Todos ou ninguém: convocação não pode virar balcão da CBF

Poupar atletas conforme a pressão de cada clube premiaria o grito mais alto. Nesta Data Fifa, a regra menos injusta é simples: todos ou ninguém.

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Dirigentes negociam liberações de jogadores em um balcão da CBF enquanto Ancelotti segura a lista de convocados.

Você pode torcer para Flamengo, Palmeiras ou para um time já distante da taça. Não muda o princípio. Se a CBF decidiu discutir a preservação de atletas do Brasileirão nesta Data Fifa, a conversa precisa terminar com uma regra limpa: ou Carlo Ancelotti chama quem joga no Brasil, ou não chama ninguém daqui.

Imagine a cena de Ancelotti na sede da CBF, nesta quinta-feira, 29 de outubro, às 15h, escolhendo seus 26 convocados. Sobre a mesa, relatórios técnicos. Ao lado, o ruído dos dirigentes. O italiano foi contratado para montar a Seleção, não para trabalhar como síndico de condomínio medindo quem reclamou mais alto no grupo do WhatsApp.

Convocação não pode ser prêmio para dirigente com megafone.

A tendência discutida pela CBF — levar jogadores do futebol brasileiro apenas quando seus clubes aceitarem liberá-los — parece conciliadora, mas é péssima. Transforma um critério esportivo em negociação de balcão. Quem pressiona preserva seu elenco; quem coopera entrega jogador. Bonito para a política, desastroso para a isonomia.

E não estamos falando de uma rodada qualquer. Depois de 32 jogos, o Flamengo liderava com 70 pontos, apenas um à frente do Palmeiras. Os dois se enfrentarão em São Paulo, em 21 de novembro, pela 36ª rodada. A delegação da Seleção tem retorno previsto para o dia 19, após os amistosos contra Japão, em 14 de novembro, e Singapura, no dia 17, ambos em Singapura.

Corredores de Flamengo e Palmeiras disputam uma prova enquanto a CBF entrega uma mala da Seleção a um deles.

O Flamengo, que vem de vitória por 3 a 2 sobre o Atlético-MG, tinha Pedro, Samuel Lino, Lucas Paquetá e Emerson Royal na pré-lista de outubro. A tendência, porém, era que nenhum deles aparecesse entre os 26 por causa da disputa do título. Ótimo. Mas por que o mesmo cuidado não valeria para Palmeiras e todos os outros? Na Data Fifa de setembro e outubro, Ancelotti chamou 11 atletas do Brasileirão. O impacto não é imaginário.

Se a exceção depende do escudo, ela já nasceu errada.

Ancelotti é a lente deste problema, mas não seu autor. A própria CBF montou o calendário de 2026, com o Brasileirão entre 28 de janeiro e 2 de dezembro, vendendo a mudança como caminho para uma temporada mais equilibrada. Agora que a Seleção atravessou a reta decisiva do campeonato, não cabe remendar a colisão distribuindo curativo apenas a quem bateu na porta.

A solução de não convocar atletas dos clubes brasileiros é excepcional e imperfeita. Estrangeiros que atuam aqui ainda poderão ser chamados por suas seleções — algo que a CBF não controla. Mesmo assim, dentro daquilo que está ao alcance da entidade, a regra precisa valer para todos. Não haverá simetria absoluta, mas pode haver decência institucional.

João Pedro, por exemplo, está fora por uma razão objetiva: o Chelsea comunicou uma lesão muscular e afastamento superior a duas semanas. Seus cinco gols e três assistências em sete partidas não mudam o diagnóstico. Lesão é critério. Pressão política não é.

A Seleção não pode escolher quem desequilibra o Brasileirão conforme a paciência de cada cartola.

Ancelotti deve receber liberdade para escolher os melhores — menos, desta vez, os que atuam no país. A conta é da CBF, que criou o choque de datas. E quem monta o labirinto não pode cobrar pedágio de quem ficou preso nele.

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