Corinthians tem R$ 1,05 bi de patrimônio negativo: vender 2027 é vender o extintor

Mesmo faturando acima do orçamento, o Corinthians acumulou déficit de R$ 278,7 milhões. A saída é teto no futebol, não antecipar receitas de 2027.

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Osmar Stabile vende um extintor com a inscrição Receitas de 2027 diante de boletos em chamas.

Não, o rombo do Corinthians não nasceu simplesmente porque faltou vender jogador. Essa explicação é confortável, cabe numa entrevista e ainda permite prometer que a próxima janela resolverá tudo. O momento decisivo veio antes, em agosto, quando a gestão de Osmar Stabile estudava antecipar até 30% das receitas de 2027 para aliviar o caixa. É aí que a crise deixa de ser apenas contábil e vira escolha política: usar o dinheiro da próxima administração para sustentar uma estrutura que a atual não conseguiu ajustar.

Antecipar 2027 não cria dinheiro; apenas muda a data do aperto.

O artigo 117 do estatuto permite comprometer esse percentual do primeiro ano do mandato seguinte sem parecer do Cori ou votação do Conselho Deliberativo. Pode estar dentro da regra. Continua sendo uma péssima ideia. O Corinthians terá eleição presidencial em novembro de 2026, e qualquer antecipação feita agora reduzirá os recursos disponíveis para quem assumir depois. Tratar isso como solução é vestir o cheque especial de terno e apresentá-lo como investidor.

Osmar Stabile deveria abandonar publicamente essa possibilidade. Não “avaliar com cautela”, não “usar apenas em último caso”, não deixar a porta entreaberta para uma emergência fabricada pelo próprio descontrole. Abandonar. O clube já chegou a 19 de agosto com três transfer bans ativos, um mês de direitos de imagem devido ao elenco e atrasos em férias e premiações. O Regime Centralizado de Execuções alcançara R$ 237,4 milhões, mesmo após o pagamento das cinco primeiras parcelas. Vender o extintor nessas condições não apaga o incêndio; só garante que o próximo foco encontre a sala vazia.

Candidatos instalam um teto de gastos enquanto uma tesoura ameaça cortar parte do calendário de 2027.

Voltemos ao balancete, porque os números recusam a versão mais conveniente. Entre 1º de janeiro e 31 de julho, o Corinthians acumulou déficit de R$ 278,705 milhões. O orçamento previa prejuízo de R$ 77,862 milhões. Somente em julho, o buraco aumentou R$ 32,6 milhões, depois de o primeiro semestre terminar R$ 246,039 milhões no vermelho.

A receita, porém, não ficou abaixo do esperado. A receita operacional bruta chegou a R$ 472 milhões, superando em R$ 69 milhões os R$ 403 milhões orçados. A líquida bateu R$ 448,8 milhões, R$ 75,6 milhões acima da previsão de R$ 373,2 milhões.

O Corinthians não está sem receita. Está sem freio.

É verdade que a venda frustrada de atletas abriu uma cratera. O resultado líquido com transferências foi de apenas R$ 3,2 milhões, diante dos R$ 150 milhões previstos. A diferença, portanto, alcançou R$ 146,8 milhões. A diretoria decidiu não negociar jogadores na primeira janela de 2026 para preservar o desempenho esportivo e tentar valorizar os ativos. Foi uma aposta. O problema é que orçamento de clube endividado não pode tratar aposta como dinheiro no banco.

A decisão seria discutível até num time voando. No Corinthians de 2026, ficou ainda mais difícil defendê-la. Após 28 rodadas do Brasileirão, a equipe ocupava a 14ª colocação, com 32 pontos — três acima do Grêmio, primeiro integrante da zona de rebaixamento. Era um ponto a menos do que o clube possuía no mesmo estágio de 2007, temporada de seu único rebaixamento.

Na derrota por 3 a 1 para o Fluminense, em 20 de setembro, veio a sexta queda consecutiva no campeonato, igualando a pior sequência corintiana na era dos pontos corridos. Preservaram-se os ativos para tentar valorizá-los; o campo respondeu com uma sirene.

Mas seria intelectualmente desonesto parar nas transferências. Mesmo com a receita operacional líquida acima do orçamento, os gastos com pessoal chegaram a R$ 327,4 milhões — R$ 42,5 milhões além dos R$ 284,9 milhões previstos. Outros R$ 171 milhões foram consumidos por juros e custos financeiros em sete meses, ante R$ 133,7 milhões orçados. Mais R$ 37,3 milhões de desvio numa rubrica que não marca gol, não dá assistência e não salva bola no ângulo.

Esse é o coração do problema. Uma folha pesada pode até produzir taça; juros produzem apenas mais juros. O clube contabilizou R$ 32,525 milhões em premiações pela conquista da Copa do Brasil de 2025, R$ 6,076 milhões em impostos cambiais ligados à quitação da dívida com o Santos Laguna por Félix Torres e R$ 16,307 milhões em contingências e revisão contábil. Há eventos específicos, sem dúvida. Só que chamar cada estouro de extraordinário não transforma o conjunto em normalidade.

Reservatório do Corinthians perde dinheiro por rachaduras identificadas como gastos com pessoal e juros.

A diretoria sustenta que, desconsiderados os desvios orçamentários e itens extraordinários apontados, o déficit seria de R$ 73,8 milhões, próximo dos R$ 77,8 milhões previstos. A conta pode servir para explicar o balancete. Não serve para governar o clube. Premiação, câmbio, contingência, dívida e frustração em vendas não caíram de Marte. Administração existe justamente para absorver riscos — não para apagá-los da fotografia quando estragam o enquadramento.

No futebol, esperança de venda não pode assinar orçamento.

O tamanho do dano aparece no patrimônio líquido negativo. Ao fim de julho, dívidas e demais compromissos superavam bens e direitos em R$ 1,053 bilhão. Em dezembro de 2025, o passivo a descoberto era de R$ 774,2 milhões. Cresceu R$ 279,6 milhões, ou 36,1%, em sete meses. Em julho de 2025, a diferença era de R$ 529,2 milhões; aumentou R$ 524,5 milhões em um ano. A auditoria externa do balanço de 2025 já havia apontado dúvidas relevantes sobre a capacidade de o Corinthians manter suas atividades financeiras ao longo do tempo.

Isso não é uma advertência abstrata escondida na nota de rodapé. É o retrato de um clube que arrecada muito, mobiliza como poucos e, ainda assim, perde capacidade de escolher. Quando o caixa manda mais do que o futebol, o transfer ban escala o time, o credor define prioridades e a janela deixa de ser planejamento para virar liquidação.

Marcelo Paz afirmou em 18 de setembro: “O ano ainda não acabou, podemos ter uma venda até dezembro.” Está correto no sentido literal. Ainda pode haver uma negociação. Mas ela não absolverá a estrutura que transformou R$ 472 milhões de receita bruta em déficit de R$ 278,705 milhões. Venda de atleta deve aliviar o passivo ou financiar um projeto claro, jamais funcionar como bilhete premiado necessário para fechar o mês.

Os candidatos à presidência precisam assumir desde já um compromisso verificável: teto imediato para os gastos do futebol. Não uma promessa genérica de austeridade, palavra que dirigente costuma usar até aparecer a primeira oportunidade de contratar. Um limite real, compatível com receitas recorrentes e com o custo da dívida. Se o futebol estourar o teto, corta-se no futebol. O maior erro seria sacrificar 2027 para evitar decisões impopulares em 2026.

Antes da eleição de novembro, ainda haverá campo. O próximo compromisso pelo Brasileirão será contra o Internacional, em 7 de outubro, às 19h30, no Beira-Rio. O time precisa reagir porque a tabela já não tolera distrações. A diretoria, por sua vez, precisa entender que a urgência esportiva não suspende a aritmética.

Quem quiser governar o Corinthians em 2027 deve chegar com um teto — não com uma pá para aprofundar o buraco.


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