Contratou primeiro, conferiu depois: Seedorf expõe o desgoverno do Corinthians

Em pleno Z-4, o Corinthians contratou Seedorf até 2027 sem garantir que ele poderia trabalhar. Agora, quer que a CBF conserte o erro da diretoria.

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Carroça do Corinthians desce em direção ao Z-4 com Seedorf tentando freá-la e um cavalo chamado Homologação preso atrás.

Cerca de dez meses.

É o que separa Clarence Seedorf da experiência mínima exigida pela Conmebol para homologar sua Licença UEFA Pro. A entidade cobra 36 meses como treinador profissional; o holandês acumula aproximadamente 26, distribuídos por Milan, Shenzhen FC, Deportivo La Coruña e seleção de Camarões.

A negativa chegou à CBF na noite de 30 de outubro e foi comunicada oficialmente ao Corinthians em 2 de novembro. Eis o momento em que o caso deixa de ser uma discussão burocrática e vira retrato de gestão: o clube está no Z-4, contratou um técnico até o fim de 2027 e só depois descobriu que não havia garantido a autorização necessária para ele trabalhar.

O Corinthians contratou primeiro e conferiu o regulamento depois.

Seedorf foi anunciado em 11 de outubro para substituir Fernando Diniz e afastar o time do rebaixamento. Seu último trabalho como treinador havia terminado em 2019, em Camarões. Portanto, a duração da carreira à beira do campo não era um segredo guardado no cofre da Conmebol. Dar um contrato longo sem fechar essa conta foi como saltar do avião e começar a costurar o paraquedas durante a queda.

Dirigentes do Corinthians montam um banco sobre um alçapão enquanto ignoram um manual de requisitos de licença.

Dentro de campo, o mérito pelo que funcionou é de Seedorf; pela trapalhada documental, a culpa é exclusiva da diretoria. O holandês preparou a equipe para o empate por 1 a 1 com o Vitória, mas viu o jogo da arquibancada porque ainda não tinha visto de trabalho nem registro publicado no BID. Depois, já no banco, perdeu por 3 a 2 para o Vasco e venceu o Mirassol por 2 a 0. São quatro pontos em três partidas preparadas, com cinco gols marcados e quatro sofridos.

O problema não é esse recorte. O problema é que, após 33 rodadas, o Corinthians aparece em 17º, com 36 pontos — apenas um acima do Internacional — e risco de rebaixamento superior a 30%. Em situação assim, cada ruído vira sirene. E a diretoria resolveu acrescentar uma crise de documentação à crise esportiva, porque aparentemente uma só emoção forte não bastava.

Currículo de craque não revoga regulamento de treinador.

O Corinthians apresentaria novos documentos à CBF, pedindo que fossem considerados os três anos de Seedorf no Conselho de Supervisão da Federação Holandesa e sua atuação como professor em cursos da Uefa. São credenciais relevantes. Não são, porém, automaticamente meses comandando equipe profissional. A própria Conmebol informou que não trabalha com exceções e que a documentação já foi analisada pelas entidades sul-americana e europeia.

A CBF pode conceder uma autorização válida apenas no Brasil, como fez com Davide Ancelotti no Botafogo em 2025. Na Libertadores, porém, Cláudio Caçapa precisou assinar a súmula. O precedente existe, mas precisa ser tratado como regra pública, com fundamento objetivo e aplicação geral — não como uma janela lateral aberta porque o interessado da vez é famoso.

Se vale para Seedorf porque é Seedorf, não vale: é privilégio com chuteira.

Representante da CBF segura uma autorização enquanto dirigentes e treinadores cobram uma regra igual para todos.

O próximo capítulo será contra o São Paulo, em 4 de novembro, às 21h30, na Vila Belmiro. O Corinthians sustenta que o registro ativo de Seedorf no BID permite sua presença no banco enquanto a homologação segue em análise. Pode até estar correto nessa leitura nacional. Isso não apaga o erro original.

Na luta contra a queda, o Corinthians precisava de um comandante; produziu um processo administrativo.

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