Nestor não expulsou Neymar: o Santos deve tirar a braçadeira do camisa 10

Neymar transformou Santos x Bahia em briga pessoal, prejudicou o time e merece mais que proteção: multa e perda temporária da faixa de capitão.

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Neymar acende uma dinamite no barco do Santos enquanto aponta para Rodrigo Nestor.

Não, Rodrigo Nestor não expulsou Neymar. É confortável dizer que o jogador do Bahia “entrou na mente” do camisa 10, armou uma cilada e esperou o bote. Também é uma maneira bastante conveniente de tirar do capitão do Santos a responsabilidade por tudo o que ele fez. Nestor não construiu uma armadilha. Neymar ergueu a própria escada, subiu quatro degraus e, lá no alto, encontrou o cartão vermelho que vinha procurando desde o primeiro tempo.

A cronologia desmonta qualquer tentativa de transformar o santista em vítima. Neymar e Nestor se estranharam aos 29, aos 32 e aos 36 minutos. Em uma das discussões, o capitão jogou a bola contra o adversário e recebeu cartão amarelo. Após o gol de Luciano Juba, aos 38, ainda empurrou Rogério Ceni — episódio pelo qual pode ser denunciado ao STJD. Antes do reinício da partida, já na volta para o segundo tempo, cobriu a boca para falar com Nestor. O VAR chamou Sávio Pereira Sampaio, e veio o vermelho direto.

Não foi um rompante isolado. Foi uma autossabotagem em capítulos.

Neymar sobe uma escada de quatro discussões até um cartão vermelho, enquanto Nestor observa.

A regra adotada pela CBF desde a 23ª rodada é clara: cobrir a boca ao se comunicar com um adversário de maneira provocativa, depreciativa ou inflamatória resulta em expulsão. Pode-se discutir se a norma é dura, teatral ou até uma tentativa de transformar o árbitro em fiscal de recreio. O que não dá é fingir que Neymar não a conhecia. Ele próprio encerrou o debate ao admitir: “Fui expulso de uma forma justa”.

E então conseguiu piorar a própria saída. Reconheceu o erro de cobrir a boca, mas avisou: “Eu vou pegar o Nestor”. A frase não transmite arrependimento; prolonga a briga. Nestor, por sua vez, disse ter sido desrespeitado, assim como a camisa do Bahia, e afirmou que Neymar “falhou muito como pessoa”. O confronto que deveria terminar no apito ganhou continuação no corredor, no microfone e, possivelmente, no tribunal.

Culpar Nestor, a essa altura, é como responsabilizar o último degrau pela queda de quem decidiu subir a escada correndo e de chinelos.

O prejuízo esportivo é concreto. Santos e Bahia disputavam um confronto direto pela Libertadores: o time baiano terminou a 32ª rodada em sétimo, com 50 pontos, enquanto o Peixe ficou em oitavo, com 46. Neymar deixou seus companheiros com dez, e o empate por 1 a 1 só apareceu aos 49 minutos da etapa final, quando Luan Peres marcou de cabeça. O capitão abandonou o campo; o restante do time teve de buscar o ponto carregando o piano sem o homem que deveria ajudar a empurrá-lo.

Pior: o amarelo recebido no primeiro tempo foi o terceiro de Neymar no Brasileirão. A combinação dessa suspensão com o vermelho o tira de duas partidas consecutivas. Ele não enfrentará o Palmeiras, em 28 de outubro, na Vila Belmiro, nem o Bragantino, em 2 de novembro, em Bragança Paulista. A previsão inicial aponta retorno contra o Coritiba, em 18 de novembro, depois da Data Fifa. Um julgamento no STJD ainda pode ampliar o gancho.

Liderança sem responsabilidade vira salvo-conduto.

É aqui que Cuca erra. O treinador declarou: “Não vou jogá-lo na fogueira”. Como gesto humano, faz sentido. Técnico nenhum precisa humilhar publicamente um jogador, muito menos o maior nome do elenco. Mas existe um abismo entre não jogar alguém na fogueira e abrir sobre ele um guarda-chuva institucional grande o bastante para esconder cartões, empurrões e reincidências.

Cuca protege Neymar com uma braçadeira gigante enquanto jogadores do Santos empurram uma carroça.

Neymar acumulou 12 amarelos e um vermelho em 27 partidas pelo Santos em 2026. Fez dez gols e deu oito assistências, números que mostram sua importância técnica. Só que a braçadeira não é prêmio por currículo, talento ou bilheteria. Ela representa controle quando o jogo ferve, compromisso quando o adversário provoca e exemplo quando o time mais precisa de cabeça no lugar.

O Santos deve multá-lo e retirar temporariamente a faixa de capitão. Não como espetáculo punitivo, nem para satisfazer a patrulha moral das redes sociais. Deve fazê-lo porque Neymar prejudicou o clube de maneira consciente, após sucessivas oportunidades de recuar. A multa estabelece consequência. A perda da braçadeira estabelece limite. Proteger o jogador não pode significar infantilizá-lo.

Craque decide partidas; capitão decide também quando não comprar uma briga.

Haverá quem diga que punir Neymar cria crise. A crise já foi criada — por Neymar, dentro de campo, num jogo em que o Santos precisava dele. Também haverá o argumento de que Nestor provocou. E daí? Provocação faz parte do pacote. O capitão não é escolhido para ser o primeiro a perder a cabeça; é escolhido para ser o último.

A faixa pode voltar mais adiante. Antes disso, porém, Neymar precisa mostrar que entendeu o tamanho do dano, não apenas a correção do cartão. Na Vila Belmiro, ninguém deveria ser maior do que a responsabilidade de vestir o Santos.

Neymar não precisa ser jogado na fogueira. Precisa apenas parar de usar a braçadeira como extintor.

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