“Faria de novo”: Pedro Emanuel tratou o clássico como descartável e apostou tudo no Palmeiras
Pedro Emanuel desmontou o Vasco no 4 a 1 para o Flamengo e bancou que repetiria a escolha. Agora, sua aposta depende da semifinal contra o Palmeiras.
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Gabriel Pereira errou o tempo da bola. Lucas Freitas demorou a reagir ao rebote. Pedro não pediu licença: marcou aos 40 minutos do primeiro tempo e recolocou o Flamengo em vantagem. Naquele lance, antes mesmo de Samuel Lino transformar a derrota em goleada na etapa final, a escolha de Pedro Emanuel já estava escancarada no gramado do Nilton Santos. O treinador havia lançado uma dupla de zaga que nunca atuara junta justamente contra o líder do Brasileirão, num clássico que o Vasco não vence pela competição há 11 anos. Não foi acidente de percurso. Foi risco calculado — e pessimamente calculado.
O 4 a 1 de 29 de outubro, pela 33ª rodada, teve gols de Pedro aos 9 e aos 40 minutos do primeiro tempo, com Alan Lescano empatando provisoriamente aos 14. Samuel Lino marcou aos 7 e aos 39 da etapa final. O placar foi pesado, mas não caiu do céu. Pedro Emanuel deixou Paulo Henrique, Saldivia, Robert Renan, Santiago Sosa, Andrés Gómez e Bruno Duarte no banco; escalou Puma Rodríguez, Gabriel Pereira, Lucas Freitas, Jair, Marino Hinestroza e Brenner. Na reta final, o Vasco tinha em campo apenas três jogadores considerados titulares: Léo Jardim, Lescano e Bruno Duarte. Isso já não é rodízio. É desmontagem.
Poupar jogadores é gestão. Poupar o time de competir é rendição.
A justificativa do treinador tem lógica até certo ponto. O elenco chegou a 60 partidas na temporada, e havia apenas 72 horas até a semifinal da Copa do Brasil contra o Palmeiras. Ninguém razoável cobraria força máxima de maneira irresponsável. Preservar duas, três ou quatro peças, distribuir minutos e reduzir desgaste seria perfeitamente defensável. O problema foi Pedro Emanuel tratar gradações como frescura: ou colocava os titulares, ou praticamente guardava o Vasco inteiro numa caixa para abrir no jogo seguinte. É como salvar os talheres enquanto a cozinha pega fogo — tecnicamente, os garfos ficam intactos, mas o jantar acabou.

E havia uma tabela, essa inconveniente senhora que costuma estragar discursos bonitos. Depois da derrota, o Vasco ficou com 38 pontos, na 13ª posição, apenas três acima do Internacional, primeiro clube no Z-4, embora tivesse um jogo a menos. Portanto, não se tratava de uma equipe instalada numa zona confortável, autorizada a escolher quais partidas mereciam atenção. O clássico valia três pontos, valia confiança e valia a chance de encerrar uma sequência humilhante. O Vasco não derrota o Flamengo em nenhuma competição desde o 1 a 0 pelo Campeonato Carioca de março de 2023. Com a goleada, a invencibilidade rubro-negra no confronto chegou a 15 jogos.
Clássico não é laboratório, sobretudo quando o Z-4 está a três pontos.
Pedro Emanuel tinha o direito de priorizar a Copa do Brasil. Aliás, a semifinal é enorme. A ida contra o Palmeiras será em 1º de novembro, às 16h, no Nubank Parque; a volta, em 8 de novembro, às 17h, em São Januário. O classificado garante vaga na Libertadores de 2027. Há também uma montanha de dinheiro: o campeão receberá R$ 78 milhões pela final, e o vice ficará com R$ 34 milhões, além do que já foi acumulado. O tamanho da recompensa explica a aposta. Não absolve a forma como ela foi feita.
Porque existe uma diferença decisiva entre escolher uma prioridade e declarar a outra partida descartável. Pedro Emanuel cruzou essa linha quando montou uma defesa inédita contra um ataque que vinha de vitória por 3 a 2 sobre o Atlético-MG e, principalmente, quando manteve o processo de desidratação do time ao longo do clássico. O Flamengo não precisou adivinhar onde estavam as rachaduras; elas vieram marcadas no mapa. Pedro abriu o placar, Lescano ainda devolveu alguma dignidade ao jogo, mas o segundo gol expôs justamente a zaga improvisada. Depois, Samuel Lino fechou o serviço duas vezes.
O pior veio após o apito. Questionado sobre o rodízio, o treinador afirmou que “faria” novamente as mesmas escolhas e escalaria o mesmo time. É uma resposta de impacto, dessas que parecem transmitir convicção. Só que convicção sem autocrítica tem outro nome: teimosia. Um técnico pode defender a necessidade de poupar sem fingir que todas as escolhas foram corretas. Pode sustentar o planejamento e admitir que exagerou na dose. Ao dobrar a aposta, Pedro Emanuel amarrou sua avaliação ao resultado da semifinal.
Ao dizer que faria de novo, Pedro Emanuel não protegeu sua decisão; tornou-se refém dela.
Agora, não basta o Vasco competir bem contra o Palmeiras, sair aplaudido ou apresentar evolução. A conta criada pelo próprio treinador exige classificação. Se ela vier, o 4 a 1 será lembrado como o preço indigesto de uma aposta bem-sucedida — ainda doloroso, mas compreensível dentro da temporada. Se não vier, restará uma semana em que o Vasco entregou um clássico, ampliou um tabu, flertou com o perigo no Brasileirão e não obteve o prêmio que justificaria tamanha imprudência.
Ou elimina o Palmeiras, ou Pedro Emanuel fabricou o próprio desastre.
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