R$ 110 milhões não são alívio: o São Paulo precisa comprar transparência

Crédito da Ticketmaster quita urgências, mas cobra o futuro: Harry Massis deve blindar a auditoria e explicar o destino de cada real dos R$ 110 milhões.

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Dirigente troca um calendário de cinco anos por uma mala de crédito em uma catraca do Morumbis, ao lado de boletos e uma pasta de auditoria.

“Agora eu preciso que vocês ajudem a fazer o presidente do Conselho Deliberativo colocar na pauta para ser votado.” A voz de Harry Massis, no áudio obtido pelo Estadão e reproduzido pela CNN Brasil, não deixa espaço para rodeios. O presidente precisava da votação. Conseguiu.

Em 30 de setembro, o Conselho Deliberativo aprovou o contrato com a Ticketmaster por 184 votos favoráveis, 44 contrários e uma abstenção. Massis venceu a batalha política. Agora começa a parte que não cabe em contagem de votos: explicar o dinheiro.

Porque os anunciados R$ 140 milhões não são todos da mesma natureza. R$ 30 milhões correspondem ao pagamento pela exploração do camarote 29A do Morumbis durante cinco anos. Os outros R$ 110 milhões são crédito antecipado pela Ticketmaster, a ser devolvido pelo São Paulo no mesmo período, com correção pelo CDI mais 1,99%.

Não é detalhe contábil. É a diferença entre faturar e tomar dinheiro emprestado.

Crédito compra tempo. Transparência compra confiança.

Massis não pode apresentar a operação como um troféu administrativo. Tratar empréstimo como conquista é fazer volta olímpica depois de ganhar um lateral no meio-campo: rende barulho, mas o placar continua exatamente onde estava.

O São Paulo espera receber os recursos em até 45 dias após a assinatura definitiva. Há urgência real. Parte do dinheiro deverá ser usada para pagar direitos de imagem do elenco, e havia jogadores com valores em aberto havia mais de quatro meses quando o acordo foi aprovado. Isso precisa ser resolvido — sem malabarismo retórico e sem medalha no peito.

Quitar o elenco é obrigação, não legado.

O jogador pode até entrar em campo, competir e vencer. O São Paulo vinha de um 1 a 0 sobre o Internacional quando o Conselho aprovou o contrato. Mas quem administra um clube desse tamanho não pode depender indefinidamente da tolerância do vestiário. Pendência com atleta corrói confiança, alimenta ruído e transforma qualquer sequência ruim em barril de pólvora.

A pressa, portanto, tem explicação. O que ela não oferece é salvo-conduto.

Entre maio e agosto de 2026, o clube já havia aprovado mais de R$ 45 milhões em novas operações de crédito e renovado uma Conta Garantida de R$ 5 milhões. Os R$ 110 milhões da Ticketmaster não aparecem num deserto financeiro; chegam depois de outras idas ao mercado. Quando o caixa precisa ser socorrido em sequência, a pergunta não é apenas “quanto entrou?”. É “qual receita futura pagará a conta e o que deixará de ser feito por causa disso?”.

Esse plano deve ser publicado por Harry Massis antes do primeiro desembolso. Não uma apresentação de PowerPoint cheia de setas otimistas e verbos no futuro. O São Paulo precisa divulgar uma destinação vinculante: quanto irá para os direitos de imagem, quanto cobrirá outras obrigações vencidas, quanto ficará reservado e qual será o cronograma de devolução do crédito.

E há uma rubrica que não pode desaparecer no caminho: a auditoria dos contratos ligados à gestão do futebol.

José Rubens de Macedo Soares Sobrinho, novo relator da Comissão de Ética, pediu à presidência a contratação dessa auditoria no processo relacionado à representação contra o ex-diretor de futebol Carlos Belmonte Sobrinho. A origem da apuração é pesada: em 2025, as despesas do futebol profissional superaram em aproximadamente R$ 91,19 milhões o limite orçamentário aprovado para o departamento.

A audiência foi suspensa até a entrega da auditoria. O relator ainda advertiu que uma nova negativa da presidência em contratar o serviço poderá levar ao arquivamento da representação. Traduzindo do idioma burocrático para o português da arquibancada: sem dinheiro para investigar, o caso corre o risco de morrer antes de ser esclarecido.

Cortina de dinheiro esconde uma cratera orçamentária enquanto um auditor com lupa é barrado por um cofrinho vazio.

É aqui que Massis precisa escolher que presidente pretende ser. O dirigente que mobilizou apoio para colocar o contrato em votação deve demonstrar a mesma energia para abrir as contas. Separar imediatamente os recursos da auditoria, definir escopo independente, prazo e acesso aos documentos não é hostilidade contra ninguém. É proteção institucional.

Sem auditoria, o dinheiro novo só troca a data do velho problema.

Também seria irresponsável transformar as fragilidades do processo da Ticketmaster em prova automática de favorecimento. A comissão especial que examinou a escolha afirmou não ter encontrado evidências de direcionamento, embora tenha registrado inconsistências na condução. A mesma comissão disse que não houve comprovação de que os cerca de R$ 500 milhões alegados pela concorrente NewC formassem uma oferta líquida e imediatamente disponível. A crítica séria não precisa inventar escândalo; os fatos já exigem explicações suficientes.

Até a multa rescisória, reduzida de R$ 25 milhões para R$ 14 milhões durante a deliberação, mostra que o contrato pôde ser discutido e alterado. Pois a governança do dinheiro também pode — e deve — ser condicionada.

Massis conseguiu os votos. Conseguiu o crédito. O que ainda não conseguiu foi o direito de chamar dívida de alívio.

Se a lupa ficar do lado de fora, os R$ 110 milhões não salvarão a gestão: apenas comprarão uma cortina mais cara.

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