Grife não soma ponto: Tite entra em audição por 2027 no Botafogo
Quatro pontos em 15 tiraram de Tite o benefício da dúvida. O Botafogo deve congelar a renovação e usar as seis rodadas finais como audição para 2027.
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Houve um tempo no futebol brasileiro em que currículo entrava em campo de terno, sentava no banco e parecia começar a partida vencendo por 1 a 0. O sobrenome pesava mais que a tabela. A situação de Tite no Botafogo recupera um pouco desse velho hábito — com uma diferença incômoda: hoje o placar aparece no celular antes que a grife consiga pedir paciência.
Grife não soma ponto, e currículo nenhum faz cobertura pelo lado esquerdo.
A tese favorável à permanência antecipadamente assegurada tem argumentos respeitáveis. Cinco partidas são uma amostra pequena para julgar qualquer treinador. Tite fala em reestruturação, admite que a equipe esteve abaixo tática, física e tecnicamente contra o Internacional e lembra, com razão, que “você não estala os dedos em um campeonato difícil como esse”. Uma comissão precisa de treino, repetição e tempo para corrigir vícios. Transformar cada tropeço em sentença definitiva é uma especialidade pouco saudável do nosso futebol.
Tudo certo. Só que paciência não pode ser cheque em branco.

Tite conquistou quatro pontos de 15 possíveis. Foram uma vitória, um empate e três derrotas, com três gols marcados e oito sofridos. A sequência começou com 2 a 0 para o Mirassol, passou pelo 2 a 1 diante do Vasco, pelo 1 a 1 com o Coritiba, pela vitória por 1 a 0 sobre a Chapecoense e terminou — até aqui — no 3 a 0 sofrido no Beira-Rio.
E nem o único triunfo oferece muito abrigo. Contra a lanterna Chapecoense, em 17 de outubro, Tiquinho Soares marcou, o Botafogo recuou imediatamente e acabou vivendo de contra-ataques e lançamentos. Foi uma vitória com a tranquilidade de quem carrega uma bandeja de café numa Kombi sem amortecedor.
O desastre diante do Internacional pesou ainda mais porque o adversário chegara com apenas duas vitórias nos 15 jogos anteriores do Brasileirão e 24% de aproveitamento. Aos 31 minutos do primeiro tempo, Matheus Bahia abriu o placar. Juninho ampliou aos 41, e Bernabei fechou a conta aos 20 da etapa final. O Botafogo saiu em 11º, com 39 pontos; o Inter chegou a 35 e deixou provisoriamente a zona de rebaixamento.
Cinco jogos não bastam para condenar Tite; bastam para retirar dele o benefício da dúvida.
Há também decisões que pertencem ao treinador, não ao calendário. Marçal, lateral-esquerdo de origem, foi zagueiro ao lado de Ferraresi pela terceira partida consecutiva. Na avaliação do ge, falhou nos gols de Matheus Bahia e Bernabei e recebeu nota 4,0. Enquanto isso, Justino, com 23 partidas na temporada — 18 como titular —, não ganhou um minuto nos cinco primeiros compromissos da nova comissão. Tite recebeu 3,0, com a cobrança de ter demorado a reforçar o meio-campo na pior atuação desde sua chegada.
Depois da goleada, o técnico afirmou: “Temos que nos tornar uma equipe mais competitiva”. Exato. A questão é que essa frase precisa deixar a entrevista coletiva e aparecer no gramado.
Renovação não pode ser prêmio por reputação; deve ser consequência de trabalho reconhecível.
As seis rodadas finais não são uma pré-temporada garantida para 2027. São uma audição. O primeiro teste será contra o Remo, em 28 de outubro, em Belém, sem Álvaro Montoro, suspenso pelo terceiro amarelo. O clube paraense iniciou a rodada em 19º, com 26 pontos — cenário perfeito para descobrir se o Botafogo finalmente impõe sua camisa ou volta a oferecer oxigênio a quem chega sufocado.

A diretoria deve congelar qualquer renovação automática agora. Tite pode conquistar 2027, mas terá de fazê-lo no campo. Em Belém, o cronômetro não estará contando os dias da reestruturação; estará descontando o crédito da grife.
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