Isonomia de fachada: CBF protege líderes e convoca justamente seus rivais
Flamengo e Palmeiras ficaram blindados pela Seleção, enquanto Athletico-PR e Cruzeiro perderam jogadores antes da 35ª rodada. Isso não é isonomia.
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Isonomia não usa camisa.
A CBF tentou vender como equilíbrio uma decisão que produziu exatamente o contrário. Carlo Ancelotti convocou 26 jogadores em 29 de outubro de 2026 para os amistosos contra Japão e Singapura. Entre eles, seis atuam no Brasil — mas nenhum pertence a Flamengo ou Palmeiras, os dois líderes do campeonato.
Não foi coincidência. Foi critério declarado.
Rodrigo Caetano, diretor de seleções da CBF, explicou: “Diante disso, tivemos como critério convocar até um jogador de cada clube brasileiro, com exceção dos dois postulantes ao título.” Em português claro: a Seleção decidiu não mexer nos elencos de quem disputa a taça. O problema é que mexeu justamente nos times que enfrentarão esses candidatos na 35ª rodada.
Quando a proteção contempla apenas dois clubes, o nome disso não é isonomia. É privilégio.
Depois dos jogos de 28 de outubro, Flamengo e Palmeiras estavam empatados com 70 pontos. O Flamengo aparecia na frente por ter 21 vitórias, contra 20 do rival, além de possuir um jogo a menos. Não existe margem para tratar qualquer interferência como detalhe administrativo. Numa disputa assim, até espirro vira critério de desempate.
A melhor defesa possível da CBF
É justo montar o argumento contrário sem caricatura. O calendário encurralou a entidade. A Data Fifa vai de 9 a 17 de novembro, com Brasil x Japão marcado para o dia 14, às 7h15 de Brasília, e Singapura x Brasil no dia 17, às 7h. Os dois amistosos serão realizados no Estádio Nacional de Singapura, e a previsão divulgada é de retorno da delegação ao país apenas no dia 19.
Ao limitar a convocação a um atleta por clube e preservar os postulantes ao título, a CBF teria tentado reduzir o estrago. Os seis clubes atingidos foram consultados e, segundo Rodrigo Caetano, não apresentaram objeção. Flamengo e Palmeiras nem precisaram ser ouvidos porque já estavam fora do alcance da caneta.
Dentro dessa lógica, a entidade não teria favorecido ninguém por capricho; teria apenas administrado um conflito entre Seleção e Brasileirão com a concordância dos envolvidos. Parece razoável. Quase elegante.
Quase.

Consentimento não transforma distorção em justiça
A falha está na pergunta feita. Consultar um clube para saber se ele aceita ceder seu jogador não resolve o impacto sobre a competição. A isonomia do Brasileirão não pode depender da disposição de cada dirigente em dizer “sim” à Seleção — sobretudo quando os principais beneficiados nem participam da consulta.
Athletico-PR e Cruzeiro aceitaram as convocações de Arthur Dias e Jonathan Jesus. Ótimo para a Seleção. Péssimo como argumento para manter a rodada intacta.
A tabela básica reservou 18 ou 19 de novembro para a 35ª rodada, imediatamente depois da Data Fifa. Nela, o Flamengo receberá o Athletico-PR, enquanto o Cruzeiro receberá o Palmeiras. Ou seja: os líderes foram blindados, e seus adversários tiveram jogadores chamados para uma viagem cuja previsão de retorno é no próprio dia 19.

A CBF não eliminou a interferência da Seleção no campeonato; apenas escolheu quem sofreria com ela.
A situação fica ainda mais indefensável porque Athletico-PR e Cruzeiro não ocupavam um canto decorativo da tabela. No momento da convocação, eram quarto e terceiro colocados, respectivamente, ambos com 54 pontos e 32 jogos. Tinham, portanto, interesses competitivos de primeira grandeza. Preservar os líderes às custas de dois perseguidores é como endireitar uma mesa serrando as pernas do outro lado — e depois elogiar o trabalho do marceneiro.
Também não se trata de um problema restrito à corrida pelo título. Pedro Morisco, do Coritiba; André Luiz, do Corinthians; Danilo Santos, do Botafogo; e Gabriel Bontempo, do Santos completam a lista dos atletas que atuam no país. E os quatro clubes se cruzam na mesma rodada: Corinthians x Botafogo e Coritiba x Santos.
O Corinthians estava em 18º lugar, com 33 pontos em 32 partidas. O Botafogo ocupava a 11ª posição, com 39 pontos em 33 jogos. O Santos era o oitavo, com 47 pontos em 33 partidas, e o Coritiba aparecia em 12º, com 39 pontos em 32 jogos, antes da conclusão da 33ª rodada. Há disputa contra o rebaixamento, briga por posição e confronto direto no pacote. A convocação atravessa o campeonato de cima a baixo.
Aceitar perder um jogador não significa aceitar que o adversário seja protegido.
Há ainda uma ironia reveladora: a blindagem de Flamengo e Palmeiras vale somente para convocações da Seleção Brasileira. Não existe acordo que impeça seleções estrangeiras de chamar atletas dos dois elencos. A solução, portanto, nem garante igualdade plena; apenas concede uma proteção específica contra a própria CBF.
A reparação correta tem dois caminhos. Ou a entidade adia a 35ª rodada para uma data compatível com o retorno e a recuperação dos convocados, ou libera os seis atletas que atuam no Brasil. O que não cabe é conservar a tabela e fingir que a anuência dos clubes apagou a vantagem criada.
A organizadora do campeonato não pode entrar na disputa pelo título — nem usando o crachá da Seleção.
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