Gramado ruim não chuta para fora: Abel escolheu o álibi errado na Vila
Abel tem razão sobre os gramados, mas escolheu o culpado errado: o Palmeiras perdeu dois pontos na pontaria e na demora por Vitor Roque, não na grama.
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O Palmeiras empatou por 0 a 0 com o Santos porque falhou na pontaria e demorou a colocar Vitor Roque — não porque a grama da Vila Belmiro resolveu defender a equipe da casa.
Esse é o laudo antes mesmo da autópsia. Abel Ferreira tem razão quando cobra uma regulamentação mais rigorosa para os gramados brasileiros. Tem razão, inclusive, em se irritar. O erro foi abrir a entrevista coletiva chamando o campo de “lamentável” e “inacreditável”, como se ali estivesse a explicação principal para os dois pontos deixados na 33ª rodada do Brasileirão.
Não estava.
O estrago aparece na tabela. O Palmeiras chegou aos 70 pontos em 33 partidas, permaneceu em segundo e viu o Flamengo conservar a liderança com os mesmos 70, mas um jogo a menos e vantagem no número de vitórias: 21 a 20. Se vencer o Vasco nesta quinta-feira, 29 de outubro, às 20h, no Nilton Santos, o time carioca abrirá três pontos.

Palmeiras e Flamengo ainda vão se enfrentar na casa alviverde, pela 36ª rodada, em data a ser confirmada pela CBF. O confronto direto mantém tudo aberto, claro. Mas campeonato apertado não costuma perdoar desperdícios embalados para presente.
Gramado ruim atrapalha a construção; não absolve a finalização.
O primeiro corte da autópsia leva ao lance de Agustín Giay, aos nove minutos. Jhon Arias cruzou rasteiro para a segunda trave, o lateral apareceu livre de marcação e finalizou por cima. O piso pode alterar o quique, comprometer o apoio e atrapalhar a velocidade da bola. Tudo isso é verdade. Mas não foi a grama que pegou Giay pelo tornozelo e o obrigou a mandar para fora.
Naquele tipo de oportunidade, jogador de time que briga pelo título precisa acertar o gol. Não há agrônomo, jardineiro ou fiscal da CBF que possa resolver isso.
Também seria desonesto vender a partida como um massacre palmeirense sabotado pelo terreno. O Santos teve chances claras. Gabigol ficou frente a frente com Carlos Miguel aos 41 minutos do primeiro tempo. Aos 31 da etapa final, Arthur tirou quase sobre a linha a finalização de Gabriel Bontempo. O empate não caiu do céu nem foi fabricado por um complô de tufos rebeldes.
Ainda assim, o Palmeiras teve as oportunidades para vencer. Aos 33 minutos do segundo tempo, Murilo exigiu grande defesa de Diógenes em uma cabeçada. No minuto seguinte, Gustavo Gómez cabeceou rente à meta santista. Era o momento em que o jogo começava a oferecer aquilo que um candidato ao título não pode recusar.
E então chegamos ao segundo culpado: o relógio de Abel.
Vitor Roque começou no banco em sua primeira partida disponível desde a entorse no tornozelo sofrida contra o Corinthians. O cuidado físico era compreensível. O Palmeiras, afinal, está na final da Libertadores, na semifinal da Copa do Brasil e encara o Vasco em 1º de novembro, às 16h, pela ida dessa semifinal.
Mas há uma diferença entre cautela e demora. Vitor Roque atuou por quase 20 minutos, além dos acréscimos. Para um jogo travado, no qual o empate servia muito mais ao adversário, foi pouco. Se havia condição para colocá-lo em campo, havia motivo para antecipar a decisão.

Aos 43, Felipe Anderson encontrou o atacante. Vitor Roque girou, ficou cara a cara com Diógenes e parou no goleiro. Em poucos minutos, apareceu exatamente onde um centroavante deve aparecer. Não converteu — e também entra na conta da pontaria —, mas sua presença mostrou quanto tempo o Palmeiras passou sem essa agressividade perto da área.
O banco de Vitor Roque custou mais ao Palmeiras do que qualquer irregularidade do gramado.
No último lance, aos 48, veio a prova final. Larson surgiu livre na pequena área e desviou para fora. Era a chance do jogo, talvez a chance que pese quando o campeonato fizer as contas. Culpar o campo por um desperdício desses seria como responsabilizar o prato porque o garçom errou a mesa.
Abel não mandou uma equipe remendada à Vila. Utilizou força máxima, com três zagueiros, Marlon Freitas, Lucas Evangelista e Andreas Pereira no meio, além de Jhon Arias e Flaco López no ataque. Houve material suficiente para ganhar. Faltaram execução e uma intervenção mais rápida no setor ofensivo.
É justamente por isso que a entrevista incomoda. Quando o treinador escolhe o gramado como manchete, entrega ao elenco um álibi confortável. E conforto, nesta altura do Brasileiro, é artigo perigoso. O jogador que perde uma chance clara precisa sair pensando na próxima finalização, não na altura da grama.
Um candidato ao título pode reclamar das condições; o que não pode é se esconder atrás delas.
Abel acertou ao cobrar um futebol brasileiro com campos melhores. Essa batalha merece ser comprada. Só não podia usar uma causa legítima para maquiar um problema interno. A grama da Vila não chutou nenhuma bola para fora — quem chutou veste verde, e é para lá que a régua precisa apontar.
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