Treinar com bola não é alta médica: Flamengo deve tirar Arrascaeta da semifinal
Apenas 21 dias após a cirurgia, Arrascaeta ainda não pode sofrer contato. Jardim deve recorrer às alternativas contra o Estudiantes, não ao desespero.
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Arrascaeta não deve enfrentar o Estudiantes. Nem como titular, nem como solução de emergência, nem naquele banco montado mais para assustar adversário do que para oferecer uma opção real a Leonardo Jardim.
O uruguaio voltou a fazer passes, chutes e trabalhos com bola. Ótimo sinal. Mas treinar com bola não é alta médica — e muito menos autorização para disputar uma semifinal de Libertadores. Até 20 de outubro, ele ainda não havia sido reintegrado às atividades coletivas e continuava impedido de receber pancadas ou cair sobre o braço operado.
Bola no pé não consolida fratura. Ansiedade de semifinal também não.
A cirurgia foi realizada em 1º de outubro. O osso do punho esquerdo precisou ser recolocado na posição correta e fixado com placa e parafusos. O prazo inicial divulgado era de seis a oito semanas. Flamengo e Estudiantes voltam a se encontrar no dia 22, exatos 21 dias depois da operação.
Não há mistério: a reintegração depende de radiografias que comprovem a consolidação da fratura. Se o próprio departamento médico estabeleceu esse critério, atropelá-lo porque o ataque passou uma noite sem acertar o gol seria trocar ciência por superstição. Algo como tentar consertar o motor com fita isolante porque a oficina fecha cedo.

A tentação, claro, nasceu em La Plata. No 0 a 0 da ida, o Flamengo terminou com cinco finalizações e nenhuma na direção do gol. O Estudiantes tentou 21 vezes e obrigou Rossi a fazer seis defesas. Foi a primeira partida rubro-negra sem um chute certo desde outro 0 a 0, contra o Corinthians, pela Copa do Brasil, em 20 de outubro de 2024.
Foi ruim. Muito ruim. Mas uma atuação ofensiva desastrosa não transforma um punho em fase de consolidação numa peça disponível do elenco.
O desespero tático não pode receber alta no lugar do jogador.
É aqui que Jardim precisa assumir o papel principal. O treinador já apontou Samuel Lino, Jorge Carrascal e Lucas Paquetá como alternativas de características diferentes para a função de camisa 10. Jorginho merece o crédito por ter mostrado contra o Bahia que pode ajudar a reorganizar a equipe a partir do meio. Há ferramentas. O vazio ofensivo de La Plata é culpa de Jardim, e cabe ao técnico corrigi-lo — não pedir que Arrascaeta vire o canivete suíço de um ataque que emperrou.
Três dias depois do vazio ofensivo na Argentina, o Flamengo venceu o Bahia por 3 a 0 em Salvador. Jorginho abriu o placar aos 17 minutos do segundo tempo, Gonzalo Plata marcou aos 27 e Paquetá fechou aos 31, com um golaço. Paquetá chegou a 14 gols na temporada, segundo Jardim. A vitória levou o time a 67 pontos em 31 rodadas, na liderança do Brasileirão, um ponto à frente do Palmeiras.
Isso não apaga a dependência de Arrascaeta. Até 30 de setembro, o Flamengo tinha 70,48% de aproveitamento em 35 partidas com ele e 55,55% em 18 jogos sem o uruguaio. A diferença é brutal. Justamente por isso, preservá-lo é mais importante do que exibi-lo como amuleto.
A temporada já cobrou demais do camisa 10: fratura na clavícula contra o próprio Estudiantes, em abril, e lesão na panturrilha durante a preparação do Uruguai para a Copa do Mundo. Fazer dessa sequência um argumento para antecipar a volta seria crueldade fantasiada de coragem.
No Maracanã, uma vitória simples classifica; outro empate leva a decisão aos pênaltis. Jardim terá Carrascal, Paquetá, Jorginho e diferentes maneiras de reconstruir o ataque. Também deve recuperar Ayrton Lucas, que voltou aos treinos coletivos. O treinador não precisa apostar o punho de Arrascaeta na roleta da semifinal.
Camisa 10 decide com a cabeça e os pés; não precisa provar coragem caindo sobre uma placa e alguns parafusos.
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