Cartão sob encomenda: Renato confessou — e o STJD não pode fingir que não ouviu

Renato admitiu ter mandado dois titulares forçarem o terceiro amarelo. Não é gestão de elenco: o STJD precisa investigar a ordem e o Grêmio.

Publicado em

Renato entrega cartões amarelos a dois jogadores diante de um calendário de jogos.

O STJD precisa abrir investigação contra Renato Portaluppi e o Grêmio. A conclusão vem antes porque, desta vez, não há mistério a desvendar: há uma ordem confessada, dois cartões recebidos e um mecanismo disciplinar usado como planilha de rodízio.

Cena 1 — A sala de entrevista

O Grêmio havia acabado de vencer o Athletico-PR por 2 a 0 na Arena, em 29 de outubro, com gols de Marlon, aos 38 minutos do primeiro tempo, e Fabián Balbuena, aos sete da etapa final. Um resultado importante para quem ocupava a 15ª posição, com 37 pontos, apenas dois acima do Internacional, primeiro clube no Z-4.

Então Renato entregou o roteiro: “Hoje eu pedi para o Carlos Vinícius e o Weverton tomarem o terceiro cartão amarelo.”

Carlos Vinícius fora advertido aos 66 minutos, por discutir com a arbitragem, e substituído um minuto depois. Weverton recebeu o amarelo aos 47 do segundo tempo, por retardar o reinício. Ambos cumprirão suspensão automática contra o Flamengo.

Não foi interpretação de comentarista, teoria de rede social ou leitura labial feita por torcedor depois de três cervejas. Foi o próprio treinador contando.

Confissão pública não vira inocente só porque foi embrulhada como gestão de elenco.

Cena 2 — O calendário na parede

Renato tem razões legítimas para administrar o grupo. O Grêmio recebe o Atlético-MG em 1º de novembro, pela ida da semifinal da Copa do Brasil, enfrenta o Flamengo no Maracanã em 4 de novembro e disputa a volta contra o Galo, na Arena MRV, no dia 7. O compromisso pelo Brasileirão caiu exatamente entre as semifinais.

Além disso, o time chegou ao jogo contra o Athletico-PR com seis desfalques por lesões musculares: Pavón, Kannemann, Jovane Cabral, Juan Nardoni, Danilo Barbosa e Diego Caito. Carlos Vinícius, autor de 11 gols em 32 partidas no campeonato, e Weverton estão entre os jogadores mais utilizados do elenco na competição.

Poupar os dois contra o Flamengo seria uma escolha técnica, discutível ou não. Mandá-los fabricar a suspensão é outra coisa. Gestão física permite banco, revezamento e até um time inteiro preservado. O que não permite é transformar o árbitro em funcionário involuntário do departamento de desempenho.

Poupar titulares é estratégia. Encomendar cartões é interferência no sistema disciplinar.

Julgador tapa os ouvidos diante de um megafone e de um regulamento convertido em planilha.

Cena 3 — Uma pasta de 2018

Em 25 de março daquele ano, Renato admitiu ter mandado Kannemann provocar o terceiro amarelo na semifinal do Campeonato Gaúcho contra o Avenida. Treinador e zagueiro foram denunciados com base no artigo 258 do CBJD, então aplicado a condutas contrárias à disciplina ou à ética desportiva.

O caso terminou em transação disciplinar, sem julgamento: Renato pagou multa de R$ 6 mil; Kannemann, de R$ 3 mil. Ou seja, não se trata de um técnico entrando por acaso numa zona cinzenta. Ele já atravessou essa rua, viu a placa e recebeu a conta.

As três cenas falam da mesma coisa: vantagem competitiva obtida pela manipulação deliberada da suspensão automática. Não há, nas informações disponíveis, indício de aposta, pagamento ou benefício financeiro. Nem precisa haver para que a conduta seja investigada. O problema é disciplinar e também atinge terceiros: o Flamengo liderava o Brasileirão com 73 pontos, três à frente do Palmeiras, enquanto o próprio Grêmio lutava para não cair.

Balança mostra Flamengo, Palmeiras e Grêmio, com cartões amarelos alterando o equilíbrio.

O STJD deve apurar a ordem, a execução e a responsabilidade do clube. Tratar tudo como “malandragem” seria premiar a reincidência e ensinar aos demais treinadores que cartão amarelo pode ser solicitado como folga no RH.

Se o regulamento vira ferramenta particular de escalação, já não existe campeonato — existe agenda compartilhada.

Times citados nesta matéria

Compartilhar:WhatsAppX

Receba as próximas matérias

As melhores matérias do futebol brasileiro no seu e-mail, sem spam.

Ao assinar, você concorda em receber nossos e-mails. Pode cancelar quando quiser.