O protocolo antirracista não pode virar rodapé da súmula de Avaí x Ceará
Sem antecipar culpa, a CBF deve explicar se houve paralisação e anúncio após a denúncia de Wallison. Protocolo obrigatório não pode ser peça decorativa.
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Três a zero. Parece placar de jogo resolvido, mas é uma conta bem mais incômoda: três etapas previstas no protocolo antirracista da CBF e zero explicação pública, nos relatos disponíveis, sobre quais delas foram cumpridas na Ressacada.
O Avaí perdeu por 1 a 0 para o Ceará, em 3 de outubro, pela 31ª rodada da Série B. Aos 37 minutos do segundo tempo, segundo o relato da súmula reproduzido pelo ge, Wallison procurou a arbitragem e acusou Matheus Araújo de ter dito: “Tomar no c*, macaco”. O árbitro Alex Gomes Stefano e sua equipe registraram que não presenciaram a suposta ofensa; nenhum outro jogador declarou tê-la ouvido.
Investigar a acusação é uma obrigação. Explicar o protocolo é outra — e nenhuma anula a outra.
Matheus Araújo negou ter usado expressão racista, repudiou o racismo e colocou-se à disposição da apuração. O Ceará afirmou confiar na versão de seu jogador e destacou justamente a ausência de confirmação por árbitros e atletas. É legítimo que se defenda. Também é indispensável que não seja condenado antes da investigação.
Wallison fez o que lhe cabia: procurou a arbitragem e denunciou a suposta ofensa. A responsabilidade pelo vazio de informação é da CBF. Não se exige tribunal improvisado nem sentença de arquibancada, mas uma resposta administrativa: depois que o jogador procurou o árbitro, a partida foi paralisada? Houve o anúncio no estádio previsto na primeira etapa? Que providências formais foram adotadas?
O Avaí afirma que o jogador acionou imediatamente o protocolo e informa que reunirá dados para auxiliar as autoridades. Já o trecho conhecido da súmula não esclarece se houve paralisação ou anúncio. Isso não prova que o procedimento foi ignorado. Prova, sim, que falta transparência para saber o que aconteceu.
Sem transparência, protocolo obrigatório vira cenografia institucional.
O mecanismo adotado pela CBF permite que jogadores, árbitros ou oficiais denunciem um ato racista cruzando os braços em X. Na primeira etapa, o jogo deve ser interrompido e um anúncio feito no estádio. Se os atos continuarem, as equipes podem ser levadas aos vestiários. Persistindo o problema, a partida pode ser encerrada.

Não é enfeite regulamentar. Um protocolo de emergência mantido na caixa, bonito e intocável, tem a utilidade de um extintor apresentado pelo cartola enquanto a cortina pega fogo. Pode render fotografia institucional; para quem fez a denúncia, não apaga nem fósforo.
A falta de testemunhas certamente pode pesar na apuração. Prova importa, contraditório importa, cautela importa. Mas o protocolo existe justamente para acolher a denúncia em tempo real, antes que câmeras, áudios e depoimentos sejam examinados. Se ele só funciona quando o racismo já vem acompanhado de replay em câmera lenta e confissão assinada, então não é protocolo: é burocracia esperando o trabalho ficar fácil.
A ausência de testemunhas pode dificultar a prova; não pode desligar o alarme.
Wallison publicou sua manifestação em 5 de outubro e terminou com uma frase que não permite conforto: “Racismo é crime. Ficar em silêncio também é. E eu não vou ficar quieto.” Até a reportagem publicada naquele dia, ele ainda não havia registrado boletim de ocorrência. Isso integra a apuração, mas não responde ao que ocorreu dentro do estádio.
O Manual de Competições de 2026 incorporou adequações ao protocolo antirracista e às disposições da Fifa sobre atos discriminatórios. Norma, portanto, existe. Agora a CBF precisa dizer se ela saiu do papel.
Porque um alarme que toca sem mobilizar ninguém não protege o futebol. Só faz barulho para a instituição fingir que ouviu.
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