Leila não é a prova: Lamacchia obriga a CBF a frear a venda do Vasco
Não há prova de que Leila negociou o Vasco. O alerta está em José Lamacchia, ex-controlador, avalista e conselheiro do Palmeiras. A ANRESF deve agir já.
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Você já ouviu o nome de Leila Pereira dominar a discussão — e é justamente aí que convém tirar o pé do sensacionalismo. Os documentos mostram que ela teve participação indireta e minoritária na empresa que nasceu como Top Gol. Não mostram que tenha negociado a compra do Vasco. Ponto.
Leila está no enredo societário, mas não está provada na mesa de negociação.
A lente correta deve mirar José Roberto Lamacchia. Quando a Top Gol foi criada, em março de 2024, Ravena Participações e Siena Participações apareciam como acionistas. Ambas eram controladas pela Crefipar Participações, da qual Lamacchia possuía 98% e Leila, 2%. Ela deixou essa estrutura em abril, pouco mais de um mês depois e antes do avanço documentado das conversas com o Vasco.
Lamacchia, porém, permaneceu no controle da Top Gol até agosto de 2025, quando 99% da empresa passaram para o filho, Marcos Faria Lamacchia. Em setembro, a Top Gol virou Almirante Participações. A empresa afirma que a transferência ocorreu quando a compra do Vasco começou a ser considerada e que todos os documentos da operação foram assinados já sob o controle de Marcos.
Só que há um elefante de chuteiras nessa sala.
Em carta enviada ao Vasco em julho de 2026 e anexada à recuperação judicial, Marcos afirmou que a companhia negociava com o clube “há mais de dois anos”. Pela própria cronologia apresentada, as conversas começaram quando José Roberto Lamacchia ainda controlava a empresa. Isso não prova fraude, propriedade oculta nem participação de Leila. Prova, no mínimo, que a ANRESF tem uma pergunta séria para responder antes de a caneta trocar o dono da SAF.
José Lamacchia não é apenas o ex-controlador. Ele é avalista da operação, marido da presidente do Palmeiras, sócio vitalício e integrante do quadro de conselheiros do clube. O regulamento da CBF proíbe que um mesmo proprietário controle ou exerça influência significativa sobre dois participantes da mesma competição nacional. Ignorar esses vínculos seria como escalar um bandeirinha de olhos vendados e elogiar sua imparcialidade.

O leilão judicial de 25 de setembro receberá propostas fechadas por 90% da nova SAF. A Almirante será o stalking horse, com direito a cobrir eventual oferta superior, e sua proposta de referência prevê investimento mínimo de R$ 650 milhões em cinco anos. A oferta vencedora ainda terá de passar pelos conselhos vascaínos — portanto, existe espaço institucional para impedir que a transferência seja concluída antes da decisão sobre o conflito.
A urgência não é imaginária. A Crefisa emprestou R$ 80 milhões ao Vasco em outubro de 2025, inicialmente com 20% das ações da SAF em garantia, depois reduzidos a 10%. A Justiça também autorizou financiamento de até R$ 150 milhões com a Almirante. A ANRESF já abriu procedimento e proibiu cautelarmente novos empréstimos da Crefisa, além de relações comerciais entre Vasco e Palmeiras enquanto analisa o caso.
Investigar depois da venda não é fiscalização; é arqueologia.
E o futebol ainda caprichou na ironia: Vasco e Palmeiras estão classificados para se enfrentar na semifinal da Copa do Brasil, com datas-base de 1º e 8 de novembro. Não se trata de presumir interferência esportiva. Trata-se de proteger a credibilidade antes que qualquer dúvida entre em campo junto com os times.
A ANRESF não precisa condenar Leila sem prova. Precisa olhar para Lamacchia, decidir sobre influência significativa e frear a conclusão da transferência até lá.
Fair play que chega depois do novo dono é VAR chamado quando o estádio já esvaziou.
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