Em Quito, o Mirassol precisa deixar de ser conto de fadas e virar casca-grossa
Após o 1 a 1 no Maião, o Mirassol encara a LDU e a altitude de Quito no maior teste de um projeto que já não pode ser tratado como conto de fadas.
20 de agosto de 2026

O empate no Maião deixou a eliminatória aberta. A goleada sofrida três dias depois tratou de escancarar todo o resto.
O Mirassol chega ao jogo de volta contra a LDU carregando bem mais do que o 1 a 1 da ida. Leva na bagagem uma sequência de cinco partidas sem vitória, a eliminação diante do Grêmio na Copa do Brasil, derrotas para Cruzeiro e Flamengo no Brasileirão e, sobretudo, uma defesa que perdeu o direito de se distrair.
Há semanas em que o calendário testa o elenco. Esta está interrogando o projeto inteiro.
Quito não quer saber de conto de fadas. Quito cobra pulmão, cabeça fria e bola bem tratada.
A trajetória do Mirassol é extraordinária, claro. O clube que escalou divisões, ganhou respeito e chegou à Libertadores contrariando a lógica financeira do futebol brasileiro merece todos os elogios. Só que essa história já foi contada — e muito bem contada. Agora vem a parte menos romântica: sobreviver quando o adversário é cascudo, o estádio aperta e o oxigênio parece sair de campo antes dos jogadores.
É aí que Rafael Guanaes precisa mostrar a versão mais madura de seu trabalho.
O recado dos cinco gols
Perder para o Flamengo não é escândalo. Perder por 5 a 1, em casa, logo depois de um duelo tão exigente pela Libertadores, é um alerta tocando no volume de trio elétrico.
O problema não está apenas no placar. Está na facilidade com que o Mirassol tem permitido ao adversário entrar em zonas perigosas. Antes da goleada, já havia perdido por 3 a 1 para o Cruzeiro. Na Copa do Brasil, o empate por 1 a 1 no Maião e a derrota por 1 a 0 para o Grêmio custaram a classificação. A equipe compete, organiza bons momentos, encontra caminhos com a bola — e depois oferece espaços como quem distribui panfleto na porta do estádio.
Em Quito, isso seria fatal.

A LDU não precisa transformar a partida em um bombardeio desde o primeiro minuto. Basta acelerar nos momentos certos, empurrar o Mirassol para trás e fazê-lo correr de maneira inútil. Na altitude, corrida desperdiçada vira dívida. E os juros chegam cedo.
Por isso, a pior escolha seria tentar provar coragem por meio de uma pressão desordenada. Não há medalha para quem marca alto durante 15 minutos e passa os 75 seguintes procurando um cilindro de oxigênio. Coragem, neste caso, é saber baixar o bloco sem virar presa; esfriar o jogo sem abandonar a bola; fazer a LDU se impacientar diante de sua torcida.
Ser valente não é atacar o tempo inteiro. Às vezes, é ter personalidade para não entrar na correria que o rival deseja.
O Mirassol precisa jogar feio quando o jogo pedir
Essa talvez seja a mudança mais importante. O Mirassol se acostumou a receber aplausos pela organização, pela construção limpa e pela ousadia. Ótimo. Mas Libertadores não é concurso de caligrafia tática.
Em certos momentos, será necessário rifar a bola, matar uma transição no nascedouro, gastar segundos, cavar uma falta e obrigar o jogo a respirar. A LDU conhece cada malícia desse cenário. Sabe quando acelerar, quando reclamar, quando cercar a arbitragem e quando transformar uma cobrança lateral em capítulo de novela.
O time brasileiro não pode chegar aos Andes com a inocência de quem visita um ponto turístico. Vai enfrentar um adversário acostumado a esse ambiente, não fazer excursão para tirar foto da paisagem.
A altitude, aliás, costuma ganhar poderes sobrenaturais na conversa pré-jogo. Não chuta, não cabeceia e não dá assistência. Mas pune escolhas ruins. Se o Mirassol entregar a bola depressa demais, errar passes simples e obrigar seus jogadores a percorrer metros desnecessários, os 2.850 metros de Quito deixarão de ser contexto e virarão personagem principal.
É como subir uma ladeira carregando uma geladeira e, no meio do caminho, lembrar que esqueceu a chave em casa. Não precisa.

Rafael Guanaes deve abandonar qualquer vaidade. A escalação precisa privilegiar pernas, capacidade de retenção e disciplina sem a bola. Mais importante do que juntar atacantes será garantir que o primeiro passe depois da recuperação não volte imediatamente para a LDU. Cada posse bem sustentada funcionará como uma pequena pausa para o organismo e uma provocação à arquibancada.
Também será fundamental escapar da armadilha emocional. Se sofrer pressão no começo, o Mirassol não estará necessariamente jogando mal. Se passar dez minutos sem atacar, a classificação não terá ido embora. O duelo pede leitura, não desespero.
O maior adversário do Mirassol não é a altitude. É a ansiedade de querer resolver a noite antes de entendê-la.
Não basta continuar simpático
Há uma condescendência perigosa em torno de projetos emergentes. Quando vencem, são tratados como exemplo; quando falham, aparece logo a frase confortável: “Já fizeram muito”. O Mirassol realmente fez muito. Mas esse elogio não pode servir de álibi.
O clube chegou a este ponto porque foi competente, não porque recebeu convite para uma festa reservada aos grandes. Se pertence à Libertadores, deve ser cobrado como participante da Libertadores. Isso inclui reagir depois do 5 a 1, corrigir uma defesa vulnerável e competir em Quito sem aceitar o papel de figurante encantado com o cenário.
A vaga não exige que o Mirassol negue sua identidade. Exige que acrescente algo a ela: malícia. O time continuará precisando trocar passes, atacar os espaços e reconhecer seus momentos. Mas terá de fazer isso com escudo, capacete e a consciência de que toda bola perdida pode descer a montanha mais rápido do que qualquer zagueiro.
O 1 a 1 no Maião não foi um desastre. Tampouco oferece conforto. Deixou a decisão exatamente onde a LDU gosta: em sua casa, em sua altitude, diante de uma equipe brasileira obrigada a lidar com fantasmas recentes.
Perfeito. É nesses jogos que um projeto deixa de ser uma bela história e vira instituição competitiva.
O conto de fadas trouxe o Mirassol até Quito. Para voltar com a vaga, será preciso jogar como quem já aprendeu onde os vilões escondem a faca.
Matérias relacionadas

VAR evita o primeiro pênalti por fogo amigo do Brasileirão
Choque entre Moledo e Bruno Melo enganou o árbitro no fim de Coritiba x Mirassol. Desta vez, o VAR fez exatamente o trabalho para o qual foi criado.

CBF transforma revisão de arbitragem em chamada escolar — e o VAR fica de castigo
Pênalti anulado em Mirassol x Palmeiras saiu da pauta porque um dirigente faltou. Na CBF, transparência virou prêmio para quem responde “presente”.

Identificar o agressor foi o mínimo. Agora o Santos precisa bani-lo
O Santos acertou ao localizar quem cuspiu em Reinaldo. Agora precisa garantir banimento e punição individual — sem castigar a Vila inteira.