A fratura de Arrascaeta acaba com o luxo: Paquetá agora é obrigação

Sem Arrascaeta nas semifinais, Leonardo Jardim precisa abandonar o rodízio e entregar o meio-campo do Flamengo a Paquetá — não procurar uma cópia impossível.

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Leonardo Jardim tenta copiar uma camisa de Arrascaeta enquanto Paquetá aparece como um canivete suíço ao lado de uma prancheta.

Leonardo Jardim precisa entregar agora a batuta do Flamengo a Lucas Paquetá. Não depois de três testes, duas improvisações e uma rodada de “vamos ver quem encaixa melhor”. Agora. A fratura de Arrascaeta acabou com o luxo do rodízio e transformou o reforço de R$ 315,669 milhões em obrigação esportiva.

A ironia é cruel: justamente uma lesão no punho tira de cena quem rege o time. O Flamengo informou às 12h27 de 28 de setembro que exames feitos na Coreia do Sul confirmaram a fratura no punho esquerdo de Arrascaeta, com indicação cirúrgica. O uruguaio voltará ao Brasil para nova avaliação, ainda sem prazo oficial de retorno.

O substituto de Arrascaeta não existe. O novo desenho do Flamengo, sim.

A projeção publicada pela CNN aponta afastamento de um mês e meio a três meses. Mesmo no cenário otimista, Arrascaeta está fora das semifinais contra o Estudiantes, em 15 de outubro, em La Plata, e 22 de outubro, no Maracanã. O médico Caio Senise explicou que a formação do calo ósseo costuma levar de seis a 12 semanas — apressar a volta pode significar dor, falha de consolidação ou nova fratura. Nem a Libertadores autoriza negociar com a anatomia.

O golpe fica ainda mais pesado porque Arrascaeta vinha sendo decisivo outra vez. Antes de cair sobre o braço na vitória do Uruguai por 4 a 1 sobre a Coreia do Sul, deu assistência para Darwin Núñez aos 13 minutos e marcou aos 27. Saiu aos 77. Pelo Flamengo, soma nove gols e cinco assistências em 35 partidas nesta temporada, além de participação direta em gols nas três últimas eliminatórias continentais do clube.

Leonardo Jardim gira uma roleta com nomes de jogadores diante de uma cadeira vazia de Arrascaeta, enquanto Paquetá segura um bilhete.

É aí que mora a tentação perigosa de Jardim: girar a roleta entre Paquetá, Jorge Carrascal e Samuel Lino até aparecer um “novo Arrascaeta”. Não vai aparecer. Fazer regência por sorteio seria como trocar de maestro a cada refrão e depois reclamar que a bateria entrou no samba errado.

Paquetá já foi usado como meia e segundo volante, transformado pela concorrência numa espécie de 12º jogador de luxo. Isso precisava acabar mesmo antes da lesão. Agora virou urgência. Um investimento de R$ 315,669 milhões não pode permanecer como canivete suíço caríssimo, sacado para qualquer função, mas dono de nenhuma.

Paquetá não precisa imitar o maestro; precisa assumir a batuta.

Sim, há um fantasma recente. Na volta contra o Independiente del Valle, Paquetá começou na função de Arrascaeta, jogou abaixo do esperado e foi vaiado ao sair aos 14 minutos do segundo tempo. Arrascaeta entrou e marcou, aos 38, o gol do empate por 1 a 1 que confirmou a classificação de um Flamengo com dez jogadores. A comparação, naquela noite, foi devastadora.

Mas usar uma atuação ruim como sentença definitiva seria covardia tática. Paquetá tem dez gols em 33 partidas desde o retorno e voltou a marcar na vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians. Seu meio-campo deve ser construído para potencializar condução, chegada e agressividade — não para exigir os mesmos movimentos, pausas e soluções de Arrascaeta.

Elenco caro não compra desculpa. Compra responsabilidade.

O Flamengo lidera o Brasileirão com 60 pontos, três à frente do Palmeiras, e segue invicto nesta Libertadores. Se a orquestra mais cara do país desafinar porque perdeu seu maestro, a culpa não será do punho de Arrascaeta. Será de quem teve Paquetá no palco e ainda assim preferiu deixá-lo esperando na coxia.

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