Renato voltou para unir o Grêmio — e começou a desmontá-lo no microfone

Sem vencer em três jogos e com o Grêmio no Z-4, Renato expôs o elenco após o Gre-Nal. Não foi franqueza: foi abdicação de comando na hora decisiva.

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Renato quebra com um microfone uma parede escrita confiança, enquanto jogadores do Grêmio tentam segurá-la.

Se o treinador já diz em público que não consegue fazer o jogador render mais, por que ele ainda é o treinador?

A pergunta é incômoda porque corta a névoa da idolatria. E porque, no Grêmio de agora, não há tempo para transformar entrevista coletiva em sessão de desabafo.

A bola que saiu torta

Primeira cena. Aos 32 minutos do primeiro tempo do Gre-Nal de 11 de outubro, o Grêmio falha na saída de bola e Vitinho abre o placar para o Internacional. Um erro técnico, desses que parecem ainda maiores quando o time está atolado na parte de baixo da tabela.

A reação só aparece aos 27 da etapa final. Após rebote do goleiro Anthoni, Wallace empata. O 1 a 1 evita a derrota na Arena, mas oferece pouco além disso: o Grêmio encerra o domingo em 18º lugar, com 31 pontos em 30 jogos. O Inter fica em 17º, com 32, mesma pontuação do Corinthians, o 16º.

Clássico empata o placar; não empata responsabilidades.

A sequência gremista chega a seis partidas sem vitória. E o cálculo do Departamento de Matemática da UFMG, divulgado pela GZH no dia seguinte, desmonta qualquer tentativa de vender o empate como alívio: o risco de rebaixamento cai de 64,4% para 63,8%. Se isso é respirar, o Grêmio está usando canudinho.

O microfone

Segunda cena. Depois do clássico, Renato Portaluppi fala sobre as limitações do elenco. Até aí, nenhuma novidade revolucionária. O torcedor conhece as deficiências do grupo; não precisava de uma perícia forense para descobri-las.

O problema foi a escolha das palavras — e, sobretudo, de quem deveria ouvi-las.

“Aí eu não vou fazer o cara jogar mais, não vou mesmo”, declarou Renato. Depois, empurrou a cobrança para a montagem do elenco: “Vai cobrar de quem trouxe”. Ao departamento de futebol, recomendou “buscar o cara certo”.

Isso não foi sinceridade corajosa. Foi abdicação de comando.

Treinador não tem obrigação de transformar jogador limitado em craque. Tem, porém, a obrigação de extrair o máximo possível do elenco que aceitou dirigir — ainda mais quando chegou para uma missão emergencial. Se o diagnóstico interno é duro, que seja tratado internamente. Quando o comandante anuncia no microfone que o barco tem marinheiros incapazes e aponta para quem os contratou, sobra aos jogadores tirar água com balde e fingir que não escutaram.

Franqueza sem liderança é apenas desistência com microfone.

Renato e dirigentes trocam acusações em um barco furado enquanto jogadores retiram água com baldes.

O presidente Odorico Roman respondeu que as declarações representam a opinião do treinador e ressaltou que parte dos estrangeiros criticados chegou antes da atual gestão. Pronto: em vez de uma instituição falando a mesma língua, formou-se o velho campeonato de empurra-empurra. Renato aponta para a direção; a direção devolve a autoria do discurso; e o Z-4 assiste de camarote, provavelmente pedindo mais uma rodada.

O pedestal

Terceira cena. Renato foi anunciado em 14 de setembro, com contrato até dezembro, para sua quinta passagem como treinador do Grêmio. Voltou porque conhece o clube, entende o peso da camisa e carrega um patrimônio afetivo que nenhum outro técnico disponível poderia apresentar.

Mas patrimônio afetivo não aparece na classificação.

Nos três jogos em que efetivamente comandou a equipe desde o retorno, o Grêmio empatou por 0 a 0 com o Palmeiras, por 1 a 1 com o Remo e por 1 a 1 com o Internacional. São três pontos em nove possíveis, aproveitamento de 33,3% e nenhuma vitória.

Estátua de Renato esconde um placar de desempenho enquanto dirigentes observam um buraco marcado como Z-4.

No Grêmio, o ídolo não pode ser maior do que a urgência.

O próximo compromisso será contra o Cruzeiro, em 18 de outubro, às 16h, na Arena. Depois dele, restarão apenas sete rodadas. Wallace, autor do gol no clássico, não estará em campo: passará por cirurgia para corrigir uma fratura no nariz e também cumprirá suspensão pelo terceiro cartão amarelo.

Há uma ironia quase pronta demais. Renato admitiu ter pedido ao zagueiro que provocasse o amarelo após o apito final, já que ele precisaria realizar a cirurgia. Para administrar cartão, houve orientação direta. Para administrar a confiança do elenco, apareceu o megafone.

Agora as três cenas se encontram. A falha na saída de bola, a coletiva que distribui culpas e o pedestal erguido em torno do maior ídolo recente do clube falam da mesma coisa: comando. Ou da falta dele.

A direção precisa exigir alinhamento imediato. Renato pode cobrar reforços, contestar escolhas e apontar carências — mas não pode usar a entrevista para se separar do próprio grupo. Foi contratado para liderar uma reação, não para produzir álibis antes que a queda se confirme.

E o julgamento deve ser feito por pontos, desempenho e capacidade de reconstruir confiança. Não pelo tamanho da história, pela força da memória ou pelo receio de contrariar uma lenda.

O Z-4 não se comove com estátua.

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