Zero chute não é inteligência: Jardim encolheu o Flamengo em La Plata
O 0 a 0 é administrável; a passividade, não. Sem acertar o gol do Estudiantes, o Flamengo volta ao Maracanã obrigado a corrigir um plano pequeno.
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O 0 a 0 é administrável; a atuação do Flamengo, não. Leonardo Jardim voltou de La Plata com o placar no bolso e uma dívida tática na bagagem — dessas que parecem pequenas na alfândega, mas chegam ao Maracanã cobrando juros.
O Flamengo teve 59% de posse, porém encerrou a noite com cinco finalizações, nenhuma na direção do gol e nenhuma chance clara. O Estudiantes chutou 18 vezes, acertou seis, criou três grandes oportunidades e cobrou seis escanteios. A bola ficou mais com o time brasileiro; o jogo, quase sempre, pertenceu aos argentinos.
Zero chute no gol não é inteligência. É passividade de terno.
Aos 32 minutos do primeiro tempo, Tiago Palacios finalizou dentro da área e Léo Pereira salvou perto da linha. Foi o retrato da partida: o Estudiantes rondando o caixa, o Flamengo tentando proteger o cofre. Alexandre Medina resumiu sem cerimônia ao dizer que o Rubro-Negro “não criou nada” e que Fernando Muslera não precisou fazer defesa.
A escolha de Bruno Henrique como centroavante ajudou a explicar o apagão ofensivo. Carrascal, Lucas Paquetá, Samuel Lino e Bruno Henrique não produziram uma única finalização certa. Pedro, que havia marcado o gol da vitória sobre o próprio Estudiantes na fase de grupos, só entrou aos 34 minutos do segundo tempo. Jardim demorou demais para abandonar um ataque musculoso, mas incapaz de morder.

O treinador admitiu que sua equipe não atacou como pretendia, mas justificou a manutenção de jogadores mais altos pela necessidade de defender bolas aéreas e lances de bola parada. É uma preocupação legítima. O problema é montar uma equipe tão preparada para apagar incêndio que ela esquece onde fica a cozinha.
Paquetá chamou a atuação de inteligente e lembrou: “Não era um jogo de 90 minutos, mas de dois jogos”. Correto quanto ao tamanho da eliminatória, errado quanto ao diagnóstico. Inteligência seria reduzir riscos sem abdicar de ferir o adversário. O Flamengo apenas empurrou toda a responsabilidade para a segunda partida.
Quem transforma o Maracanã em plano de jogo já entrou devendo.
Jardim também reclamou da permissividade da arbitragem e disse que, com tantos contatos, “assim vira rúgbi”. Houve um jogo físico, claro. Mas usar isso para explicar cinco chutes e nenhum no alvo é tentar descontar boleto com figurinha. O maior erro foi do técnico: aceitou por tempo demais o roteiro que favorecia o Estudiantes.
E há um aviso estampado no histórico recente dos argentinos. Nos dois mata-matas anteriores, o Estudiantes empatou por 1 a 1 em La Plata e venceu fora: 3 a 0 sobre a Universidad Católica, no Chile, e 1 a 0 diante do Corinthians, na Neo Química Arena. Não é um visitante que chega ao aeroporto pedindo informação. Sabe exatamente o caminho.

Jorginho, suspenso na ida, volta a ficar disponível e é apontado internamente como o homem capaz de devolver controle ao meio-campo. Jardim precisa dele, mas precisa sobretudo abandonar a ideia de que controle significa esterilizar o próprio ataque. O Flamengo venceu 21 de 29 jogos no Maracanã em 2026, só que qualquer empate em 22 de outubro levará a semifinal aos pênaltis.
Antes, ainda há o Bahia, em 18 de outubro, na Fonte Nova, com a liderança do Brasileirão separada do Palmeiras por apenas um ponto. O calendário cobra atenção em duas frentes. A conta de La Plata, porém, não admite parcelamento.
O Maracanã pode empurrar o Flamengo; não pode chutar por ele.
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