Cuca soltou o freio: o quarteto de estrelas tem de virar o plano do Santos

A virada sobre o Fluminense mostrou o caminho: Cuca deve manter Neymar, Coutinho, Gabigol e Cebolinha juntos e buscar equilíbrio sem sacrificar talento.

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Cuca dirige um carro do Santos movido por Neymar, Coutinho, Gabigol e Cebolinha, com Bontempo e Gustavo Henrique ajustando o chassi.

67%.

Parece aproveitamento de time que passou meses atropelando o campeonato, não de uma equipe que ainda procura o melhor jeito de acomodar suas estrelas. Pois esse é o rendimento do Santos no segundo turno: 24 pontos em 12 partidas. A vitória por 2 a 1 sobre o Fluminense, em pleno Maracanã, levou o time aos 45 pontos e à oitava colocação. Mas o número mais importante da noite não apareceu na tabela.

Pela primeira vez neste Brasileirão, Cuca escalou Neymar, Philippe Coutinho, Gabigol e Everton Cebolinha juntos.

E não caiu o teto. Não faltou oxigênio no Rio de Janeiro. A bola não pediu transferência por excesso de talento. Ao contrário: o Santos finalizou 17 vezes, mais que o dobro das oito tentativas do Fluminense, e acertou cinco chutes no gol. Saiu atrás com apenas quatro minutos, quando Rodrigo Castillo abriu o placar, mas voltou do intervalo para virar rapidamente: Gabigol empatou aos quatro, Coutinho fez o segundo aos oito.

Talento não é o inimigo do equilíbrio; desorganização é.

Essa distinção precisa orientar Cuca daqui em diante. O quarteto não pode ser tratado como atração especial, daquelas que entram em cartaz apenas quando o adversário, o clima e o horóscopo permitem. Tem de virar a estrutura titular do Santos. Ajustam-se as distâncias, cobra-se recomposição, melhora-se a compactação. O que não faz sentido é amputar a qualidade antes mesmo de descobrir até onde ela pode levar o time.

A escalação no Maracanã teve Diógenes; Rodinei, Lucas Veríssimo, Luan Peres e Barreal; Gustavo Henrique, Gabriel Bontempo e Coutinho; Neymar, Cebolinha e Gabigol. No papel, parece um daqueles times montados por torcedor em videogame, com a delicadeza tática de quem gasta todo o orçamento no ataque e depois percebe que esqueceu de contratar lateral. Só que existe uma diferença decisiva: Gustavo Henrique e Bontempo dão sustentação real ao desenho.

Bontempo e Gustavo Henrique sustentam uma prancheta com peças de Neymar, Coutinho, Gabigol e Cebolinha.

Não são coadjuvantes decorativos. São as pernas da mesa. Se mantiverem o meio compacto, protegerem a entrada da área e acelerarem a primeira bola, os quatro da frente poderão ocupar zonas diferentes sem transformar a equipe numa procissão de camisas famosas esperando o passe chegar. O equilíbrio deve nascer desse trabalho coletivo — e também do compromisso dos craques sem a bola —, não da retirada automática de um deles.

O argumento contrário é forte. Só não é suficiente

Convém reconhecer: há motivos legítimos para desconfiar. O Fluminense começou a partida com apenas três titulares habituais — Fábio, Nonato e Canobbio — porque terá a volta da semifinal da Libertadores contra o Palmeiras em 21 de outubro. Vencer uma equipe remendada não autoriza desfile em carro aberto, muito menos a conclusão de que todos os problemas táticos foram resolvidos em 90 minutos.

Além disso, Cuca admitiu que o entrosamento e o condicionamento ainda exigem tempo. Quatro jogadores de vocação ofensiva podem aumentar os espaços entre os setores, sobrecarregar os volantes e deixar a última linha exposta contra adversários mais agressivos. O gol de Castillo, logo no início, serve como lembrete incômodo: escalação bonita não funciona como colete à prova de contra-ataque.

A prudência sugeriria usar um dos quatro no banco, guardar munição para o segundo tempo e proteger a equipe até que todos estejam no mesmo estágio físico. Seria uma decisão compreensível. O Santos perdeu por 2 a 1 para o Atlético-MG uma semana antes do jogo no Maracanã e terá pela frente Bahia, em 24 de outubro, e Palmeiras, no dia 28. O nível de cobrança vai subir.

Esse é o melhor argumento do outro lado. E ainda assim ele perde.

Entrosamento não cai do teto; nasce da repetição.

Se a formação precisa de tempo, desmontá-la por falta de entrosamento é uma contradição quase cômica. Seria como cancelar o treino porque o time ainda não está treinado. O quarteto só desenvolverá mecanismos se jogar junto: quem aproxima para tabelar, quem ataca profundidade, quem abre o corredor, quem fecha a linha de passe quando a bola é perdida. Nenhum desses acordos se firma com cada estrela ocupando uma semana diferente no calendário.

Cuca, aliás, precisou contrariar o próprio receio. Depois do empate por 2 a 2 com o Flamengo, em 8 de outubro, respondeu sobre Neymar e Coutinho juntos: “Muito cedo para falar nos dois juntos.” Dez dias depois, não apenas colocou os dois como reuniu também Gabigol e Cebolinha. Após a virada, mudou o tom e disse ser necessário “unir os melhores jogadores e pôr em prática”.

Essa mudança não diminui o treinador. Pelo contrário. Técnico bom não é aquele que protege eternamente a primeira opinião como se fosse patrimônio de família; é aquele que enxerga a resposta do campo e corrige a rota. O erro seria assistir ao que aconteceu no Maracanã e correr de volta para a zona de conforto.

O papel de Neymar muda a equação

Neymar não marcou nem deu assistência, embora tenha acertado a trave no segundo tempo. Ainda assim, Cuca classificou a atuação como aquela em que o camisa 10 mais competiu desde a chegada do treinador. A observação vale mais do que uma participação direta em gol, porque toca no ponto que decidirá o futuro do quarteto.

Se Neymar competir, o desenho fica viável. Se Coutinho aceitar a responsabilidade de ajudar a conectar o meio, também. Cebolinha oferece uma característica diferente pelos lados, enquanto Gabigol vive de atacar a área e encontrar o gol — contra o Fluminense, chegou a 16 na carreira, sua maior vítima: 11 pelo Flamengo e cinco pelo Santos.

Coutinho, por sua vez, marcou seu primeiro gol com a camisa santista. Não poderia haver símbolo melhor para a noite: a virada foi assinada justamente por dois nomes que poderiam ser vistos como “excesso” numa escalação mais conservadora.

Se o quarteto aparecer apenas em noites especiais, o Santos transformará solução em evento.

Há uma mania antiga no futebol brasileiro de chamar medo de “equilíbrio”. Tira-se o jogador criativo, acrescenta-se um marcador e vende-se a decisão como responsabilidade. Às vezes funciona. Muitas outras, a equipe apenas passa a sofrer com menos talento para responder. Equilíbrio não é contar quantos atacam e quantos defendem como quem separa crianças em dois times no recreio. É controlar espaços, coordenar movimentos e impedir que o jogo se parta.

Cuca escolhe entre uma engrenagem com o quarteto titular e um freio de mão marcado como atração ocasional.

O Fluminense reserva recomenda cautela, claro. Não recomenda covardia. A vitória no Maracanã não prova que o quarteto funcionará contra qualquer adversário, mas oferece evidências suficientes para que a experiência deixe de ser experiência. O Santos tem somente o Brasileirão até o fim da temporada. Há tempo para treinar, recuperar e repetir. Poucos clubes recebem uma oportunidade tão limpa de lapidar uma formação desse porte sem dividir atenção com outra competição.

Contra Bahia e Palmeiras, Cuca descobrirá onde a engrenagem range. Que descubra com os melhores em campo. Se houver buracos, deve corrigi-los com compactação, posicionamento e cobrança. Gustavo Henrique e Bontempo precisarão correr com inteligência; Neymar, Coutinho, Cebolinha e Gabigol terão de entender que a bola perdida também lhes pertence.

Mas retirar talento preventivamente seria voltar ao ponto de partida justamente quando o Santos encontrou uma direção.

Cuca já soltou o freio de mão. Agora não pode estacionar o quarteto na garagem.

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