o clube que o cede. No Brasileirão atual, virou punição competitiva com direito a cartão de embarque.

A camisa da seleção não pode vir acompanhada de uma multa na tabela.

Times citados nesta matéria

Compartilhar:WhatsAppX

Receba as próximas matérias

As melhores matérias do futebol brasileiro no seu e-mail, sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber nossos e-mails. Pode cancelar quando quiser.