O muro errou o alvo: Memphis falhou, mas a crise tem o rosto de Diniz e da direção
Memphis merece cobrança pelo pênalti perdido. Mas o Corinthians de 35,5% pós-Copa já chegou ao último lance eliminado pelo futebol e pela própria direção.
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A bola subiu demais. Aos 55 minutos do segundo tempo, no último lance, Memphis Depay isolou o pênalti que o VAR havia recomendado três minutos antes. O Corinthians perdeu por 1 a 0 para o Estudiantes, caiu por 2 a 1 no agregado e deixou a Libertadores pela porta mais cruel: aquela que fica aberta por um instante, só para bater na cara de quem tenta atravessá-la.
Memphis errou. Errou feio, no momento em que uma cobrança comum pesa como um saco de cimento. Merece crítica, cobrança e banco, se o treinador entender que o desempenho também justifica. O que não merece é virar o álibi perfeito de um clube que passou dois meses levantando uma parede torta e agora culpa o sujeito que derrubou o último tijolo.
O pênalti eliminou a esperança. O futebol já havia eliminado o Corinthians.
A pichação no muro do Parque São Jorge — “Fora Memphis” e “salário de milhões, futebol de centavos” — encontrou um personagem fácil. Estrangeiro, badalado, caro e responsável pelo lance que encerrou a noite. É um roteiro pronto para a fúria. Só que o muro acertou o fato e errou o alvo principal.
O alvo deveria ser o colapso comandado por Fernando Diniz e tolerado pela direção.
Antes da Copa do Mundo, o Corinthians de Diniz havia disputado 16 partidas, com nove vitórias, quatro empates e três derrotas: 62,5% de aproveitamento. Depois dela, foram 15 jogos, quatro vitórias, quatro empates e sete derrotas. Aproveitamento de 35,5%. Não é uma oscilação, um azar prolongado ou uma maré ruim. É desempenho de rebaixado — e não como força de expressão: essa pontuação teria derrubado o clube em 15 das 20 edições do Brasileirão com 20 participantes.
Crise não é perder um pênalti. Crise é depender dele para esconder 15 jogos ruins.
A eliminação continental chegou depois de seis partidas sem vitória, com cinco derrotas e um empate. Nas dez anteriores, o Corinthians somava duas vitórias, dois empates e seis derrotas. No Brasileirão, ocupava a 14ª posição, com 32 pontos, quatro acima da zona de rebaixamento e cinco derrotas consecutivas. A Copa do Brasil já havia acabado nas oitavas, diante do Internacional: derrota por 2 a 0 no Beira-Rio, vitória por 2 a 1 em Itaquera e queda por 3 a 2 no agregado.
Não há tinta suficiente no Parque São Jorge para escrever tudo isso nas costas de Memphis.
Diniz ao menos reconheceu a própria participação no desabamento. “Tenho responsabilidade grande. Não conseguimos encontrar soluções”, afirmou. A frase é correta, mas chega perigosamente perto de ser uma confissão esportiva. Encontrar soluções não é uma atividade paralela do treinador, como escolher a música do vestiário ou decidir o sabor do isotônico. É o serviço.
A ausência de Yuri Alberto escancarou o problema. Artilheiro corintiano na temporada, com oito gols, ele sofreu uma lesão muscular na parte posterior da coxa direita e, depois, uma ruptura parcial da fibrose formada na cicatrização. A previsão era de retorno apenas após a Data Fifa. Diniz reconheceu que não conseguiu substituí-lo com Pedro Raul nem usando Memphis como referência.
Eis a rachadura tática. Sem Yuri, desapareceu a engrenagem ofensiva; no lugar dela, houve improvisação sem resultado. Esperar que Memphis virasse Yuri Alberto por decreto foi como colocar uma chuteira no lugar de uma peça do motor e reclamar que o carro não pegou.
A direção, evidentemente, tem sua parcela pesada. O Corinthians convivia com atrasos de salários e direitos de imagem, além de três transfer bans que impediram contratações na última janela. Treinador nenhum trabalha no vácuo. Mas reconhecer o caos administrativo não obriga ninguém a fingir que o trabalho de campo está bom.
Marcelo Paz fez exatamente isso ao descartar uma troca em 17 de setembro: “Não passa pela nossa cabeça qualquer mudança”. Blindagem irrestrita, neste cenário, não é convicção. É fechar os olhos para a rachadura porque chamar o pedreiro dá trabalho.
Dar respaldo não significa entregar imunidade.
Na manhã de 18 de setembro, lideranças das principais torcidas organizadas entraram no CT Joaquim Grava e se reuniram apenas com os capitães antes do treino. A cobrança atravessou o portão, mas parou novamente no elenco. Enquanto isso, o comando do futebol tenta transformar a crise numa interminável sessão de terapia coletiva sobre confiança, ideias e posse de bola. A bola circula, todo mundo expõe os sentimentos e ninguém entra na área.
O jogo contra o Fluminense, em 20 de setembro, às 16h, na Neo Química Arena, precisa ser tratado como ultimato esportivo. Não por causa de uma derrota isolada, mas pelo conjunto da obra. Depois, o Corinthians só voltará a campo em 7 de outubro, contra o Internacional, no Beira-Rio. Há uma janela real para mudança, caso o time repita a apatia.
Memphis tem de encarar a cobrança pelo chute que mandou embora. Diniz deve responder pelos dois meses em que o Corinthians desaprendeu a competir. E Marcelo Paz precisa entender que proteger o treinador acima das evidências é ajudar a sustentar uma parede já condenada.
O muro pediu a saída do homem errado; se o Fluminense ampliar a rachadura, a direção não poderá dizer que não ouviu o barulho.
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