CBF culpa o passaporte pelo sumiço dos jovens — e aprova o remédio errado
CBF acerta ao reservar vagas aos sub-23, mas erra ao culpar estrangeiros: o corte por nacionalidade pode só proteger o veterano brasileiro mediano no Brasileirão.
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O passaporte perdeu por goleada.
No Rio de Janeiro, em 21 de setembro de 2026, representantes das Séries A e B aprovaram a redução gradual do limite de estrangeiros relacionados por partida no Brasileirão. O teto, hoje em nove, cairá para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030. A regra não proíbe elencos maiores; apenas obriga o treinador a deixar gente fora do jogo. Em outras palavras: cria-se um congestionamento na porta do vestiário e vende-se isso como política de formação.
Tirar um estrangeiro da súmula não coloca automaticamente um garoto no campo.
A votação produziu uma decisão correta e outra preguiçosa. Correta: reservar inscrições aos sub-23. Preguiçosa: escolher a nacionalidade como atalho para combater o envelhecimento do campeonato. O jovem brasileiro joga pouco? Sim. Mas daí a concluir que o culpado fala espanhol no café da manhã existe um salto lógico digno de atacante pedindo pênalti após tropeçar sozinho.

O diagnóstico apresentado pela própria CBF é contundente. Segundo Helder Melillo, diretor-executivo da entidade, “os jogadores sub-23 brasileiros têm jogado cada vez menos”. Até a votação, eles haviam recebido somente 11,5% dos minutos do Brasileirão de 2026. Os estrangeiros da mesma faixa etária ficaram com 2,3%. Somados, os sub-23 ocuparam 14% da minutagem, pelo arredondamento divulgado. Já os estrangeiros com mais de 23 anos chegaram a 25%.
Foi esse último número que virou holofote. Só que o verdadeiro escândalo está no primeiro.
A média de idade dos inscritos na Série A subiu de 27,3 anos, em 2020, para 28,5 em 2026. A CBF comparou o cenário aos 27 anos da Espanha, 26,4 da Inglaterra e 26 da França. O Brasileirão envelheceu não porque descobriu de repente uma paixão por passaportes alheios, mas porque seus clubes montaram uma engrenagem muito conhecida: formam, vendem cedo e depois tapam buracos com jogadores prontos — brasileiros ou estrangeiros.
Entre 2016 e 2025, os sub-23 responderam por 79% das receitas obtidas pelos clubes brasileiros com vendas de atletas. Os sub-20, sozinhos, representaram 50,1%. O garoto, portanto, continua valioso. Só não necessariamente para jogar aqui. Muitas vezes, sua principal função econômica é virar transferência antes de acumular a sequência que poderia torná-lo protagonista do campeonato.
O problema tem certidão de nascimento nos clubes, não carimbo de imigração.
A limitação por nacionalidade ignora algo elementar: um estrangeiro de 21 anos também é jovem, enquanto um brasileiro de 32 continua tendo 32. Se o objetivo é reduzir a idade média e abrir caminho para promessas, a régua precisa medir idade e utilização, não o local de nascimento. Do contrário, o corte pode apenas trocar um veterano de fora por um veterano brasileiro mediano — aquele jogador que conhece todos os atalhos do mercado, embora já não encontre tantos dentro de campo.
É por isso que a criação das listas A e B faz muito mais sentido. O total continuará em 50 inscritos, mas, em 2027, serão 30 vagas na lista A e 20 na lista B, exclusiva para sub-23. Depois, a divisão avançará para 29 e 21 em 2028, 27 e 23 em 2029, até chegar a 25 vagas para cada lista em 2030. A lista B aceitará qualquer atleta sub-23, mesmo sem formação no clube que o inscrever.
Não é uma solução perfeita. Reservar inscrição não obriga escalação, e aceitar jovens formados em qualquer lugar pode estimular uma corrida para contratar promessas prontas em vez de fortalecer a própria base. Ainda assim, essa medida mexe diretamente no desenho do elenco. Obriga o dirigente a manter espaço para juventude e torna mais caro desperdiçar vagas da lista principal com reposições burocráticas.
Reserva de vaga muda incentivo; reserva de mercado apenas muda o passaporte.
Há ainda uma ironia saborosa. A própria CBF constatou que 16 clubes da Série A e 17 da Série B já atendem às exigências das listas previstas para 2027. Ou seja, o primeiro degrau está longe de representar uma revolução. Mesmo assim, é por ali que deveria começar a cobrança: mais minutos, planejamento e transição real entre base e profissional.
O limite de estrangeiros, por sua vez, vinha no caminho oposto. Subiu de três para cinco em 2014, de cinco para sete em 2023 e de sete para nove em 2024. Em 2025, 162 estrangeiros atuaram no Brasileirão; até a votação de 2026, eram 146 utilizados, além de outros 13 aptos a estrear. Agora a porta será fechada aos poucos, sem demonstração de que quem entrará no lugar será jovem.
Flamengo e Bahia votaram contra entre os clubes da Série A; o Londrina foi o único contrário na Série B, segundo as informações divulgadas. A posição não surpreende: o Flamengo tem dez estrangeiros e já precisa excluir pelo menos um por partida, enquanto o Bahia conta com nove. Mas a objeção deles ultrapassa o interesse imediato. A regra pune projetos esportivos que buscaram talento fora sem exigir que os demais ofereçam minutos à base.
Em 2030, haverá apenas cinco estrangeiros relacionados e metade das inscrições destinada aos sub-23. Se os clubes usarem a lista B como estacionamento e seguirem escolhendo veteranos para jogar, a CBF terá cortado passaportes sem cortar o vício.
Se o garoto continuar no banco em 2030, a desculpa já estará sem passaporte.
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