Expulsão aos 49, coragem aos 80: Jardim entregou o relógio ao Estudiantes

Contra dez desde os 4 do segundo tempo, Jardim levou 31 minutos para abrir o Flamengo. Muslera brilhou, mas a cautela do técnico decidiu a eliminação.

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Leonardo Jardim entrega um relógio gigante ao Estudiantes enquanto jogadores do Flamengo aguardam diante de uma porta fechada.

O Flamengo foi eliminado pelo Estudiantes antes dos pênaltis, e o principal responsável pela queda foi Leonardo Jardim. O 3 a 2 nas cobranças apenas carimbou uma semifinal que o treinador deixou escorrer pelo relógio. Contra dez jogadores desde os quatro minutos do segundo tempo — o minuto 49 da partida —, ele esperou até os 35, já no minuto 80, para retirar Erick Pulgar e realmente empurrar o time para a frente. Foram 31 minutos desperdiçados. Em mata-mata, meia hora não é prudência: é patrimônio entregue ao adversário.

O 0 a 0 no Maracanã repetiu o placar de La Plata e levou a decisão para a marca da cal. Muslera defendeu as cobranças de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique; Arrascaeta e Léo Pereira converteram. Pelo Estudiantes, José Sosa, Mancuso e Tiago Palacios marcaram. Cetré ainda teve um pênalti anulado pelo toque duplo e, na repetição, mandou para fora. Houve drama, reviravolta e três defesas do goleiro uruguaio. Ótimo roteiro para esconder o problema. Péssimo diagnóstico.

Muslera decidiu os pênaltis; Jardim decidiu que o Flamengo chegaria até eles.

A expulsão de Baltasar Rodríguez, pelo segundo cartão amarelo, mudou completamente a obrigação do jogo. O Estudiantes passaria praticamente todo o segundo tempo com dez. Era a senha para acelerar, alargar o campo, acumular jogadores perto da área e transformar o Maracanã em uma panela de pressão. Jardim respondeu como quem recebe um alarme de incêndio e resolve terminar o cafezinho. Sua primeira substituição após o vermelho ocorreu apenas aos 18 minutos, com Arrascaeta no lugar de Carrascal. Uma mudança de peça, não de postura.

Leonardo Jardim viaja sobre um caracol em direção ao minuto 80, enquanto jogadores do Estudiantes fazem um piquenique.

O Flamengo só foi aberto de verdade aos 35, quando Bruno Henrique, Plata e Ayrton Lucas entraram nas vagas de Pulgar, Samuel Lino e Alex Sandro. Não por acaso, a principal oportunidade rubro-negra apareceu um minuto depois: Paquetá encontrou Plata, que cabeceou para a defesa de Muslera. Aos 41, Paquetá também cabeceou rente à trave. Quando o time assumiu o risco que a situação exigia, o Estudiantes finalmente sentiu o golpe. A pergunta que desmonta qualquer defesa do treinador é simples: por que esperar tanto?

Quem joga 31 minutos a mais com medo de perder acaba descobrindo uma maneira pior de ser eliminado.

Os números não permitem maquiagem. O Flamengo teve 76% de posse de bola e finalizou 13 vezes, mas acertou o alvo apenas três. O Estudiantes, com oito tentativas, também obrigou o goleiro a trabalhar em três. Posse desse tamanho, sem agressividade, vira decoração estatística — bonita na estante, inútil dentro da área. E não se tratou de um acidente isolado no Maracanã: no empate sem gols da ida, o Flamengo não acertou uma única finalização no gol argentino.

Jardim reconheceu a pobreza ofensiva: “Criamos duas situações de gol, mas não fomos capazes de criar mais”. A frase é honesta, mas também funciona como confissão. Diante de um adversário reduzido a dez por quase toda a etapa final, criar só duas situações não pode ser tratado como capricho da bola. Foi consequência de uma equipe mantida por tempo demais com o freio de mão puxado.

A campanha invicta na Libertadores certamente será apresentada como atenuante. Não deveria. O Flamengo deixou a competição sem perder, mas também atravessou os 180 minutos da semifinal sem marcar. Invencibilidade que termina em eliminação é uma medalha imaginária, dessas que só existem para aliviar entrevista coletiva. Mata-mata não premia quem evita a derrota; premia quem encontra o caminho da classificação.

A invencibilidade ficou para a estatística. A coragem ficou para depois dos 80 minutos.

O público de 72.492 torcedores — 65.916 pagantes — estabeleceu o maior registro do futebol brasileiro em 2026 até aquele momento e produziu renda de R$ 13.149.227,50. Havia gente, ambiente e uma expulsão precoce no segundo tempo. Faltou o banco compreender a urgência. É duro cobrar que o time esmurre uma porta quando o próprio treinador passa meia hora procurando a campainha.

Jardim afirmou, ao explicar os cobradores: “O responsável é sempre o treinador”. Está certo, embora a responsabilidade maior nem esteja na lista das cobranças. Escolher Jorginho, Paquetá e Bruno Henrique faz parte do jogo; nenhum técnico controla totalmente um duelo entre cobrador e goleiro. Controlar o momento das substituições, porém, é atribuição direta do comandante. Ali não houve azar, trave ou inspiração sobrenatural de Muslera. Houve demora.

E agora não existe outra taça para distrair o Flamengo. Depois da eliminação anterior na Copa do Brasil, resta o Campeonato Brasileiro. A liderança, com 67 pontos, oferece vantagem de apenas um sobre o Palmeiras, a sete rodadas do fim. O próximo compromisso será contra o Atlético-MG, em 26 de outubro, às 20h, no Maracanã, pela 32ª rodada. Não há margem para Jardim repetir a mesma cautela e esperar que a tabela seja mais paciente do que o Estudiantes.

Leonardo Jardim atravessa uma ponte de sete tábuas com um freio preso ao pé, seguido por Flamengo e Palmeiras.

Leonardo Jardim precisa abandonar imediatamente esse apego ao controle que, na prática, paralisa o Flamengo. Um ponto de vantagem não comporta um treinador negociando com o relógio enquanto o rival se reorganiza. Na Libertadores, a conta chegou nos pênaltis. No Brasileirão, ela pode chegar em sete parcelas — e o Palmeiras não costuma perdoar atraso.

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