“Proibir não é proteger”: clubes vestem o lobby das bets
Sem a marca no peito, Flamengo, São Paulo e companhia vestem o discurso de um setor que tenta preservar ao menos R$ 910 milhões anuais em patrocínios.
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A camisa virou panfleto.
Quando o Flamengo entrar na Arena Fonte Nova para enfrentar o Bahia, às 18h30 de 18 de outubro, haverá algo maior do que um espaço vazio no uniforme. No lugar antes valioso, o clube levará a frase “proibir não é proteger”. Um dia antes, às 21h, o São Paulo fará o mesmo diante do Vasco, no Morumbis. A mensagem parece institucional, quase cívica. Não é. Trata-se de uma peça de pressão política vestida por duas das camisas mais populares do país.
O torcedor comprou paixão. Recebeu lobby no pacote.
O Flamengo chega a esse ato depois do 0 a 0 com o Estudiantes, pela Libertadores, partida em que colocou a marca da Flamengo TV no espaço anteriormente ocupado pela Betano. Contra Santos e Fluminense, porém, já havia exibido o mesmo “proibir não é proteger”. O São Paulo, por sua vez, vem de vitória por 2 a 1 sobre o Vitória. Em ambos os casos, o jogo corre o risco de virar moldura para uma disputa que não nasceu nas arquibancadas.
Não há pecado em um clube defender suas receitas. Seria até infantil exigir que dirigentes tratassem centenas de milhões de reais como troco esquecido no bolso da calça. O problema começa quando o interesse comercial ganha fantasia de preocupação social. Flamengo, São Paulo e companhia não estão liderando uma política esportiva nem protegendo o apostador. Estão defendendo contratos — e usando escudo, camisa, estádio e torcida para dar musculatura popular a essa defesa.
Patrocínio compra espaço no uniforme; não deveria comprar a voz do clube.
Para entender o tamanho da reação, é preciso voltar a 25 de setembro. Naquele dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou a Medida Provisória 1.394/2026, proibindo a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no Brasil. A MP determinou ainda que materiais publicitários e sinais visíveis de patrocínios já contratados fossem retirados até 5 de outubro. Sites e aplicativos deveriam sair do ar no dia 6.
A canetada atingiu o coração financeiro do futebol brasileiro. Antes da proibição, 14 dos 20 clubes da Série A tinham uma casa de apostas como patrocinadora máster: Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Atlético-MG, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Santos, Vitória, Remo, Chapecoense e Grêmio.

Os valores conhecidos desses contratos somavam R$ 910 milhões por ano — e a conta nem inclui o acordo do Grêmio, cujo valor não foi divulgado publicamente. O Flamengo liderava com R$ 220 milhões fixos anuais. O Corinthians vinha atrás, com R$ 150 milhões, e o Palmeiras recebia R$ 100 milhões, além da possibilidade de bônus de até R$ 70 milhões por temporada.
A reação, portanto, não é um despertar filosófico. É o barulho de uma porta de cofre batendo. Em 2025, os clubes da Série A arrecadaram R$ 1,03 bilhão com patrocínios de casas de apostas. O setor representava aproximadamente um terço das receitas comerciais da competição. Dá para compreender o susto. O que não dá é aceitar a encenação. No manifesto contra a MP, os clubes classificaram a proibição como o “fim do futebol brasileiro”. Menos, senhores. O futebol brasileiro já sobreviveu a cartolas piores, gramados mais tortos e atacantes que tratavam o gol como endereço desconhecido.
O que pode acabar é um modelo de dependência construído com rapidez demais e cautela de menos. Transformar essa perda de receita no “fim do futebol” equivale a dizer que a modalidade só respira quando um aplicativo oferece cotação para o próximo escanteio. É um argumento conveniente para quem deixou a própria estrutura comercial apoiada numa única coluna. O futebol não está defendendo sua existência. Está defendendo seu maior cheque.
Também chama atenção a sintonia entre a frase nas camisas e a ofensiva institucional do setor. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável e a Associação Nacional de Jogos e Loterias lideram uma ação nas placas dos estádios com a campanha “aposto que você não sabia”, dedicada a apresentar argumentos favoráveis ao mercado regulado. Cada entidade pode sustentar sua posição. Faz parte do debate democrático. Mas, quando clubes repetem a moldura discursiva do negócio que os financiava, a fronteira entre opinião própria e publicidade fica fina como linha de impedimento traçada pelo VAR.
Dizer que “proibir não é proteger” soa bonito porque desloca a conversa. Em vez de discutir quem lucra, quanto lucra e qual é o custo coletivo, o slogan coloca o patrocinador no papel de defensor da liberdade. Chamar isso de proteção ao torcedor é como convidar o cambista para dar uma palestra sobre acesso democrático ao estádio.
Há, afinal, outro número nessa partida. O Ministério da Saúde citou estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde segundo a qual o custo social anual associado aos jogos chega a R$ 38,8 bilhões. Desse total, R$ 30,6 bilhões estariam ligados à saúde. Segundo o ministro Alexandre Padilha, os atendimentos do SUS relacionados ao jogo patológico cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025.

Esses dados não encerram sozinhos a discussão sobre a melhor política pública. Mas tornam indecente fingir que o debate se resume à liberdade de escolha e à perda de patrocínio. De um lado, há pelo menos R$ 910 milhões anuais em contratos conhecidos. Do outro, uma estimativa de custo social de R$ 38,8 bilhões. A diferença não cabe nem no mais elástico dos balanços de clube.
É legítimo criticar uma proibição total, apontar riscos ou defender um mercado regulado. Quem quiser fazer isso, que faça com argumentos, estudos e responsabilidade. O maior erro dos clubes é outro: usar a relação emocional com o torcedor como atalho para proteger uma receita privada. A camisa não é uma nota oficial de patrocinador. O escudo não pode funcionar como selo de credibilidade emprestado.
Agora a disputa seguirá longe das quatro linhas. A MP já está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado em até 120 dias para virar lei em definitivo. Paralelamente, a Associação Nacional pela Segurança Jurídica dos Jogos e Apostas ajuizou a ADI 8024 no STF, pedindo cautelarmente a suspensão integral da medida e o restabelecimento da legislação anterior.
É aí que a pressão das camisas encontra seu destino real: Congresso, Supremo, opinião pública. Bahia e Vasco são apenas os adversários da tabela. O jogo que Flamengo, São Paulo e outros clubes decidiram disputar é político — com uma diferença incômoda. A torcida não foi consultada antes de ter sua paixão escalada para o time do lobby.
A camisa pode perder a bet. Não pode perder a vergonha.
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