Renato voltou porque o Grêmio nunca aprendeu a viver sem Renato
Demitir Luís Castro era inevitável. Buscar Renato pela quinta vez, três dias após bancar o português, revela um Grêmio sem plano — e com o mesmo extintor.
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O extintor saiu da parede.
Primeira cena: a bola. O Grêmio abriu o placar contra o Vasco com Villasanti, aos 39 minutos, e entrou no segundo tempo carregando uma vantagem que parecia frágil demais para ser abraçada. Aos 30, Thiago Mendes empatou. Aos 34, Juan Nardoni perdeu a bola na saída, Bruno Duarte tabelou e Colidio virou. A Arena assistiu ao velho roteiro: controle aparente, erro evitável, desmoronamento.
Depois da 27ª rodada, eram 28 pontos, os mesmos de Vasco e Internacional, apenas sete vitórias no Brasileirão e 35% de aproveitamento. Nesse cenário, demitir Luís Castro não era impulso. Era obrigação.
O português saiu com 47% no geral, um Campeonato Gaúcho e a eliminação do Internacional que levou o time à semifinal da Copa do Brasil. Méritos reais. Salvo-conduto, não. O Brasileiro havia transformado qualquer paciência em flerte com o desastre.
Luís Castro caiu pelos resultados; a direção caiu pela própria palavra.
Segunda cena: o microfone. Em 10 de setembro, o CEO Alex Leitão foi cristalino: “Sim, claro (fica até o fim do ano), o Luís Castro é nosso treinador e tem a confiança da diretoria.” Três dias depois, Castro estava demitido. A saída já havia sido encaminhada na Arena, na noite da derrota para o Vasco, embora o anúncio tenha demorado quase 20 horas.

A confiança pública durou menos que cafezinho em concentração. Pior: o contrato ia até dezembro de 2027, e o Grêmio terá de pagar os 17 meses restantes, com juros e multa ao longo do tempo. A comissão custava aproximadamente R$ 1,9 milhão por mês. Não foi apenas uma troca de treinador; foi uma confissão cara de que o planejamento nasceu com prazo de validade escondido.
A bússola tricolor girou como ventilador de boteco: fez barulho, espalhou papel e não apontou saída nenhuma.
Terceira cena: a notificação. Antes do anúncio oficial, o perfil de Renato Portaluppi publicou “Oi torcida gremista! Estou muito feliz com a minha volta” — e apagou. O dedo foi mais rápido que o protocolo, talvez porque todos já conhecessem o final.
Renato acertou até dezembro de 2026. Será a quinta passagem como treinador, depois de 552 partidas nas quatro anteriores. Estava sem clube desde que deixou o Vasco, em julho. O Grêmio pretendia pagar a ele menos da metade do valor destinado a Castro, com bônus por metas.

Até Felipão entrou no improviso: anunciado inicialmente como interino para enfrentar o Botafogo, em 16 de setembro, no Rio, pode nem dirigir a equipe, porque Renato tem chance de estrear. A definição ficou para esta segunda-feira. Projeto sólido costuma apresentar etapas. Este apresentou versões.
A quinta volta não é continuidade. É dependência.
A bola perdida, a promessa rasgada e a mensagem apagada pareciam cenas diferentes. Não eram. Todas mostram um clube reagindo ao minuto anterior, sem conseguir enxergar o seguinte.
Renato pode salvar a temporada. Conhece o ambiente, domina o peso da camisa e sabe transformar urgência em combustível. Chamá-lo, porém, não prova convicção da direção. Prova ausência dela. O maior erro seria vender a volta como “novo projeto”, quando ela tem a inequívoca forma do velho extintor pendurado na Arena.
Enquanto Renato apaga o fogo, quem brinca com fósforo continua na sala.
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