Santos recusou R$ 25 milhões e agora aceita R$ 9,3 milhões líquidos iniciais por Chermont

Negócio com o Sharjah deixa só R$ 9,3 milhões líquidos ao Santos — menos que um mês de direitos de imagem. Conselho deve abrir o contrato e cobrar Marcelo Teixeira.

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Marcelo Teixeira troca uma pérola de JP Chermont por R$ 9,3 milhões diante de uma mala do Ajax e uma conta de direitos de imagem.

Você já ouviu a defesa antes mesmo de a diretoria apresentá-la: o caixa está apertado, o jogador não se valorizou como o esperado, havia uma proposta concreta e o clube precisava agir. Certo. Agora olhe outra vez para os números — sem o filtro da urgência, sem a fumaça das metas e sem transformar porcentagem futura em dinheiro que já entrou.

O Santos recusou cerca de R$ 25 milhões por JP Chermont em janeiro. Pediu aproximadamente R$ 37 milhões. Oito meses depois, encaminhou uma operação que deixará inicialmente R$ 9,3 milhões líquidos no caixa.

Isso não é apenas uma venda abaixo da expectativa. É uma liquidação.

Urgência de caixa explica uma venda; não absolve uma liquidação.

Vamos fazer o favor de defender a diretoria

Há, sim, um argumento razoável do outro lado. Chermont tem 20 anos, mas ainda não se transformou naquele lateral capaz de obrigar o mercado a bater à porta toda semana. Emprestado ao Coritiba, disputou 17 partidas no Brasileirão de 2026, começou 11 como titular, acumulou aproximadamente 1.044 minutos e deu duas assistências — ambas na vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians, em 23 de agosto.

Não foi uma temporada irrelevante. Também não foi uma explosão de valor.

Seu contrato com o Santos terminaria em 31 de dezembro de 2027. Portanto, a margem para esperar indefinidamente não existia. Quanto mais o vínculo se aproximasse do fim, menor seria o poder de negociação do clube. Do ponto de vista puramente comercial, aceitar dinheiro à vista e manter uma fatia de 20% dos direitos econômicos pode ser apresentado como uma forma de reduzir o risco sem abandonar completamente uma valorização futura.

Há ainda US$ 1 milhão, aproximadamente R$ 5,1 milhões, previsto em metas. Se Chermont evoluir nos Emirados Árabes Unidos e for negociado novamente, o Santos afirma ter preservado uma porta para lucrar.

É a melhor defesa possível. E merece ser levada a sério.

Também não sabemos, apenas pelos valores divulgados, se a oferta do Ajax tinha o mesmo cronograma de pagamento, as mesmas condições ou exigências semelhantes. Comparar propostas de mercados e momentos diferentes exige mais do que converter euro em real numa calculadora. Futebol não é supermercado, embora certas diretorias tratem promessa como produto perto da validade: baixam a etiqueta, empurram o carrinho e torcem para ninguém perguntar o preço anterior.

Até aqui, a explicação poderia sobreviver.

Só que os próprios números do Santos a desmontam.

A conta que estraga o discurso

Em janeiro de 2026, o Ajax ofereceu € 4 milhões por Chermont, então avaliados em aproximadamente R$ 25 milhões. O Santos recusou e estabeleceu uma pedida de € 6 milhões, cerca de R$ 37 milhões.

Recusar R$ 25 milhões não foi, portanto, um gesto de quem pretendia negociar por algo próximo daquele patamar. A diretoria comunicou ao mercado que enxergava um ativo de R$ 37 milhões. Essa avaliação pode ter se mostrado otimista? Evidente. O futebol coleciona projeções que envelhecem pior do que contratação anunciada por vídeo de aeroporto. Mas uma coisa é recalibrar o preço. Outra é despencar de R$ 37 milhões pedidos para R$ 9,3 milhões líquidos garantidos sem uma explicação pública convincente.

O valor fixo acertado com o Sharjah é de US$ 2,5 milhões à vista, aproximadamente R$ 12,9 milhões. O Coritiba receberá cerca de R$ 1,2 milhão, equivalente a 10% da parcela fixa, como taxa de vitrine pela interrupção do empréstimo. Chermont, que possuía 20% no negócio, abriu mão de cinco pontos percentuais. Depois da composição, restam aproximadamente R$ 9,3 milhões líquidos ao Santos nessa parcela inicial.

Balde furado do Santos recebe R$ 12,9 milhões e retém R$ 9,3 milhões enquanto conselheiros analisam um contrato.

Mesmo se todo o bônus de US$ 1 milhão for atingido, fixo e metas somariam cerca de R$ 18 milhões em valores brutos. Ainda seria menos do que os aproximadamente R$ 25 milhões recusados em janeiro. E bônus, convém lembrar, não paga conta antes de ser cumprido. Meta contratual não é dinheiro; é uma promessa usando gravata.

Os 20% mantidos pelo Santos também têm valor, claro. Mas participação futura não pode servir como tinta corretiva para esconder o tamanho do desconto presente. Ela poderá render muito, pouco ou nada, dependendo de uma transferência posterior. O dinheiro certo, agora, é outro.

O problema não é Chermont sair. É o Santos ter mudado de convicção sem prestar contas.

O lateral chegou ao profissional em 2024 e soma 50 partidas, dois gols e cinco assistências pelo clube. Pode virar um grande jogador? Pode. Pode não virar? Também. A discussão central não exige prever sua carreira. O que precisa ser julgado é a gestão do ativo com as informações disponíveis em cada momento.

Se R$ 25 milhões eram insuficientes em janeiro, por que R$ 9,3 milhões líquidos se tornaram aceitáveis em setembro? O desempenho pelo Coritiba, sozinho, justifica tamanha redução? Quais metas liberam os US$ 1 milhão adicionais? Como estão redigidos os 20% preservados? Há outras despesas, comissões ou condicionantes?

Essas perguntas não são intriga política. São governança básica.

Quando a base vira capital de giro

A resposta mais desconfortável aparece no balancete. Até junho, o Santos gastava R$ 15,1 milhões por mês com direitos de imagem. Esse valor ainda não incluía os vencimentos dos reforços Rodinei, Lima, Arthur, Everton Cebolinha e Philippe Coutinho. Quando a negociação de Chermont foi encaminhada, o elenco profissional acumulava dois meses de direitos de imagem atrasados.

Em outras palavras: os R$ 9,3 milhões líquidos iniciais não cobrem sequer um mês daquela despesa mensal registrada antes da inclusão desses reforços.

É por isso que a operação tem cheiro de patrimônio esportivo transformado em capital de giro. O clube não está apenas escolhendo vender um lateral. Está cortando uma árvore do viveiro para alimentar a caldeira das despesas correntes. Resolve o calor de hoje e reduz a sombra de amanhã.

Árvore de JP Chermont é cortada para alimentar uma caldeira de despesas enquanto conselheiros protegem o viveiro.

Há momentos em que isso se torna inevitável. Clubes endividados fazem escolhas ruins porque, às vezes, todas as opções disponíveis são ruins. Mas justamente nesses momentos a transparência precisa aumentar. A urgência não pode virar salvo-conduto, muito menos método permanente de gestão.

A base não pode funcionar como cheque especial de dirigente.

Conselheiros pretendem cobrar explicações do presidente Marcelo Teixeira e solicitar uma cópia do contrato. Devem fazer isso imediatamente. Até 25 de setembro, a transferência ainda aguardava pendências burocráticas para ser anunciada, embora Chermont já estivesse nos Emirados Árabes Unidos. O Conselho Deliberativo precisa abrir a operação, examinar o fluxo dos pagamentos, as metas, as deduções e a cláusula referente aos 20% mantidos pelo clube.

Não para produzir espetáculo de reunião, discursos inflamados ou disputa de vaidades. Para estabelecer responsabilidade. Marcelo Teixeira precisa explicar por que rejeitou aproximadamente R$ 25 milhões, pediu R$ 37 milhões e aceitou, oito meses depois, uma estrutura com apenas R$ 9,3 milhões líquidos garantidos de início.

Se a justificativa for o caixa, o caso fica ainda mais grave, não menos. Vender barato porque falta dinheiro é compreensível uma vez; transformar essa necessidade em política é a receita clássica para continuar sem dinheiro e, em breve, também sem jogador para vender.

O Santos formou Chermont, deu-lhe espaço no profissional e manteve contrato até o fim de 2027. Tinha um ativo, uma oferta recusada e tempo suficiente para não chegar à bacia das almas. Se ainda assim chegou, alguém precisa assumir a conta da escolha.

Porque patrimônio queimado não volta quando o boleto seguinte vencer.

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